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A revolução do automóvel

Conectividade, simplicidade, automação, sustentabilidade e segurança passam a ser prioridades do carro do futuro quase presente; e o Brasil não vai escapar dessa revolução

Celso Ming e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 15h00

A indústria de veículos está à beira de uma revolução mundial. Ao longo de mais de cem anos, os automóveis foram usados quase da mesma forma. No curso de uma década, não será mais assim.

Por toda parte toma força a rejeição de motores movidos a combustíveis fósseis. Isso significa que o mercado começa a dar preferência aos carros elétricos e híbridos. Além disso, está em curso radical mudança de conceito. Os aplicativos de aluguel, de carona compartilhada e de transporte privado tendem a esvaziar a cultura do carro como objeto de propriedade e de bem de família. Ganha corpo a proposta do veículo autônomo, que dispensa motorista e que poderá ficar à disposição de qualquer usuário como hoje acontece com bicicletas nas grandes cidades.

 

 

Conectividade, simplicidade, automação, sustentabilidade e segurança passam a ser prioridades do carro do futuro quase presente. As mudanças de paradigma não ficarão restritas ao que acontece dentro das fábricas, mas passam para a forma com que os carros são consumidos.

Essas não são elucubrações de futuristas. A China acaba de optar por políticas de favorecimento do carro elétrico. A sueca Volvo decidiu que, a partir de 2019, não fabricará mais veículos a diesel e a gasolina. Os veículos autônomos (sem condutor) já começaram a rodar nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil, no caso de caminhões voltados à colheita de cana-de-açúcar. A Tesla, empresa norte-americana pioneira e mais avançada em tecnologia de carros autônomos, produziu apenas 84 mil unidades em 2016, mas, em abril, seu valor de mercado ultrapassou o da General Motors Corporation, que fabricou e vendeu 10 milhões de veículos também em 2016. O Salão do Automóvel de Frankfurt, na Alemanha, que se encerra dia 24, exibe grande número de veículos dotados de todo tipo de novidades.

O Brasil, o décimo maior produtor de veículos do mundo, não vai escapar dessa revolução, sob pena de ver sepultada sua indústria diante da inexorável concorrência. No entanto, longe de ser apenas um problema, a nova situação pode ser a redenção da indústria brasileira de veículos.

Pouco competitivo e atrasado do ponto de vista tecnológico, o setor não precisaria mais gastar capital e esforço administrativo para se igualar ao estágio atual das montadoras convencionais. Pode dar o pulo do gato e abraçar mais rapidamente os novos tempos. Depende apenas de decisão das montadoras e de vontade do governo para definir uma política específica para o setor.

O governo está para anunciar o programa Rota 2030 em substituição ao moribundo Inovar-Auto, instituído no governo Dilma, condenado na Organização Mundial do Comércio por adotar medidas desleais de concorrência e objeto de graves críticas aqui dentro, na medida em que encareceu a importação de tecnologia. Mas o novo programa parece muito aquém das exigências que estão sendo construídas nesse admirável mundo novo.

Pensado para entrar em vigor em 2018, o Rota 2030 pretende fazer o Brasil competitivo globalmente por meio de eficiência energética, baixo índice de emissões, segurança e tecnologia. O projeto tem lá seu mérito, que é o de propor a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em proporção à incorporação do chamado “Fator K”: quanto maior a eficiência energética, mais baixo o imposto. Mas, se tudo der certo, esse programa nem sequer arranhará o que se pedirá do setor nos próximos anos. Eficiência energética convencional é pouco diante da revolução que vem aí.

Especialista em Setor Automotivo na  PricewaterhouseCoopers (PwC) Brasil, Marcelo Cioffi entende que a indústria brasileira deve movimentar-se em duas direções: tanto deve modernizar seus produtos como deve diversificar suas fontes de receita. O carro brasileiro terá de competir internacionalmente sob pena de ser alijado do mercado. E as montadoras terão de inserir-se mais decisivamente no setor de serviços, onde tendem a prevalecer a carona compartilhada e o aluguel de veículos. “A longo prazo, elas estão correndo atrás da sobrevivência”, adverte ele.

O argumento de que no Brasil as prioridades são outras e que o carro do futuro pode esperar esbarra não só com a necessidade de competir lá fora, onde o mercado mudou. Se continuar aferrado aos carros convencionais, o País será território de desova de encalhes de todo o mundo.

As novidades atingem também dois outros setores: os sindicatos e o segmento do etanol. Os primeiros terão de enfrentar enormes problemas de requalificação profissional. E o etanol, embora muito menos poluente do que os combustíveis fósseis, terá de enfrentar os problemas crônicos de baixa competitividade e, portanto, de relativa rejeição internacional. 

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