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A roda que gira

Fronteiras antes tão bem definidas desaparecem em produtos e serviços financeiros

Ana Carla Abrão, Impresso

22 de janeiro de 2019 | 05h00

Regulação financeira era, até outro dia, sinônimo de imposição de requerimentos de capital e de controles de liquidez e solvência. Além disso, compunham o pacote tradicional, autorizações de funcionamento com critérios mínimos rigorosos; regras estritas de atuação para grandes conglomerados financeiros; e controles e colchões contra riscos operacionais, de crédito, ou de mercado. Recentemente, evoluiu-se para adicionar planos e fundos de resolução bancária, dando um passo adiante em relação aos sistemas de seguro-depósito, por definição mais limitados na contenção de crises financeiras sistêmicas.

Agora a regulação financeira enfrenta novos desafios e busca se adaptar aos novos tempos. Enquanto a crise de 2008 foi esvanecendo – e preenchendo todo o foco regulatório –, outros modelos de negócio surgiram, definindo um novo ecossistema financeiro. Padrões foram mudados, novos serviços e produtos passaram a ser ofertados e novas expectativas passaram a ditar as regras, numa disrupção que tem na relação com o consumidor o seu principal ponto de quebra.

Novas tecnologias abriram espaço para que as Bigtechs, como Amazon e Google, ou empresas como a Apple, alterassem padrões e impulsionassem mudanças de comportamento nas pessoas. Mas, acima de tudo, determinaram uma nova forma de se relacionar com um consumidor cada vez mais independente, exigente e muito ciente de suas escolhas.

Fronteiras antes tão bem definidas desaparecem em produtos e serviços financeiros que se fundem com operações do dia a dia. Nesse movimento, também o perímetro da regulação financeira começa a ser questionado, expondo limites mais tênues entre a economia real e o mundo financeiro. Tomar um café na loja da esquina está a um clique de uma carteira virtual, assim como pagar a tarifa do ônibus ou transferir recursos diretamente via um aplicativo de mensagens. É o efeito combinado das mudanças no comportamento do consumidor, das novas tendências tecnológicas e da consequente mudança no ecossistema financeiro.

Pelo lado dos consumidores as mudanças são evidentes: exigência e expectativas mais altas; busca por conveniência e por experiências diferenciadas; e menor lealdade com incumbentes já definem uma outra relação. Para a regulação, isso significa que o perímetro tradicional de um sistema financeiro estruturado – e claramente delimitado – começa a perder sentido. Junte-se às preferências por canais digitais, a ampla conexão por mídia social e comunicação instantânea e uma maior tolerância com o compartilhamento de dados e tem-se, aqui também, uma nova realidade.

A tecnologia abriu espaço para a modularização dos serviços e o surgimento de novas linhas de negócio, com provedores complementares conectados. Instituições não bancárias passam a ocupar espaços que até pouco tempo eram prerrogativa de bancos tradicionais. Maior competição e transparência pressionam preços e geram amplo acesso a informação. No campo de pessoas, jovens talentos são atraídos por novos modelos de negócio, baseados em sistemas de incentivos diferenciados, com o individualismo perdendo espaço para a cooperação.

Finalmente, a padronização de dados, aliada à ampliação da capacidade de armazenagem e processamento, gera ganhos de escala e de terceirização. Novas plataformas de atendimento, enfeitadas pelas palavras da moda como blockchain, touchable, realidade virtual, contactless, data & analytics, machine learning ou inteligência artificial, trazem agilidade e inovação com custos cada vez mais baixos.

Mas tudo isso não vem sem riscos. Os cibernéticos e outros tantos riscos operacionais estão cada vez mais presentes. Empresas de tecnologia, fora do perímetro regulatório, são parte dos novos entrantes num sistema híbrido e não totalmente mapeado. Mas a realidade é que os riscos financeiros estão se espalhando cada vez mais para empresas não financeiras e para a economia real.

Nessa roda que gira cada vez mais rápido, a regulação financeira se vê mais pressionada a atuar fora da zona de conforto e se adaptar a um ecossistema modular, com fronteiras tênues e zonas cinzentas, numa realidade que se torna mais ampla e virtual.

* ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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