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A revolução das pombas

Governo Bolsonaro terá de demonstrar bons resultados

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 05h00

É comum vermos um repique significativo nos mercados em janeiro, tanto em termos de volume como de preço. Já que os gestores iniciam o ano com seu placar de desempenho zerado, na largada eles partem com um viés bullish (otimista), voltando a investir no mercado parte da carteira que estava aplicada em ativos líquidos. Os analistas ecoam esse comportamento adotando um tom mais benigno nos seus relatórios de pesquisa. 

Observamos esse comportamento em janeiro de 2018: os mercados largaram à toda velocidade até fevereiro, quando sofreram o primeiro tropeção do ano. O baque foi causado por um tom mais hawkish (agressivo) do banco central americano (Fed), avisando ao mercado que ele iria acelerar o ritmo do aperto da política monetária em 2018. O mercado reduziu risco rapidamente e em seis semanas o índice S&P 500 caiu 10%. 

Em janeiro de 2019 o mercado começou o ano a todo vapor. Nos Estados Unidos, o índice da Bolsa S&P 500 subiu 14%, recuperando 71% da queda de 19,6% sofrida no quarto trimestre de 2018. No Brasil, o índice Bovespa subiu 11,5% em reais. Dado o otimismo do mercado com o governo Bolsonaro, desde setembro de 2018, o Bovespa subiu 31,2% em reais, ou 52% em dólares. 

À luz deste comportamento positivo das bolsas de valores no exterior e no Brasil, é importante entender porque o mercado ficou tão otimista em 2019. Será algo efêmero como o efeito janeiro ou algo duradouro, como uma melhora dos fundamentos macroeconômicos globais? 

A grande novidade para o mercado foi a perspectiva para uma política monetária mais frouxa nos Estados Unidos e, em menor grau, na Europa. Na medida em que o mercado derretia em dezembro, o presidente do Fed Jerome Powell e o comitê de política monetária do Fed mudaram completamente as diretrizes da política monetária. Nas suas últimas duas reuniões, o Fed adotou um tom dovish (brando), sinalizando que é pouco provável que ele irá aumentar as taxas de juros em 2019. Além disso, o Fed interrompeu o seu programa de venda de ativos em carteira, o que afrouxa o aperto quantitativo da política monetária. O mercado de juros precificou imediatamente que em 2019 o Fed não vai aumentar a taxa de juros, comparado com uma expectativa de quatro aumentos de 0,25% antes dos anúncios. Eu prefiro trabalhar com a hipótese de que teremos pelo menos um aumento da taxa juros este ano. Na Europa, o presidente do Banco Central Europeu sinalizou que só irá aumentar a taxa de juros a partir de 2020.

A expectativa de juros mais baixos e ativos mais baratos explicam a retomada do apetite por risco e a recuperação dos mercados em janeiro. O mercado chama este efeito de “Powell put”: ao adotar uma política monetária mais frouxa, o Fed prolongou a longevidade do bull market (tendência de alta). 

É inquestionável a potência da política monetária do Fed nos Estados Unidos para ditar a direção e o vigor de alta dos mercados, mas não é óbvio que 2019 será um ano fácil para os mercados financeiros globais. A principal razão é que, desde outubro de 2018, os fundamentos macroeconômicos globais pioraram, já que a economia mundial continua a se desacelerar. Além disso, a natureza errática da gestão Trump, como o risco elevado de um agravamento da guerra comercial e seus enfrentamentos com o Congresso, geram incerteza e reduzem a confiança do consumidor e dos investidores.

No dia 21 de janeiro o FMI reduziu as suas previsões para o crescimento global de 3,7% para 3,5% para 2019, prevendo que o crescimento do PIB nos Estados Unidos, Europa e China desacelerarão para 2,0%, 1,6% e 6,2% em 2019 versus 2,9%, 1,8% e 6,6% em 2018. 

No Brasil, a performance do índice Bovespa tem sido espetacular. No entanto, parte destes ganhos é a combinação da redução do prêmio de risco das ações; o rebalanceamento das carteiras por parte dos investidores nacionais e estrangeiros; e a recuperação dos mercados internacionais.

O índice Bovespa pode ir bem além de 100 mil pontos. Para que isso seja possível, o governo Bolsonaro terá de demonstrar bons resultados em matéria de política econômica e o Brasil terá de voltar a crescer de forma vigorosa e sustentável. Ou seja, o preço das ações só continuará a subir caso a economia e o lucro das empresas cresçam de forma robusta e sustentável. 

*PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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