Gabriela Bilo/Estadão
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

‘A saída do isolamento social será com passinhos de bebê’, diz presidente do Fleury

Executivo participou da série ‘Economia na Quarentena’, do ‘Estadão’, e afirmou também que covid-19 será 'divisor de águas na digitalização da saúde no Brasil’

Entrevista com

Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 05h00

Na linha de frente do combate ao coronavírus, o grupo Fleury tem absorvido parte da demanda de testagem de pacientes. Isso foi possível, de acordo com Carlos Marinelli, presidente do Fleury, porque a empresa viu a redução na demanda de consultas e exames eletivos e também porque o setor de saúde se adaptou muito rapidamente a novas tecnologias por causa da pandemia: “A covid-19 é o divisor de águas na digitalização da saúde no Brasil”.

Como é afetado pela pandemia, que já matou mais no Brasil do que na China, o grupo sabe que a saída do isolamento social – que em São Paulo está marcada para o dia 10 de maio – precisará ser feita com base em dados científicos. “Infelizmente vamos ter de fazer a reentrada com passos de bebê” E vamos aprendendo.” O executivo participou nesta terça-feira, 28, da série de entrevistas ao vivo "Economia na Quarentena", do Estadão

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o Fleury foi afetado pelo coronavírus?

O isolamento social é uma medida que ajuda a  preservar a vida, organizando melhor os recursos de saúde e achatando a curva da contaminação. O nosso público, que é focado nos segmentos premium e intermediário alto, está aderindo fortemente ao isolamento, fazendo home office e evitando sair às ruas. Tivemos também uma queda de procedimentos eletivos, que podem ser postergados, o que vale tanto para consultas quanto para exames. Estamos fazendo exames de covid na nossa unidade. Os outros trabalhos acabaram sendo postergados.

Na parte laboratorial, o quanto o Fleury está focado no coronavírus?

A gente virou a operação para o coronavírus. Fizemos o drive thru para exames de coronavírus nas nossas unidades. Hoje estamos fazendo ultrassom móvel, com o médico indo à casa do paciente. A gente teve de readaptar as nossas unidades dentro do esquema da pandemia. Estamos vivendo uma situação que é um divisor de águas na saúde brasileira. Vemos intensamente o uso de tecnologia na saúde. O covid-19 é um divisor de águas da digitalização da saúde no Brasil.

Em qual sentido?

Telemedicina. Antes da pandemia, esse era um assunto muito controverso. O covid-19 mostrou como essa tecnologia pode ajudar numa série de situações. O contato com o médico pode ser feito, ele pode transmitir segurança e informações para o paciente. Isso vai mudar muito dos nossos comportamentos. Já se fala muito da ‘low touch economy’, uma economia de baixo contato e de mais distanciamento. E isso também vai acontecer na saúde. O distanciamento físico não é mais uma barreira para o atendimento médico.

O Fleury tem dado conta da demanda por testes de coronavírus?

Não deixamos de atender ninguém. Estamos adicionando outros tipos de exame, como a sorologia. Tem o PCR, que é para identificar a doença na pessoa que está com sintomas, e o exame de anticorpos. Este identifica se a pessoa está desenvolvendo anticorpos. Nessa dinâmica toda dos testes rápidos, que muitas vezes têm qualidade muito baixa, decidimos aplicar apenas testes rápidos que sejam validados internamente. E, com isso, já temos um par de testes que estão sendo usados em prontos socorros de hospitais, como auxílio ao diagnóstico.

O Brasil testou pouco em relação a outros países de economia de tamanho semelhante. Existe a experiência de fazer a testagem aliada a pesquisas. É uma opção válida?

Mesmo São Paulo, que é um Estado com recursos, a gente testou pouco. A gente fez uma parceria com a USP e o Ibope em que  vamos ter uma amostragem. Desenhamos estatisticamente a amostragem, aplicamos o número de testes e, a partir disso,  tentamos escalar. A gente vai fazer entrevistas e coletas para termos muito rapidamente os dados dessas microrregiões de São Paulo. Depois disso o experimento vai ser disseminado a outras regiões. 

Estamos vendo um aumento do número de mortes por coronavírus no País. A pandemia foi subdimensionada?

Estamos em uma situação para a qual não estávamos preparados. Isso é verdade para o Brasil e também para países desenvolvidos.  Quando a gente começou a experimentar os efeitos da pandemia, ela já evoluía no chamado mundo ocidental. Isso fez com que tivéssemos problemas na cadeia de abastecimento de testes e equipamentos de produção individual. Houve uma redução do fornecimento em um primeiro momento, uma disputa muito grande. O que a gente está vendo agora é uma situação melhor, com a China mandando muitos equipamentos. Desde janeiro até agora, houve evolução muito grande do conhecimento sobre a doença, estamos todos os dias descobrindo novas facetas.

Desde o começo da pandemia no Brasil, houve desacordo entre o governo federal e alguns Estados. Isso atrapalha?

Se a gente quiser passar pelo problema teremos de garantir liderança, diálogo e convergência de ações. Muitas vezes existem atritos, mas que esses atritos gerem energia – e não calor entre as partes.

Na semana passada, tivemos a saída do Sergio Moro do governo. A crise política pode afetar a retomada?

Temos uma situação bastante desafiadora. Acredito que as medidas de achatamento da curva de contaminação tiveram sucesso. O isolamento social está nos ajudando a ter uma situação muito melhor do que sem ele. Só que a vida segue e existe a questão do impacto econômico. O fato é que a gente vai empilhando uma crise sobre a outra. E isso deixa o ambiente mais complexo. Quanto mais previsibilidade e estabilidade, lógico que vai ser melhor para o Brasil.

Como deve ser feito o relaxamento do isolamento social? Em São Paulo, epicentro do coronavírus do País, começa no dia 10 de maio.

A gente não pode errar nesse processo, porque erros vão custar vidas. Não podemos ficar reféns do medo o tempo inteiro. Uma reentrada precisa ser organizada, coordenada e feita com base em conhecimento. É possível ter uma situação em que não vamos errar em nada? Não. Mas o que a gente pode ser é conservador e trabalhar com conhecimento. Devemos fazer isso de uma maneira responsável, o que significa levar em conta a quantidade de leitos em hospitais, as UTIs, a testagem da população, o mapeamento da disseminação da população. Não podemos simplesmente voltar aos patamares (de circulação de pessoas) de março. Vamos ter algumas de nossas liberdades restritas. Não poderemos ter aglomerações, alguns serviços vão demorar para voltar. Infelizmente vamos ter de fazer a reentrada com passos de bebê. E vamos aprendendo. A Alemanha, por exemplo, tinha um índice de contaminação bem inferior, mas que cresceu depois do relaxamento do isolamento. 

Que lições tiramos da crise do coronavírus?

A gente pode muito mais do que imaginávamos. Estamos usando a tecnologia intensamente. Aprendemos a fazer de outro jeito, tivemos mais experimentação tecnológica e de dinâmica do trabalho. A economia que vai emergir pós-coronavírus, seja na saúde ou em outro segmento, é uma economia que vai testar muito mais. Os executivos tiveram de liderar e agir muito mais pela intuição do que necessariamente com dados e fatos – e olha que eu gosto de dados e fatos.

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