Imagem Fábio Gallo
Colunista
Fábio Gallo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A revolta das sardinhas

Em março, ação da GameStop valia US$ 3,20; após ação de investidores, era cotada a quase US$ 194 na última sexta-feira, 29

Fábio Gallo*, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 05h00

O mais recente “chocoalhão” no mundo financeiro foi o impulso a ações que não valiam nada e que, graças a uma ação coordenada pela internet, dispararam nas bolsas. O caso mais famoso foi a da GameStop, ação que em março de 2020 valia US$ 3,20 e que, na sexta-feira, estava quase em US$ 194. Somente em um dia da semana passada, mais de US$ 24 bilhões em ações trocaram de mãos. Alguém pode achar que isso representa uma aventura audaciosa e uma nobre vingança das sardinhas contra os tubarões do mercado. Mas essa ação pode trazer prejuízos e ferir algumas bases de mercado, trazendo ainda mais prejuízos. 

Primeiro temos de considerar que esse posicionamento não provocou somente crescimento vertiginoso de preços somente na GameStop, mas também em Nokia, AMC, Kodak, Blackberry e até na American Airlines. No Brasil, as ações do IRB passam por esse movimento. Essa instabilidade afeta não somente o mercado financeiro tradicional. As criptomoedas também não deverão escapar. 

Alguns especialistas já creem que a coisa pode ficar muito feia. Temos de lembrar que grande parte das negociações são feitas por robôs que operam com base em algoritmos e que irão dar ordens automáticas, reagindo a noticias de sites especializados. Um exemplo é a ordem de liquidação de posição de mais de R$ 15 milhões na BitMEX feita pelo o robô conhecido como REKT menos de uma hora após essas publicações – obviamente gerando outras liquidações em sequência. 

Outros operadores estão vendo essa situação como uma onda de oportunidades de grandes retornos. Mas precisamos entender que o ambiente é de alto risco. Grandes fundos colocaram suas fichas na venda a descoberto, conhecida como “short squeeze”, apostando na queda de ações que não estavam com boas perspectivas de mercado, com base em análise desses negócios e de suas perspectivas. 

Ninguém aqui está dando atestado de boa conduta a esses fundos, mas eles agiram dentro da regra de mercado. Por outro lado, mesmo sendo romântica a visão de troco dado pelas sardinhas, isso ocorreu por ação coordenada. Tanto que está sendo objeto de investigações por parte das agencias fiscalizadoras. Essa situação pode levar a descréditos à transparência de mercado e gerar outras situações de maior instabilidade. 

Reproduzindo a fala de Tyler Gellasch, presidente da Healthy Markets Association: “Isso é humilhante para quem mantém a ideia antiquada de que o mercado canaliza o dinheiro para uso mais eficiente.” Empresas como a GameStop não apresentam garantia alguma de que seu negócio se tornou lucrativo e que seu futuro está garantindo. 

A preocupação é com o pequeno investidor, que acaba entrando nessa história sem saber direito o que está acontecendo. Este poderá cair no esquema de pirâmide financeira e perder muito dinheiro ao entrar no momento errado e ficar no fim da fila. 

Em março do ano passado, tivemos o “Corona Crash”, espero que não tenhamos uma nova crise ou um novo “Sardine Crash”.

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.