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Hannibel Hanschke/REUTERS
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À sombra da Alemanha

A austera Alemanha de Angela Merkel está conseguindo pôr alguma ordem, mesmo contra a vontade de alguns, numa Europa confusa

O Estado de S.Paulo

29 de março de 2015 | 02h04

O momento foi certamente incômodo. As conversações entre a Grécia e a zona do euro estavam sobre o fio de uma navalha. Afligido por rumores de que a Grécia estava ficando sem dinheiro, o primeiro-ministro Alexis Tsipras havia concordado em propor reformas para destravar fundos de resgate. Aí pouco antes de Tsipras visitar a chanceler alemã Angela Merkel, uma revista noticiosa exibiu uma capa de Merkel sobreposta a uma imagem de forças nazista ocupando o Parthenon. "A Übermacht (dominação) alemã", dizia a manchete.

Insinuações de que a linha-dura da Alemanha com países devedores contém um toque de Terceiro Reich têm sido comuns durante toda a crise do euro, geralmente na Grécia. Desta vez, porém, foi Der Spiegel, um respeitável semanário alemão, que fez a comparação (ilustrando percepções europeias, ele insiste). Numa coletiva à imprensa com Merkel, Tsipras condenou a capa (repetindo previamente seu apelo por reparações de guerra). Mas no momento em que a Grécia recoloca a zona do euro num turbilhão, a Alemanha enfrenta questões incômodas.

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Durante a crise do euro, o poder se deslocou de instituições europeias para capitais, Berlim a principal delas. Sobre a questão urgente da política externa, a fraqueza francesa e a deriva britânica encolheram as "três grandes" da Europa a uma e meio - sendo generoso com a França. Ao contrário da história apócrifa de Henry Kissinger imaginando que número se disca para falar com a Europa, Barack Obama sabe exatamente a quem consultar sobre a política para a Rússia da Europa - e ela não fica em Bruxelas.

O domínio alemão é consequência, em parte, do recuo dos outros. Talvez seja por isso que as queixas têm sido abafadas. "Se os italianos não trazem a massa e os franceses não trazem o patê", diz um diplomata, "vocês não podem se queixar da sopa de repolho da senhora Merkel".

No comando. Enquanto isso, fora da Grécia, o pior dos cortes orçamentários que alimentaram o ressentimento europeu da Alemanha passou. O desempenho econômico sólido recente da maioria dos países salvos fortaleceu a convicção dos alemães de que eles estiveram certos o tempo todo. Isso ajuda a explicar por que os alemães continuam a pleitear regras bem definidas na Europa. O processo fiscal está estabelecido, ainda que precário, e em certo ponto a Alemanha poderá retomar seu apelo por uma maior coordenação de políticas econômicas, como regulações do mercado de trabalho e bases fiscais.

Tais propostas fazem alguns países europeus estrilarem, mas parecem sensatas para a Alemanha: na falta de uma união política, de que outra forma uma moeda comum poderia funcionar? Mas como o mundo nem sempre se curva à sua vontade, a Alemanha teve de aceitar concessões políticas. Ela ficou fortemente irritada quando a Comissão Europeia pareceu relaxar suas regras fiscais em janeiro; teve de engolir a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de começar o afrouxamento quantitativo; e a Alemanha aceitou, à contragosto, a decisão da comissão no mês passado de conceder mais tempo para a França reduzir seu déficit orçamentário.

Por fim, aparentemente sério sobre reforma econômica, o governo francês insistiu que este não era o momento para fechar seu espaço fiscal. Esse argumento político encontrou um ouvido surpreendentemente receptivo em Berlim (que também quebrou regras de déficit da União Europeia no passado).

Aliás, após muitos anos acidentados, as relações franco-alemãs estão melhorando. François Hollande estava ao lado de Merkel quando ela negociou um acordo de paz com Vladimir Putin em Minsk, no mês passado, e ouviu as súplicas de Tsipras em Bruxelas na semana passada. Isso importa para a Alemanha; embora ela operará sozinha se necessário, ainda teme a aparência de impor sua vontade unilateralmente. Durante as justas do mês passado na Grécia, Wolfgang Schaeuble, o combativo ministro de Finanças da Alemanha, não se cansou de dizer a repórteres que a Alemanha não estava sozinha em sua posição dura.

Merkel tem sido bem servida por seus adversários. Sobre a Rússia, países como Chipre e Itália podem resmungar sobre as sanções, mas graças ao comportamento alarmante de Putin, nenhum abandonou as fileiras no que importa (essa proposição será testada em junho, quando todos os 28 membros da União Europeia deverão se acertar para renovar as medidas mais duras). A abordagem avoada de negociação do governo Tsipras destruiu qualquer chance de um racha na zona do euro: a Grécia fez da antiausteridade uma marca tóxica, ao menos por enquanto. Da mesma maneira, se um David Cameron reeleito cumprir sua prometida renegociação da participação da Grã-Bretanha na União Europeia, ele encontrará poucos aliados se quiser alterar as regras básicas do bloco.

Tudo isso combina com o estilo de Merkel. Ela exercita a paciência, esperando que a Grécia veja sentido na reforma econômica e a Grã-Bretanha resolva seus problemas domésticos. Ela assumiu o risco de buscar o acordo de paz de Minsk com a Rússia porque a situação na Ucrânia oriental havia ficado desesperadora. Mas se esquivou dos apelos de senadores americanos para enviar armas, preferindo comparar a situação com a longa espera para a queda do Muro de Berlim. Isso parece significar que ela está preparada para ver o conflito "congelar". Se Obama foi um dia acusado de liderar de trás, Merkel, às vezes, lidera de uma direção que ninguém mais consegue entender.

A França é mais importante que a Grã-Bretanha

Uma Europa unida, governada por regras fiscais rígidas, harmoniosa e em paz com seus vizinhos: esta é a matéria dos sonhos alemães. A realidade é mais confusa, mas a Alemanha não é rígida. Durante a crise do euro, Merkel sempre encontrou a vontade política para manter a moeda unida, mesmo que suas soluções com frequência tenham incluído aplicar emplastros. Mas o futuro testará as prioridades da Alemanha. Manter a Grécia no euro e a Grã-Bretanha na UE são importantes, mas não a qualquer custo.

(Algumas autoridades acham que a zona do euro poderá superar uma Grexit - saída da Grécia - sem muita dificuldade). Merkel não gastará muito capital político tampouco para salvar o TTIP, um proposto acordo comercial transatlântico que desagrada a muitos alemães. Mas, em questões existenciais como salvar o euro ou manter a França forte o bastante para continuar sendo uma parceira significativa, Merkel não hesitará em exercer seu poder, mesmo que isso signifique quebrar promessas ou solapar regras. Isso seria um sinal de verdadeira liderança, e a Europa deveria saudá-lo.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CELSO PACIOORNIK, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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