A revolução capitalista de Mao

Ao tentar impedir a China de seguir o 'caminho capitalista', o líder da Revolução Cultural conseguiu exatamente o efeito contrário

ORVILLE SCHELL , JOHN DELURY, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h13

Ao discursar na abertura do Strategic and Economic Dialogue, um encontro anual que reúne autoridades chinesas e americanas do alto escalão, o vice-presidente americano Joe Biden referiu-se à sua primeira visita à China em 1976, ano da morte do camarada Mao Tsé-tung. "Na ocasião, já estava claro que a China estava prestes a uma mudança fenomenal".

Isso foi há 37 anos, quando a China ainda era um dos países mais pobres do mundo - mesmo depois de um século em que testou fórmulas e fórmulas para se tornar novamente uma nação sólida e poderosa.

Mas não ficou claro na ocasião se as mudanças incipientes que Biden observou realmente se consolidariam. Poucos imaginavam que, no início do século 21, a China estaria em posição de concorrer com os Estados Unidos econômica e militarmente. Assim, depois de passar muitas gerações atolada num ciclo de reformas fracassadas e revoluções, como a China conseguiu finalmente chegar a este prolongado período de dinamismo econômico?

Uma das explicações mais interessantes e paradoxais tem a ver com Mao, o mesmo Mao que teve um efeito destrutivo sobre a China nas últimas décadas da sua vida. Ao arrasar o edifício da velha China de modo tão implacável, Mao na verdade abriu caminho para as reformas subsequentes empreendidas por Deng Xiaoping e, assim, foi muito importante para o renascimento de uma China que ele jamais imaginou ainda vivo.

Nenhum líder da China no século 20 foi mais ditatorial e impiedoso no assalto à cultura tradicional do que Mao. Sob seu governo despótico, a herança confuciana da China e os velhos valores sociais foram submetidos a ataques incessantes sem paralelos na história. Desde o início do século 20, reformadores como o intelectual Liang Qichao e o líder político Sun Yat-sen afirmavam que a modernização da China exigiria destruir o velho para abrir caminho para o novo. E desejavam transformar a dócil população num conjunto de cidadãos patriotas e transformar a xenofóbica classe governante numa elite moderna e cosmopolita.

Mas nenhum dos predecessores de Mao conseguiu - ou desejou -, ter a mesma audácia ideológica, muito menos a força organizacional e a liderança implacável para desafiar os milhares de anos de cultura do modo agressivo necessário para neutralizar o estorvo da tradição à modernização.

O jovem Mao, discípulo de Liang e de Sun, era de um estofo muito mais duro. E acabou por adotar uma forma mais radical de revolução - que se baseava na sublevação violenta, constante. Enquanto outros conseguiram apenas abafar a influência da antiga cultura chinesa, Mao quase extirpou suas raízes, e daí sua influência sobre várias gerações subsequentes de chineses.

Suas sucessivas campanhas políticas e ideológicas culminaram na Grande Revolução Cultural do Proletariado, que terminou apenas com a sua morte e quase rompeu os vínculos da tradição em que o pai tinha ascendência sobre o filho, o marido sobre a mulher, o professor sobre o aluno, a família sobre o indivíduo, o passado sobre o futuro e a continuidade sobre a mudança. A Revolução Cultural iniciada por Mao em 1966 foi uma década perdida de sessões de críticas violentas contra pais, professores e quadros do partido, de jovens das cidades enviados para trabalhos no campo e de disputas de poder ferozes entre os líderes do alto escalão. As campanhas em massa de Mao como "Critique Confúcio e Lin Biao", e "Destrua os Quatro Velhos" tornaram a própria tradição chinesa uma inimiga da revolução.

Rompimento. Os vínculos dessa tradição atormentaram reformadores anteriores e muitos confessaram ser incapazes também de escapar dela. Lu Xun, mestre em literatura chinesa moderna, admitiu "redescobrir incessantemente" dentro dele "ideias odiosas que os antigos registraram em suas obras". Profundamente influenciado por Mao, Lu esperava que pelo menos a próxima geração pudesse ser poupada: "Permita que o homem consciente assuma o pesado fardo da tradição, que ele abra o portão da escuridão para seus filhos se evadirem para um espaço de liberdade e luz onde passarão os seus dias felizes e levarão uma vida verdadeiramente humana". E foi este "portão da escuridão" que Mao desejava demolir.

Mas tão poderosa era a influência do passado que, mais tarde, quase todas as primeiras gerações de reformadores retrocederam inelutavelmente para o "portão da escuridão" dos valores e da cultura tradicionais do qual desejaram ardentemente escapar. Liang, Lu e mesmo o fundador do Partido Comunista, Chen Duxiu, retornaram aos estudos clássicos chineses no fim da vida, procurando consolo nos textos antigos ao depararem com sua própria mortalidade e uma sociedade tão obstinadamente resistentes às mudanças.

Vista a partir das lentes da história, a força destruidora da revolução de Mao pode ter uma conotação diferente, de um instrumento que era cruel, mas necessário, abrindo o caminho para qualquer coisa que surgisse. É verdade que as duas décadas finais de Mao - desde a Campanha AntiDireitista até o Grande Salto para a Frente, passando pela Grande Revolução Cultural do Proletariado - foram anos "perdidos" terríveis da China. Dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas em nome da revolução permanente de Mao; dezenas de milhões morreram de fome por causa das medidas econômicas imprudentes de Mao.

Mas, examinando por meio do olho frio da história, podem ter sido exatamente esses períodos do mais completo niilismo de Mao que demoliram a velha sociedade chinesa, libertando os chineses das suas amarras tradicionais. O brutal governo de Mao foi talvez o precursor essencial, embora paradoxal, do boom subsequente da China sob o regime de Deng Xiaoping e seus sucessores, lançando os chineses na sua busca determinada e irrestrita de riqueza e poder.

Mesmo John Fairbank, da Universidade Harvard, que iniciou os estudos modernos chineses nos Estados Unidos (e é um entusiasta de Mao), avaliou a virtude purificadora da revolução permanente do Camarada Mao. "Na velha sociedade, os professores eram venerados pelos alunos, as mulheres eram submissas a seus maridos, e o idoso era tratado com deferência pela juventude", escreveu, em 1980."Demolir tal sistema demorou muito porque era necessário mudar os valores e pressuposições aceitas na infância. Era necessário um líder com uma violenta força de vontade, um homem determinado a destruir o velho establishment burocrático sem que nada o detivesse."

Anticapitalismo. Em 1966, Mao lançou a Revolução Cultural para impedir a China de "seguir o caminho capitalista". Mas, ironicamente, seus esforços acabaram por ter exatamente o efeito contrário. Um veredicto comum seria: "Sem uma revolução cultural não existe reforma econômica", disseram Roderick MacFarquhar e Michael Schoenjals, historiadores importantes do período, em seu livro publicado em 2008, A última revolução de Mao. "A Revolução Cultural foi um desastre tão grande que levou a uma revolução cultural ainda mais profunda, exatamente aquela que Mao pretendia impedir".

Ao forçar a sociedade chinesa a abandonar seus hábitos antigos, Mao presenteou Deng com um vasto "canteiro de obras" onde as velhas estruturas e censuras na maior parte foram demolidas. Portanto, pronto para Deng implementar suas novas estratégias de reforma e abertura. A capacidade destruidora de Mao, que deveria preparar a China para sua versão de socialismo utópico, inversamente abriu caminho para a transformação da China exatamente no tipo de economia capitalista que muitos criticavam quando ele estava vivo, mas também uma nação com a qual Mao e todos os reformadores chineses modernos antes dele sonhavam construir: uma nação forte e próspera. A pergunta agora para os líderes é o que pretendem fazer com a riqueza e o poder que hoje possuem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Artigo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.