A sufocante música do capitalismo

Necessidade de vender está em tudo, dos esportes aos shows de música. A publicidade estaria nos massacrando?

Frank Bruni, The New York Times

22 de outubro de 2014 | 17h03

No palco diante de milhares de fãs, Sam Smith cantou Stay With Me, pedindo à parceira de um encontro de apenas uma noite que ficasse mais alguns minutos, e não pude deixar de imaginar se eles não precisariam daquele tempo adicional para terminar algumas garrafas de Miller Lite, porque havia um anúncio da cerveja pairando sobre a cabeça dele.

Ao cantar Summertime Sadness, Lana Del Rey disse a um amante que a "beije com força antes de partir". Será que ela planejava mandar a ele uma mensagem de texto mais tarde, usando um Samsung Galaxy, o smartphone que dava nome ao palco no qual ela se apresentava?

E por mais que eu nunca tenha concebido um elo entre carros e os músicos da banda Interpol, passei a imaginá-los indo de show em show a bordo de um Civic ou Accord. Havia um anúncio da Honda sobre a banda durante a apresentação.

Para cada palco, um patrocinador diferente. Por trás de cada batida, uma banda diferente.

Isso ocorreu no início de outubro. Eu estava no Austin City Limits Music Festival, e chegava perto dos limites da minha paciência. Justamente ali, não esperava ser atacado pelo oportunismo corporativo que já se tornou onipresente em outros lugares.

"Keep Austin Weird" (algo como "mantenham a maluquice de Austin") é o slogan extraoficial da capital do Texas, indício de sua alma orgulhosamente subversiva. E uma reunião de amantes da música e maconheiros de roupas curtas num imenso campo traz à mente imagens de Woodstock, e não da Austin Ventures, que oferece financiamento a startups, e da RetailMeNot, que distribui cupons de desconto. Essas empresas também eram patrocinadoras de palcos.

Alguém meteu uma amostra grátis de cereal Cinnamon Toast Crunch nas minhas mãos logo na entrada. Outra pessoa distribuía protetores de copos gratuitos anunciando a cerveja Imperial, vendida no evento. Havia por toda parte cartazes anunciando Not That Kind of Girl, o novo livro da criadora de um tal de Girls. O nome do festival deveria ser Lenapallooza.

Não pude deixar de pensar em outro autor, David Foster Wallace. Seu romance Infinite Jest, publicado em 1996, imagina um amanhã no qual o próprio tempo é leiloado a quem fizer o maior lance, e o calendário se torna um anúncio. Temos o "Ano do Big Mac", o "Ano dos Tubos e Conexões Tigre" e até o "Ano dos Supositórios Curativos Tucks" - 12 meses de homenagem ao desconforto posterior, 52 semanas dedicadas às hemorroidas.

Será que esse futuro está tão distante? Embora os dispositivos de gravação tenham libertado muitos de nós dos comerciais na TV, o restante de nossas vidas está inundado de anúncios. Eles ficam agora encaixados entre os trailers no cinema. Piscam nas telas dos transportes.

É tão profundo o seu entrelaçamento com os eventos esportivos, das corridas até os jogos de basquete, que é difícil imaginar uma era na qual eles não fossem onipresentes. Mas, numa reportagem publicada esse ano no site Consumerist, Chris Moran informou que, 20 anos atrás, apenas um dos estádios do campeonato de beisebol tinha um nome corporativo: o Busch Stadium, em St. Louis.

Em comparação, hoje 20 dos 30 estádios têm nomes assim. O mesmo ocorre com o futebol americano, ou pior. No final de semana seguinte ao meu retorno de Austin, fui assistir ao jogo dos New York Jets e, cinco minutos depois de chegar ao MetLife Stadium, fui confrontado com sub-patrocinadores de todo o tipo.

Perto do portão Verizon, vi uma seção VIP chamada de Suítes Hertz e placas identificando a JetBlue como empresa aérea oficial do time, a Toyota como fornecedora oficial de seus carros e o Microsoft Surface como tablet oficial da NFL. Resolvi verificar se havia um papel higiênico oficial nos banheiros. (Dica para o Neve: o posto de papel higiênico oficial está vago, e basta a Kimberly Clark ser mais rápida do que a Melhoramentos para faturar essa.) Dentro do estádio, o placar Verizon não deveria ser confundido com o placar Bud Light nem com o placar Pepsi.

Quando os americanos falam no quanto a vida contemporânea pode parecer grosseira, este massacre da publicidade é parte daquilo que os leva a ter essa reação. E sua crescente frieza em relação às corporações e a sensação de que o capitalismo teria fugido ao controle não envolve apenas os salários dos diretores executivos e as estruturas tributárias em jogo. Trata-se de um protesto contra a necessidade de vender que invade a tudo, arrastando todos consigo.

Matthew McConaughey está no auge da carreira, com um Oscar ganho por Clube de Compras de Dallas e uma excelente atuação em Interestelar (com lançamento marcado para o mês que vem), e o que ele faz com seu poder de influência? Coloca-o atrás do volante dos carros Lincoln e vende carros de luxo assim como Beyoncé vende Pepsi há anos.

Os vendedores continuam a encontrar novos veículos dispostos a anunciá-los em cada equina. Será que um dia a viagem de San Francisco ao norte da Califórnia será feita através da Ponte Mostardas Kraft, ou faremos caminhadas no Parque Nacional Wells Fargo?

O mundo é dos vendedores e marqueteiros. Somos apenas joguetes nas mãos deles, mesmo quando queremos apenas cantarolar uma melodia. / Tradução de Augusto Calil

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