Amy Lombard/The New York Times - 28/1/2021
Amy Lombard/The New York Times - 28/1/2021

A startup do Vale do Silício que provocou caos em Wall Street

O aplicativo Robinhood se apresentava aos investidores como a antítese de Wall Street, mas não dizia que também depende de Wall Street; na semana passada, as duas realidades entraram em choque

Nathaniel Popper, Matt Phillips, Kate Kelly e Tara Siegel Bernard, The New York Times

02 de fevereiro de 2021 | 11h00

O aplicativo de serviços financeiros Robinhood se tornou um fenômeno cultural queridinho do Vale do Silício com a promessa de tirar o mercado de ações dos tradicionais guardiões de Wall Street e “deixar o povo investir” - fazendo com que arriscar milhões de dólares seja tão fácil quanto chamar um Uber.

Na semana passada, em meio a um frenesi de mercado que colocou negociantes amadores de um lado e mandachuvas de fundos de hedge do outro, essa aparência começou a ruir. Como se verificou, o Robinhood estava à mercê da mesma indústria que prometia subverter.        

O frenesi se transformou em uma crise quando legiões de investidores amadores do Robinhood, que tinham comprado opções e ações da GameStop, uma varejista de videogames, elevaram suas apostas e também começaram a investir alto em outras ações, incluindo as da AMC Entertainment.

Enquanto a mania de investimento crescia, os mecanismos de redução de risco do sistema financeiro - administrados por obscuras entidades no centro do mercado de ações chamadas de câmaras de compensação - entraram em ação na terça-feira, 26, forçando o Robinhood a buscar fundos de emergência para poder continuar no mercado. 

O aplicativo teve de impedir os clientes de comprar várias das ações mais negociadas e recorrer a uma linha de crédito bancário de mais de US$ 500 milhões. Na noite da quinta feira, a empresa também recebeu uma injeção emergencial de capital de mais de US$ 1 bilhão de seus atuais investidores. De repente, a bem-sucedida startup passou a se parecer muito com uma empresa esgotada e instável.

“O marketing do aplicativo o apresenta como novo, inovador, descolado”, afirmou Peter Weiler, codiretor executivo da firma de corretagem e finanças Abel Noser. “Acho que ninguém se dá conta que, por trás das camadas superficiais, eles são apenas um negócio altamente regulado.”

O fiasco quase certamente resultará em consequências para e empresa. A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos afirmou na sexta-feira, 29, que analisaria atentamente quaisquer ações que possam ter “desfavorecido investidores ou, de alguma maneira, inibido indevidamente sua possibilidade de negociar certos títulos”. Congressistas de ambos os partidos solicitaram audiências para queixas de clientes que foram impedidos de participar de negociações.

Depois de o Robinhood limitar alguns negócios na quinta-feira, 28, e o preço das ações despencar, usuários enfurecidos inundaram as lojas de aplicativos online com críticas virulentas, algumas acusando o Robinhood de atender aos desejoas de Wall Street. Outros processaram a empresa em razão das perdas que tiveram. A continuada vulnerabilidade do Robinhood, mesmo depois de captar US$ 1 bilhão, ficou evidente na sexta, quando a empresa restringiu negociações de mais de 50 ações.    

“Não fizemos isso porque queríamos impedir as pessoas de comprar essas ações”, afirmou o Robinhood em um seu blog, na sexta feira. A startup afirmou que, em vez disso, restringiu a compra de ações voláteis para que pudesse atender “confortavelmente" os depósitos exigidos por suas câmaras de compensação, que, segundo a empresa, tinham sido elevados em dez vezes ao longo da semana.

Nada disso parece estar diminuindo seu crescimento. Mesmo enquanto a atuação do Robinhood enfurecia seus usuários, a empresa conquistava novos clientes. O aplicativo foi baixado mais de 177 mil vezes na quinta feira - o dobro da taxa diária de downloads da semana anterior, de acordo com o provedor de dados Apptopia - e registrou naquela data 2,7 milhões de usuários ativos diariamente em seu aplicativo móvel, o maior número de sua história. Isso é mais do que seus rivais - Schwab, TD Ameritrade, E*Trade, Fidelity e Webull - combinados.

Muito crescimento, poucas salvaguardas

Os dois colegas de sala de aula de Stanford que criaram a empresa em 2013 afirmaram desde o início que seu foco era “democratizar as finanças”, tornando o mercado de ações disponível para qualquer pessoa. Para tanto, a empresa de Menlo Park, Califórnia, empregou repetidamente a fórmula clássica do Vale do Silício: software acessível, marketing agressivo e desconsideração pelas leis e instituições existentes.

Corretores online cobravam tradicionalmente cerca de US$ 10 em cada negociação, mas o Robinhood afirmava que os clientes de seu aplicativo móvel poderiam comprar e vender sem pagar taxas. A manobra atraiu hordas de jovens investidores.

Ao constituir suas atividades, a empresa desconsiderou pesquisas acadêmicas que demonstravam como negócios frequentes e facilitados dificilmente levam investidores a bons resultados financeiros. Os riscos para os clientes ficaram evidentes em junho, quando um estudante universitário de 20 anos se suicidou deixando uma carta em que atribuía sua morte a um prejuízo de seis dígitos nessas negociações.

O Robinhood também popularizou as compras de opções sobre futuros entre os novatos. Comprar opções sobre futuros é geralmente mais barato do que comprar ações diretamente, mas tem o potencial de levar a ganhos e perdas muito mais elevados e rápidos, motivo pelo qual agências reguladoras e corretores tradicionalmente restringem as negociações desses contratos financeiros a corretores mais sofisticados.

O marketing do Robinhood, nesse meio tempo, divulgava a informação de que seu modelo de negócios - e as negociações sem taxas - eram bancados pelas vendas dos pedidos de seus clientes para firmas de Wall Street, em um sistema conhecido como “pagamento pelo fluxo de pedidos”. 

Grande empresas de corretagem como Citadel Securities e Virtu Financial pagam ao Robinhood uma pequena taxa cada vez que o aplicativo compra ou vende por seus clientes, tipicamente uma fração de um centavo por cada ação. Essas firmas de corretagem, por sua vez, ganham dinheiro ao embolsar a diferença, ou “spread", entre o preço de compra e venda de qualquer negociação de ações - e quanto mais negociações elas operarem, maior o seu lucro potencial. 

Muitos outros corretores online dependem de um sistema similar, mas o Robinhood negociou para receber significantemente mais a cada negociação do que outros corretores online, segundo revelou o jornal The New York Times.

O desequilíbrio entre o marketing do Robinhood e o mecanismo subjacente levou a uma multa de US$ 65 milhões da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos no mês passado. A agência reguladora afirmou que o Robinhood enganou seus clientes a respeito de como era pago pelas firmas de Wall Street ao repassar os negócios de seus clientes.

O conflito com Wall Street

As ambições e o amadorismo do Robinhood entraram em choque nas últimas semanas, enquanto pequenos investidores, muitos deles em uma missão de desafiar o domínio de Wall Street, usaram suas negociações sem taxa para elevar os preços das ações da GameStop e outras empresas. Especulações desenfreadas em contratos de opções sobre futuros ajudaram a elevar o preço da ação da GameStop de US$ 20, em 12 de janeiro, para aproximadamente US$ 500 na quinta feira, 28 - uma corrida que forçou o Robinhood a pisar nos freios de seus próprios clientes.

Uma instituição que fez o Robinhood tropeçar, na semana passada, foi a câmara de compensação Depository Trust & Clearing Corp (DTCC). Administrada pelas instituições financeiras que a integram, incluindo o Robinhood, a DTCC libera e compensa a maioria das negociações de ações, garantindo, essencialmente, que o dinheiro e as ações acabem nas mãos certas (opções sobre futuros são garantidas por outra entidade).

Mas o papel do DTCC vai além de dar sua bênção. Câmaras de compensação têm a incumbência de ajudar a proteger mercados em particular de riscos extremos, garantindo que, se somente um operador financeiro quebrar, isso não se propague. Para realizar seu trabalho, o DTCC exige de seus membros que mantenham uma quantia em dinheiro vivo que possa ser utilizada para estabilizar o sistema caso necessário. E, quando os valores das ações estão oscilando violentamente ou há um turbilhão de negócios, a quantia que o DTCC exige de cada membro - conhecida como margem de cobertura - pode se elevar subitamente.

Foi isso que aconteceu na manhã da quinta-feira. O DTCC notificou as firmas que o integram que a quantia total, então de US$ 26 bilhões, precisava aumentar para US$ 33,5 bilhões - em uma questão de horas. Já que os clientes do Robinhood eram responsáveis por tantos negócios, o Robinhood era responsável por arcar com uma parte significativa dessa conta.

Enquanto reunia o dinheiro necessário com sua linha de crédito e seus investidores, o Robinhood impediu clientes de comprarem ações da GameStop, da AMC e de outras empresas. Permitir que investidores vendessem essas ações voláteis - mas não que as comprassem - reduziu o nível de risco do Robinhood e o ajudou a atender as exigências de dinheiro adicionais, afirmou o aplicativo em seu blog.

Finalmente, a empresa foi bem-sucedida em angariar aproximadamente US$ 1 bilhão de alguns de seus investidores, incluindo fundos de investimento como Sequoia Capital e Ribbit Capital. Como brinde, o Robinhood ofereceu ações especiais para os investidores que lhe fizerem ofertas melhores quando a empresa abrir seu capital no mercado, o que está previsto para este ano.

Mas o rápido acordo deixou alguns observadores inquietos. “Como uma corretora de ações online se vê precisando de uma injeção imediata de US$ 1 bilhão?”, questionou Roger McNamee, um investidor veterano cofundador do fundo de private equity Elevation Partners. “Há algo a respeito disso indicando que alguém está realmente assustado com o que está acontecendo.”

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