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A salvação da lavoura não é a lavoura

Acreditar que o Brasil possa crescer puxado pelo agronegócio é apenas uma ingênua quimera

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 04h00

Não se pode minimizar a importância histórica da agricultura nas grandes conquistas da civilização. Nathan Nunn e Nancy Qian publicaram em 2009 um saboroso texto (The Potato’s Contribution to Populatin Growth and Urbanization) em que demonstram por meio de modelos econométricos que nada menos que 22% do aumento da população mundial entre 1700 e 1900, quando passamos de 603 milhões para 1,6 bilhão de habitantes, se deveu à introdução do cultivo da batata na Europa. A melhoria na quantidade e na qualidade do consumo calórico foi fundamental para a maior expectativa de vida. Aqui, entre nós, há ainda quem pense, como os fisiocratas do século 18, que a agricultura é nosso passado e nosso futuro.

Agro é tech, agro é pop, agro é tudo, diz o slogan da campanha publicitária. Será, mesmo? Pelas estatísticas oficiais do IBGE, que seguem a convenção internacional, a participação do setor agropecuário no PIB brasileiro foi de 4,4% no ano passado. Já foi bem maior. Em 1960, por exemplo, era de 17,7%. Caiu porque os outros setores cresceram mais que a agropecuária. Este fenômeno é global. Estatísticas do Banco Mundial mostram que a contribuição deste segmento para o PIB do mundo recuou de 7,6%, em 1995, para 4%, em 2018. Os países ficam mais ricos, regra geral, desenvolvendo o setor industrial e o segmento de serviços sofisticados. Os cinco países com maior participação da agropecuária no PIB têm uma renda per capita média de US$ 1,6 mil, no conceito de paridade de poder de compra. Já os cinco com menor participação deste setor apresentam uma renda per capita de US$ 80.242.

Há distorções nesta comparação por causa de pequenos países produtores de petróleo, mas o fato é que a agropecuária é tanto mais importante quanto mais pobre for o país.

Isso se explica pelo impacto relativamente menor do crescimento desta atividade sobre os demais segmentos que compõem o PIB. Os efeitos de encadeamento sobre a tessitura da atividade econômica são menores que os provocados pelos outros segmentos.

Tomando as variações trimestrais anualizadas de dezembro de 1996 a junho de 2020, nota-se que a correlação do PIB geral com o PIB da agropecuária foi de apenas 0,3, ante 0,95, no caso da indústria, e 0,96, para serviços. Mesmo a geração de empregos é limitada, até porque o forte avanço tecnológico poupa mão de obra. Em julho deste ano, tínhamos 8 milhões de pessoas ocupadas na agropecuária, 9,8% do total. Esse porcentual vem caindo sistematicamente nos últimos anos. O rendimento médio habitualmente recebido pelos trabalhadores, por sua vez, é de R$ 1.409,00 na agropecuária, 46% menor que o da indústria e 61% menor que no serviço público (mas esta é outra história).

A Esalq-USP calcula o PIB do agronegócio, um conceito ampliado do setor, e chega à conclusão de que ele representa 21,4% do produto. Mas mesmo nesta métrica generosa, que não é incontroversa, a participação vem declinando – no ano 2000 era de 28,9%. Também as mazelas sociais persistem, mesmo com a prosperidade do setor. Sorriso, em Mato Grosso, é a cidade que mais produziu grãos em 2019. Mas dos 5.570 municípios brasileiros, fica em 2.274.º lugar em mortalidade infantil e em 4.193.º em taxa de escolaridade.

O agronegócio é um grande trunfo do Brasil. É a nossa melhor parte. Seu sucesso se explica pelo apoio do Estado, tanto no crédito quanto na pesquisa científica, pela exposição à concorrência internacional e pela qualidade extraordinária dos empresários rurais, sempre dispostos a tomar riscos. Mas acreditar que o Brasil possa crescer puxado pelo setor é apenas uma ingênua quimera. Agro pode ser pop e é cada dia mais tech. Mas agro não é tudo.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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