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A solidão da América Latina

Apesar do crescimento contínuo entre 2000 e 2008, região ainda não resolveu os desafios que a caracterizaram há séculos

CARLOS , MUSSI, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h04

O século XXI não proporcionou até o momento as grandes transformações no rumo do desenvolvimento da América Latina. Continuamos com os desafios que nos caracterizaram nos últimos séculos: de como diminuir a nossa vulnerabilidade externa, seja a tradicional, vinculada ao ciclos das commodities, ou a mais recente, da volatilidade dos capitais externos; de mudar a nossa estrutura produtiva, com diversificação, produtividade e competitividade; de construir instituições e mecanismos para dar estabilidade às nossas finanças públicas e moedas; de prover direitos básicos, à educação, à saúde e à segurança; de gerir os nossos recursos naturais de forma sustentável e que contribuam para o nosso desenvolvimento; de ampliar empregos e salários decentes para diminuir a pobreza, e, principalmente, de reduzir as mais diferentes formas de desigualdades na região do mundo que é a mais desigual de todas.

Começamos o século com a expectativa de que poderíamos realizar as transformações que colocariam a América Latina em posição de dirigir seu desenvolvimento e reposicionar a sua inserção internacional. Entre 2000 e 2008, a região voltou a crescer de forma contínua, com taxas observadas antes da década perdida dos anos 1980, e principalmente, a pobreza e a desigualdade de renda diminuíram de forma consistente. A crise mundial do final de 2008 alcançou a região em um momento que dispunha de mecanismos e recursos para absorver o impacto inicial das dificuldades nas economias desenvolvidas envoltas no turbilhão do colapso financeiro. Ativamos em diferentes graus em cada país da região uma política fiscal expansionista, seja com redução de impostos, aumentos de gastos correntes - em particular dos programas de transferência de rendas - e a execução de planos de investimentos públicos, muitos em parceria com o setor privado. O resultado imediato para a maior parte dos países foi uma rápida recuperação, apoiada por uma igual retomada dos preços das commodities. Ademais, como os países desenvolvidos usaram a sua prerrogativa de emissores de moedas conversíveis, ampliaram a liquidez dos mercados financeiros em proporções nunca esperadas pelos dirigentes de seus bancos centrais.

No entanto, desde 2011, a América Latina cresce a taxas menores a cada ano. De 6,2% em 2010, para 4,3% em 2011, para 2,7% e 2,5% em 2012 e 2013, e estima-se 1,1% em 2014. Igualmente, observamos que nossos indicadores macroeconômicos gradualmente se deterioram. O déficit em conta corrente do balanço de pagamento incrementou de 1,4% do PIB regional em 2011 para 2,3% do PIB em 2014; o déficit fiscal nominal subiu de uma média de 2,1% do PIB entre 2005 e 2008 para 3,7% do PIB no período de 2011 a 2014; a taxa de inflação média regional acelerou de 6,4% no quadriênio antes da crise para 7,4% nos últimos quatro anos, chegando em 2014 a uma média de 9,4%!

Vários analistas, como o Professor Larry Summers, apontam que esses resultados latino-americanos fazem parte da tendência a uma possível estagnação secular da economia mundial. Mesmo que essa análise esteja concentrada na possível evolução das economias mais desenvolvidas, a América Latina pode buscar um novo ciclo de crescimento, desde que enfrente os seus próprios desafios, transformando as suas estruturas produtivas e buscando reduzir as diferenças sociais.

Observamos hoje na região um amplo debate sobre as opções de política econômica para estabelecer uma nova trajetória de desenvolvimento sustentável. No entanto, a América Latina deve superar ainda a sua "solidão". Como o escritor Gabriel Garcia Márquez, falecido em 2014, escreveu em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em dezembro de 1982, que a nossa solidão é a insuficiência de recursos ou meios para "fazer crível as nossas vidas". Ele escreveu esse discurso quando a região estava no meio de encruzilhadas políticas e econômicas, do autoritarismo das ditaduras militares e da crise da nossa dívida externa, com a moratória mexicana de setembro de 1982. Alertava Garcia Márquez que a América Latina não deveria ser um peão sem livre arbítrio, e que a nossa história não é decorrente apenas de conspirações tramadas a três mil léguas de nossas casas.

A América Latina mudou muito em relação a 1982, mas será que superamos a solidão? Na economia, devemos alcançar maior credibilidade para nossas políticas. Afinal, demonstramos capacidade de estabilizar e atuar de forma anticíclica. Porém, os recentes resultados indicam que vários países não concluíram mudanças na sua estrutura produtiva, seja pelos graus de conforto que o ciclo de commodities ofereceu com incremento de receitas públicas, disponibilidade de divisas, apreciação cambiária e acesso a importações, seja pela dificuldade de coordenar políticas públicas para transformar a economia ou por quimeras de que o voluntarismo estatal ou que a autonomicidade do mercado resolvessem os problemas econômicos.

Para essa maior credibilidade, há várias formas de solidão da região que devemos superar. A primeira é a solidão frente à nossa inserção na economia mundial, em especial no que são as principais cadeias de produção para diversificar as exportações. A outra solidão é a dificuldade da região em construir uma integração produtiva entre os países latino americanos, para que se possa tornar um efetivo fator de crescimento. A terceira solidão é a interna de cada país, entre governo e o setor privado, que precisam de confiança mútua para dar sequência aos seus projetos de investimentos.

A Cepal, nos seus principais relatórios desde 2010, identificados como a Trilogia da Igualdade, propõe políticas para que possamos buscar o crescimento, com políticas sociais inclusivas e com sustentabilidade, dentro de uma perspectiva integrada de desenvolvimento. O debate sobre essas propostas em cada país é importante para cumprir o que Gabriel Garcia Marquez falou em uma conferência realizada em Contadora, Panamá, em 1995: para que a América Latina exista, é necessário que pensemos sobre ela.

ECONOMISTA E DIRETOR DO ESCRITÓRIO DA CEPAL NO BRASIL. AS OPINIÕES AQUI APRESENTADAS NÃO REFLETEM A POSIÇÃO OFICIAL DA INSTITUIÇÃO

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