A revolta dos ricos

As pessoas de alta renda ficam revoltadas só de pensar que poderão pagar impostos modestamente mais altos. E atacam Obama

PAUL KRUGMAN / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Artigo

A revolta está tomando conta dos EUA, Na verdade, essa ira incandescente é de uma minoria, não tem a ver com a maioria dos nossos concidadãos. Mas essa minoria está revoltada realmente indignada. São pessoas que estão sendo espoliadas de coisas às quais têm direito. E estão prontas para se vingar.

Estou me referindo aos ricos. São tempos terríveis para muita gente neste país. A pobreza, especialmente a pobreza extrema, cresceu: milhões de pessoas perderam suas casas; os jovens não conseguem emprego; desempregados na faixa dos 50 temem que nunca mais voltarão a trabalhar.

Mas se você quer saber onde está a verdadeira raiva política - aquela que faz as pessoas compararem o presidente Barack Obama a Hitler, ou acusá-lo de traição - não vai encontrá-la entre os americanos que estão sofrendo, mas entre os muito privilegiados, aquelas pessoas que não têm que se preocupar com coisas como perder o emprego, a casa ou o seguro de saúde. Elas ficam revoltadas só de pensar que poderão pagar impostos modestamente mais altos.

A cólera dos ricos vem se formando desde que Obama assumiu o governo.

No começo, porém, estava limitada a Wall Street. Assim, quando uma revista de Nova York publicou um artigo com o título "O lamento dos 1%", a referência era aos especuladores financeiros cujas empresas foram socorridas com recursos do contribuinte, mas que ficaram furiosos com sugestões de que os pacotes de ajuda deveriam incluir restrições temporárias para suas bonificações. Quando o bilionário Stephen Schwarzman comparou a proposta de Obama à invasão nazista da Polônia, a proposta em questão teria preenchido uma lacuna fiscal que especificamente beneficia administradores de fundos como ele.

Mas agora, à medida que se aproxima uma decisão sobre a sorte dos cortes de impostos decididos por George W. Bush - será que as taxas sobre as grandes rendas voltarão aos níveis da era Clinton? -, a revolta dos ricos aumentou e, de alguma maneira, também mudou seu caráter.

Em primeiro lugar, a loucura agora está predominando. Uma coisa é quando um bilionário vocifera durante um jantar. Outra é quando uma revista como a Forbes publica uma matéria de capa em que afirma que o presidente dos Estados Unidos está tentando deliberadamente derrubar os EUA como parte do seu programa "anticolonialista" queniano, e "os Estados Unidos estão sendo governados com base nos sonhos de homens da tribo Luo dos anos 50". Quando se trata de defender os interesses dos ricos, as regras de um discurso civilizado (e racionais) parecem não mais se aplicar.

Os republicanos dizem que elevar os impostos para os mais ricos pode prejudicar as pequenas empresas, mas não estão muito convictos disso. Por outro lado, é cada vez mais comum ouvir negações veementes de que as pessoas que ganham US$ 400 mil ou US$ 500 mil por ano são ricas. Quero dizer, veja os gastos das pessoas nessa classe de renda - imposto sobre a propriedade imobiliária que elas precisam pagar sobre seus imóveis caríssimos, o custo de enviar os filhos para escolas privadas de elite, e assim por diante.

Elas mal conseguem chegar ao fim do mês.

E, entre os realmente ricos, uma convicção beligerante dos seus direitos tomou conta deles: é o meu dinheiro e tenho todo o direito de zelar por ele. "Imposto é o que pagamos por uma sociedade civilizada", disse Oliver Wendell Holmes - mas isso foi há muito tempo.

O espetáculo oferecido pelos americanos de alta renda, as pessoas mais felizes do mundo, imersas na autocompaixão e na hipocrisia, seria divertido se não fosse uma coisa: eles poderão muito bem ganhar a causa.

Veja, os ricos são diferentes de você e de mim; eles têm mais influência. Em parte, isso se deve às suas contribuições de campanha, mas também é por causa da pressão social, uma vez que os políticos passam muito do seu tempo no círculo dos abastados. Assim, quando essas pessoas deparam com a perspectiva de gastar 3% ou 4% da sua renda em impostos, os políticos sentem a dor delas - sentem muito mais, é claro, do que a dor das famílias que estão perdendo seus empregos, suas casas, suas esperanças.

E quando essa batalha fiscal acabar, de uma maneira ou outra, pode estar certo de que aqueles que hoje estão defendendo o dinheiro da elite voltarão a exigir cortes na Previdência Social e no salário-desemprego. Os EUA têm que tomar decisões difíceis, é o que dirão: todos nós temos que nos dispor a fazer sacrifícios.

Mas quando eles dizem "nós", estão querendo dizer "você". Sacrifício é para o "povão". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É NOBEL DE ECONOMIA

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