A Sicília e o abismo financeiro da Itália e da União Europeia

Análise: Gilles Lapouge

O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h05

O austero primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, que infligiu a seu país uma cura de um rigor cruel, recebe hoje, em Roma, o governador da Sicília, Raffaele Lombardo. Esse Lombardo não tem nada de austero. Como a Sicília fica numa região autônoma, ela possui administração própria: no ano passado, Lombardo aumentou para 17.995 o número de funcionários "regionais" da Sicília, enquanto a rica região de Milão (ao norte) tem apenas 3.200.

É bem verdade que os dois casos não são comparáveis: em Milão, o desemprego não é muito alto; na Sicília, ele é colossal (20% da população). Lombardo considera seu dever, portanto, reduzir esse desemprego. Com esse fim, ele vive contratando novos funcionários. A Sicília já possui 24.880 guardas florestais.

O Conselho Regional da Sicília se reúne na capital, Palermo. Ele está bem fornido. Emprega 1.383 funcionários. E como Lombardo tem o coração mole, ele cuida para que esses funcionários prosperem. Ele lhes paga 17 mil mensais. Infelizmente, o equilíbrio financeiro da Sicília não é perfeito. Ela tem déficit de 5,3 bilhões.

Esse Lombardo é um político hábil. Ele chegou ao poder à frente de uma composição de direita, aliado de Berlusconi. Após a queda deste, ele governa com uma maioria de esquerda.

Já lembraram Lombardo que esse enxame de funcionários é um abismo financeiro que desequilibra o conjunto da Itália. Mas Lombardo responde: "Diminuir o número de funcionários? Mas o que posso fazer? Matá-los?" Eis por que Mario Monti convocou o governador da Sicília a Roma. Ele já decidiu colocar a "região autônoma" da Sicília sob a tutela do Estado. Lombardo concordou e deveria se demitir, mas e se ele mudar de ideia?

Esse caso lembrará ao Banco Central Europeu (BCE) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que um dos flagelos da União Europeia é o desperdício das regiões em países como Itália e Espanha. Na Espanha, os déficits das regiões sobrecarregam as contas públicas. A região de Valência apelou a Madri para equilibrar suas contas e evitar a falência. O presidente da região de Múrcia vai pedir 300 milhões a Madri. E a rica e poderosa Catalunha tem 5,7 bilhões de créditos que estão vencendo e precisa financiar mais de 15 bilhões. No conjunto, as regiões espanholas precisam refinanciar mais de 15 bilhões. Enquanto isso, as taxas dos títulos espanhóis para 10 anos estão em 7,2%. É insuportável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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