A supergrama é sempre mais verde

A supergrama é sempre mais verde

Grama sintética de terceira geração tem manutenção mais barata, porém encontra resistência entre atletas

Economist.com

12 de novembro de 2014 | 15h46

Todos os que se lembram de jogar futebol nos gramados artificiais "astroturf" dos anos 1980 também devem se recordar da dor lancinante provocada pela areia que entrava nos arranhões dos joelhos - em geral, o resultado de um carrinho imprudente. O futebol britânico e os gramados de plástico nunca conviveram muito bem. 

Desde quando os Queens Park Rangers se tornaram o primeiro clube britânico a instalar um gramado artificial em 1981 - que acabou sendo removido sete anos mais tarde - são feitos pedidos intermitentes para a sua introdução mais generalizada. Os gramados desse tipo foram banidos dos estádios do campeonato inglês em 1995 porque, aparentemente, faziam a bola quicar demais e rolar com demasiada rapidez (por isso usava-se areia), provocando lesões. Pelos mesmos motivos, os torcedores também se queixavam da baixa qualidade do espetáculo futebolístico proporcionado pela grama artificial.

Cartolas das divisões inferiores realizaram uma votação para decidir se a proibição aos gramados artificiais seria mantida ou não (os cartolas das duas principais divisões não foram consultados). O resultado foi apertado: 34 times votaram a favor dos gramados artificiais, 34 votaram contra e 4 se abstiveram. Isso significa que a moratória do plástico vai continuar por enquanto. Mas uma diferença tão pequena indica que pode ser apenas questão de tempo até que a alternativa artificial seja finalmente adotada.

Há dois motivos por trás da diminuição da antipatia dos clubes em relação ao plástico. O primeiro é o fato de a tecnologia ter avançado desde os experimentos iniciais. Os campos artificiais consistem agora num total de até seis camadas, incluindo folhas plásticas de grama, uma camada de areia e partículas de borracha, uma camada de "amortecimento" para fazer a bola quicar, e uma camada de asfalto poroso. Alguns desses gramados da dita terceira geração (3G) já foram certificados pela FIFA, a entidade que governa o futebol, sendo usados na Rússia e em Andorra nas partidas internacionais. Há também vários exemplos de campos aprovados pela FIFA sendo usados nos campeonatos profissionais da Europa.

Mas o detalhe mais atraente para os dirigentes dos clubes menores e de orçamento mais modesto  é o fato de os gramados 3G melhorarem ambos os lados do balanço patrimonial. Embora ainda exijam manutenção regular, está é mais barata no longo prazo do que aquela necessária para a grama tradicional, mesmo se levarmos em consideração um custo de instalação de £ 500 mil (US$ 792 mil). Além disso, podem ser usados com frequência bem maior, sem correr o risco de virarem um lamaçal. Assim, os estádios poderiam receber mais partidas de futebol, ou espetáculos de música e outros eventos do tipo.

Embora esses campos tenham se tornado mais comuns na Europa e em outros esportes tradicionalmente praticados na grama, como o rúgbi, os torcedores e jogadores britânicos ainda não se convenceram. Até que o uso da grama sintética se torne generalizado, muitos acreditam que a diferença proporciona uma vantagem injusta ao time da casa, pois a bola se comporta de maneira diferente daquela conhecida pelo time visitante. A seleção inglesa colocou parte da culpa pela derrota diante da Rússia no Campeonato Europeu no fato de terem de jogar num gramado de plástico em Moscou (na verdade, a derrota teve mais a ver com as trapalhadas da zaga inglesa). Quando o País de Gales teve sérias dificuldades para bater a frágil seleção de Andorra este ano, Gareth Bale, astro galês, demonstrou certeza de que o campo artificial foi o grande motivo de tamanha luta: "É difícil descrever o quanto o gramado foi difícil de lidar, instável e duro", disse ele.

Entretanto, as equipes já tentam aproveitar ao máximo a vantagem de ser o time da casa de outras maneiras. As seleções do México e do Equador têm vantagem ao jogarem em casa por causa da altitude (a FIFA decidiu que La Paz, na Bolívia, fica numa altitude impraticável para as partidas internacionais, que foram proibidas na cidade). Equipes de jogo mais vistoso e expansivo, como o Barcelona, gostam de jogar em campos mais largos, que dão aos atletas mais espaço. 

Em outros esportes a lógica é a mesma. Os times de beisebol projetam estádios excêntricos ou assimétricos, para que os jogadores tenham alguma vantagem com base na familiaridade com o espaço, e para compor elencos capazes de explorar ao máximo as vantagens de cada campo, contratando por exemplo rebatedores canhotos para jogar num estádio onde o campo da direita é mais curto. Esse tipo de tática não é visto como legítimo, mas acrescenta uma dose interessante de variedade e estratégia. Parece que, em se tratando de gramados artificiais, este é um raro exemplo de quando a grama do vizinho não é mais verde do que a nossa.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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