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A soma de alguns medos

A corrida assustada nos mercados, na quinta-feira, não foi um pânico total. A taxa de juros dos títulos de dez anos do governo americano - indicador muito melhor que o preço das ações para avaliar o que os investidores acham que acontecerá na economia - caiu abruptamente, mas, mesmo assim, acabou o dia mais alta que em meados de maio e bem acima dos níveis do início do ano. Isso nos diz que os investidores ainda consideram a hipótese de recessão, o que tornará improvável que o Federal Reserve reduza os juros. Portanto, não foi a soma de todos os medos, mas de alguns, particularmente, de três. O primeiro é o medo do crédito de má qualidade. Em março, após mais uma queda do mercado, engendrei uma fantasia sobre de que forma a desintegração financeira global poderá ocorrer: de repente, as pessoas vão se lembrar que coisas ruins acontecem e aí o prêmio de risco irá às alturas e o crédito ficará escasso. Parte disso ocorreu na quinta-feira. "O prêmio de risco sobre títulos das empresas apresentaram a maior alta em cinco anos", informou a Bloomberg News. "As vendas de dívidas capengaram, pois os investidores recusaram tudo, menos as dívidas mais seguras". Mark Zandi, da Moody?s Economy.com, disse que, se mais um fundo importante tropeçar, "isso poderá fazer surgir uma crise de confiança e um choque global".Já vi isso uma vez. Mas o que realmente surpreende é o quanto do atual nervosismo está relacionado a duas coisas que eu já considerava óbvias há muito tempo: as proporções da derrocada mobiliária e a persistência dos altos preços do petróleo. Escrevi muito sobre o setor imobiliário nos últimos dois anos, assim permita que eu repita os elementos básicos. Em 2002 e 2003, os juros baixos fizeram com que comprar uma casa parecesse um ótimo negócio. Mas, com a corrida das pessoas para as imobiliárias, os preços subiram - e as pessoas presumiram que continuariam subindo. Assim, o surto de crescimento alimentou a si mesmo: os mutuários começaram a tomar empréstimos que não podiam pagar e os financiadores, a afrouxar os padrões de exigência para os empréstimos. Eventualmente, a bolha tinha que estourar e, quando isso aconteceu, nos deixou com os preços muitos defasados em relação à realidade e uma enorme pendência de casas não vendidas. Isso, por sua vez, causou uma queda abrupta na construção de moradias e a inadimplência das hipotecas. A experiência dos últimos ciclos de altos e baixos no setor nos diz que deverão passar vários anos até que as coisas se normalizem.Sobre o petróleo tenho escrito menos, portanto permita-me ressaltar dois pontos. Primeiro: estamos agora no nosso terceiro ano de preços muito altos pelos padrões históricos - que, mesmo ajustados pela inflação, ainda são tão altos quanto os que prevaleceram no início da década de 1980. Segundo: diferentemente das crises energéticas do passado, esse aumento de preço ocorreu apesar de não ter havido nenhum grande transtorno no suprimento. O que está acontecendo é evidente: o desenvolvimento econômico está em conflito com a geologia. Os teóricos do "pico no preço do petróleo" podem estar certos ou não quando afirmam que a produção já está no nível mais alto que poderá jamais alcançar - se existe alguém que saiba o que está acontecendo na Arábia Saudita, por favor, me escreva -, mas encontrar novas fontes de petróleo está ficando muito mais difícil. Neste ínterim, economias emergentes, especialmente da Ásia, estão queimando cada vez mais petróleo, à medida que ficam mais ricas. Com a demanda nas alturas e o crescimento do suprimento, na melhor das hipóteses, desacelerado, o que se tem são altos preços. Assim, por que as pessoas parecem tão escandalizadas com mais alguns números ruins no setor imobiliário e no petróleo? O que acho que não entendi bem é o grau da recusa em reconhecer os fatos. Nos últimos anos surgiu uma convicção peculiar entre alguns analistas - por alguma razão, principalmente, entre os de ideologia de direita - de que o bolha imobiliária era um mito e a verdadeira bolha era no preço do petróleo. Cada novo pico no preço do petróleo era recebido com declarações de que era tudo especulação - como a previsão de 2005 de Steve Forbes de que o petróleo era uma "enorme bolha" e o preço baixaria para US$ 35 a US$ 40 o barril em um ano. Por outro lado, ainda em janeiro deste ano, a coluna Buzzcharts do National Review declarou que estávamos tendo uma desaceleração imobiliária "livre de sobressaltos".Achei que pouca gente acreditava nisso, mas o repentino susto do mercado em relação ao setor imobiliário e o petróleo sugere que eu estava errado. Agora, a realidade está se restabelecendo. E há mais uma coisa que vale a pena mencionar: a expansão econômica iniciada em 2001, embora tenha sido ótima para os lucros corporativos, ainda não produziu ganhos significativos para os trabalhadores americanos comuns. E agora parece que nunca produzirá.

Paul Krugman, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2028 | 00h00

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