KAREN BLEIER/AFP
KAREN BLEIER/AFP

A superpotência que não larga o osso

EUA mantêm hegemonia econômica mesmo com fatia menor do PIB mundial e com sistema político preocupado com próprio umbigo

The Economist

03 de outubro de 2015 | 07h58

Em junho deste ano, Jack Ma, fundador do gigante de comércio eletrônico chinês Alibaba, proferiu palestra no Economic Club of New York, entre cujos membros figuram não poucos luminares de Manhattan e Wall Street. Ma disse que sua empresa existia para contribuir a longo prazo com o bem da sociedade, objetivo um tanto quanto discrepante em relação à crença na criação de valor ao acionista, esposada por muitos dos presentes. O empresário se comprometeu a ajudar as pequenas empresas americanas a exportar para os 630 milhões de chineses que usam a internet e atualmente têm gastos online superiores aos dos americanos. O evento aconteceu no Waldorf Astoria, hotel que ao abrir as portas em 1931, em meio à Grande Depressão, foi saudado pelo presidente Herbert Hoover como “um exemplo de confiança e coragem para todo o país”. Hoje, o Waldorf Astoria pertence a uma seguradora chinesa, cujo presidente é casado com uma das netas de Deng Xiaoping. As circunstâncias pareciam simbolizar uma mudança na ordem econômica mundial.

Como parábola do declínio americano, porém, a coisa está um pouco distante da realidade. A lição que se tira do dia de gala de Ma em Nova York é mais sutil: a economia dos Estados Unidos continua a ser indispensável para o mundo, dominando algumas das áreas mais geniais e complexas do empreendedorismo humano. O Alibaba tem ações na Bolsa de Nova York, e não na de Xangai, cujo sobe e desce afugentou os investidores este ano. Quatro dos seis bancos que subscreveram a oferta inicial de ações da empresa eram americanos. Apenas 6% de suas vendas são feitas fora da China (e a companhia acaba de contratar um antigo executivo do Goldman Sachs para melhorar esse número). O Waldorf Astoria é administrado pela Hilton Hotels & Resorts, uma empresa americana que extrai lucros polpudos de direitos de propriedade intelectual no mundo inteiro. Dias depois de falar para os sócios do Economic Club, Ma comprou uma mansão nas montanhas Adirondack, no nordeste do Estado de Nova York, por US$ 23 milhões. É claro que o empresário se deleitará com as corredeiras repletas de trutas, mas, como muitos magnatas chineses, ele também quer ter um porto seguro num país que faz valer o império da lei. Dois meses depois, a China desvalorizou o yuan, levantando suspeitas sobre o estado de sua economia.

A palestra de Ma presta-se a ilustrar o paradoxo de que, mesmo com uma fatia decrescente do PIB mundial, os Estados Unidos devem manter, e até mesmo aumentar em alguns aspectos, sua capacidade de influenciar a economia mundial. Alguns acham isso bom. No ano passado, Hillary Clinton, uma das favoritas a vencer as eleições presidenciais americanas de 2016, escreveu: “Para qualquer pessoa, em qualquer lugar, que se pergunte se os Estados Unidos ainda têm condições de liderar, a resposta, na minha opinião, é um sonoro ‘sim’. Tudo que já fiz e vi me convenceu de que os Estados Unidos continuam a ser um país indispensável”. Mas, se a distância crescente entre a importância e o poderio econômico dos EUA não for bem administrada, o resultado será frustração e instabilidade.

Poder é a capacidade de obrigar os outros a fazer algo que, do contrário, eles não fariam. Seu exercício pode se dar pela coerção, pelo estabelecimento de regras ou pela formação de expectativas e lealdades. Às vezes, o poder americano é definido de forma tão ampla que inclui tanto o convés do porta-aviões USS Abraham Lincoln, quanto as pernas de Taylor Swift. Vale a pena adotar um enfoque mais restrito: de que maneira o controle que os Estados Unidos têm sobre a economia global ajuda, enriquece, organiza, domina e incomoda o restante do mundo? Esse tipo de poder com frequência é exercido involuntariamente. Exemplo: os Estados Unidos não têm a menor intenção de dominar a Índia, mas a economia indiana é afetada pela política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano); e dois dos principais setores econômicos do país asiático, o de tecnologia e o farmacêutico, têm de seguir normas que, mesmo valendo apenas em território americano, na prática estabelecem um padrão mundial.

O domínio econômico americano nunca foi absoluto. Entre 1946 e 1991, a União Soviética, com seu império de filas e máquinas enferrujadas, pretendia ser um modelo rival. Da década de 70 em diante, os europeus tentaram aprofundar sua integração para atuar como contrapeso aos EUA; as queixas contra a supremacia do dólar impulsionaram a criação de uma moeda única europeia. 

Nos anos 80, os japoneses davam a impressão de que ameaçariam o poderio americano, e, com sua pompa, tentaram convencer a Ásia a adotar uma zona do iene. Mesmo quando as políticas econômicas que se inspiravam no chamado Consenso de Washington estavam no auge, na década de 90, muitos países, em especial a China, as ignoravam. Até pouco tempo atrás, porém, uma coisa era indiscutível: o peso dos Estados Unidos no PIB e no comércio mundiais era maior do que o de qualquer outro país.

Agora, na primeira mudança da ordem econômica mundial desde 1920-45, quando os EUA tomaram o lugar antes ocupado pela Grã-Bretanha, esse domínio começa a se dissolver. Como proporção do PIB mundial, calculada pelo método da paridade de poder de compra, Estados Unidos e China (incluindo Hong Kong), com 16% e 17%, respectivamente, travam disputa apertada pelo primeiro lugar. Quando o cálculo é feito a taxas de câmbio de mercado, uma distância considerável ainda separa os dois países: os Estados Unidos ficam com 23% do PIB mundial e a China com 14%. Mas, segundo o economista Arvind Subramanian, segundo uma medida composta de “poder bruto” - participação no PIB mundial, no comércio internacional e no investimento externo líquido cumulativo -, a China provavelmente já superou os EUA. Mesmo que a economia chinesa passe a crescer em ritmo mais lento, a taxas entre 5% e 6% ao ano, sua exuberância nessas medidas tende a aumentar.

Mudanças rápidas

A experiência do século 20 indica que transições como essa podem ser rápidas. Em 1907, os Estados Unidos não tinham um banco central e o país sofreu um colapso bancário. Pouco mais de uma década depois, o dólar disputava com a libra esterlina a condição de moeda mais usada e de maior credibilidade no mundo. Se o passado serve como referência, a ultrapassagem dos EUA pela China pode acontecer num piscar de olhos, conferindo à nação asiática o poder de emitir a moeda de reserva mundial e de estabelecer as regras que regulam as transações e as finanças internacionais. Em levantamento realizado no mundo inteiro, a maioria das pessoas consultadas pelo Pew Research Centre acredita que a China ocupará o posto de maior potência econômica do mundo. Os entrevistados com menos de 30 anos são os que mais tendem a achar que viverão numa era de dominação chinesa.

No entanto, nenhum reordenamento na arquitetura da economia mundial será tão rápido ou decisivo quanto foi o anterior. Em primeiro lugar, hoje a disputa é mais equilibrada. Os Estados Unidos são muito mais fortes do que era a Grã-Bretanha quando de seu declínio súbito e dramático, e a economia chinesa não tem o vigor que tinha a americana quando os Estados Unidos deslancharam. Apesar de todos os esforços que tem feito para promover sua moeda e suas instituições, a China é um país de renda média, cujos mercados financeiros são imaturos e onde não vigora o império da lei. A ausência de democracia também pode representar uma séria desvantagem.

Além disso, o mundo hoje se assenta sobre um edifício incomparavelmente maior de contratos comerciais e financeiros, que demandam continuidade. Os níveis de comércio internacional e o estoque de ativos e passivos estrangeiros são de cinco a dez vezes superiores aos observados na década de 70 - e infinitamente mais elevados do que o pico anterior, registrado pouco antes da 1.ª Guerra. A velocidade e a complexidade dos fluxos de capital superam tudo que já se viu no mundo. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos eram aliados, o que garantiu que a transferência de poder ocorresse de forma ordenada, ainda que com muitas humilhações para a potência decadente. Tendo feito picadinho das pretensões britânicas na conferência de Bretton Woods, em 1944, quando foi moldada a ordem monetária e financeira internacional do pós-guerra, os americanos ajudaram a Grã-Bretanha a superar o colapso financeiro de 1945-49. A China e os EUA não são aliados. Tendo em vista que a complexidade e o risco inerentes a uma reformulação da ordem mundial são muito maiores hoje, há incentivos poderosos para que as coisas sejam mantidas como estão.

Por fim, a natureza da atividade econômica mudou, caminhando em direção a serviços intangíveis e globalizados (como a computação em nuvem e os sistemas computadorizados de negociações financeiras), possibilitando, talvez, que os Estados Unidos exerçam seu domínio por controle remoto.

Baseando-se em medidas tradicionais de potencial econômico e institucional, economistas, simpatizantes do ultraliberal Tea Party, sindicalistas e Bruce Springsteen narraram, cada um a seu modo, a decadência dos EUA. Considerando sua participação na produção mundial de aço, na indústria, no comércio internacional, no transporte e produção de commodities e no consumo, os Estados Unidos realmente vão de mal a pior. O número de países para os quais os americanos são o maior mercado de exportação caiu de 44, em 1994, para 32 atualmente. No mesmo período, passaram de dois a 43 os países que têm a China como principal destino exportador.

A liderança americana em outras áreas, como a de gastos com pesquisa e desenvolvimento, equipamentos de tecnologia e marcas de consumo, já não é tão confortável como antes. Muitas das empresas mais valorizadas do mundo ainda são americanas, mas isso não se traduz mais em predomínio incontestável no exterior: sua participação no estoque de investimento corporativo internacional caiu de 39%, em 1999, para 24%.

Os EUA ainda brilham em diversos segmentos. O país concentra 15 das 20 principais universidades do mundo. Seu órgão de vigilância sanitária, a Food and Drug Administration (FDA), é referência global no tocante à eficácia de novos medicamentos. As patentes registradas em Nova York têm muito mais credibilidade do que as registradas em Xangai. E o reinado que Hollywood exerce sobre os sucessos mundiais de bilheteria é tão eterno quanto a juventude das estrelas californianas.

Não tão largamente reconhecido é o fato de que, em alguns campos, o domínio dos EUA só faz aumentar. O país demonstra extraordinária capacidade para encabeçar a inovação tecnológica.

É mais uma vez sob seu comando que está se iniciando uma nova era, desta vez baseada na computação em nuvem, no comércio eletrônico, nas mídias sociais e na economia compartilhada. Seus produtos se tornam globais com maior rapidez e mexem mais profundamente com a cabeça e os empregos das pessoas do que qualquer outra coisa que o Vale do Silício já inventou, afetando a todos, dos taxistas aos mulherengos e déspotas.

A maior parte dos negócios do Facebook e do Google é feita no exterior; e a fatia está aumentando. Quando a Microsoft estava no auge, no ano 2000, menos de um terço de suas vendas acontecia fora dos Estados Unidos. Agora as empresas americanas abrigam 61% dos usuários de mídias sociais do mundo, executam 91% das buscas na internet e são responsáveis pelos sistemas operacionais que abastecem 99% de todos os smartphones em operação. As empresas de internet chinesas, incluindo a de Jack Ma, são a um só tempo protegidas e obstruídas pela “Grande Firewall” da China.

Aumentou também a primazia dos EUA sobre as finanças globais e o sistema monetário mundial. A fatia de mercado dos bancos de investimentos de Wall Street chegou a 50%, em virtude da retração experimentada por seus correlatos europeus e da falta de progresso dos jovens concorrentes asiáticos. Os fundos de investimentos americanos concentram 55% dos ativos aplicados, frente a 44% há uma década, refletindo a expansão do segmento de shadow banking (intermediação de crédito envolvendo atividades e instituições que não pertencem ao sistema bancário tradicional) e de novos veículos de investimento, como os fundos de índices. Os fluxos globais de capital, maiores do que em qualquer outro momento da história, acompanham o vaivém do VIX, uma medida de volatilidade das bolsas de valores americanas.

Poder por negligência

Uma das peculiaridades da globalização é que, embora a participação dos EUA no comércio internacional tenha diminuído, o mesmo não aconteceu com sua influência monetária. O Fed é, um pouco a contragosto, o senhor do sistema, tendo cimentado sua posição com as políticas adotadas para enfrentar a crise financeira de 2007-2008. Quando o Fed muda de direção, trilhões de dólares no mundo inteiro mudam com ele.

O dólar, largamente visto como um pilar do soft power americano, fortaleceu-se. A demanda externa pela moeda garante baixo custo de endividamento ao governo americano, e o país ganha senhoriagem com a emissão de cédulas bancárias que circulam no mundo inteiro. As empresas americanas correm menos riscos em suas transações externas, e os cidadãos do país podem gastar mais do que poupam com maior impunidade. Mesmo quando uma crise global se inicia nos Estados Unidos, é para lá que os investidores correm em buscam de proteção.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos são enfáticos em sua disposição de manter o controle sobre o sistema de pagamentos em dólar que está no cerne do comércio e das finanças internacionais. Países, empresas ou pessoas hostis podem ser excluídos do sistema, como já aconteceu com o Irã, com magnatas birmaneses, políticos russos e com os cartolas da Fifa. A possibilidade de aplicar essa punição ampliou o alcance da autoridade extraterritorial dos americanos.

As finanças e a tecnologia já são um campo de batalha em que a soberania está em jogo, como mostra a ação do órgão antitruste europeu contra o Google. De modo que a pretensão que os Estados Unidos têm de manter o controle sobre o sistema nervoso central da economia mundial, muito embora o país já não seja a principal potência econômica, é a expressão mais acabada de seu excepcionalismo. Para serem bem-sucedidos, os americanos terão de ser extremamente hábeis. O país terá de agir em prol do interesse coletivo - e terá de garantir que sua ação seja vista dessa maneira pelos demais países.

O sistema político americano produziu lideranças formidáveis no passado. Atualmente, porém, a safra não é das melhores. A crise financeira global mostrou que os Estados Unidos sempre acabam fazendo a coisa certa, mas só depois de esgotar todas as alternativas. O Fed garantiu liquidez ao mundo, e, com uma arma apontada contra a cabeça, o Congresso americano forneceu os recursos necessários ao socorro das instituições financeiras americanas. De lá para cá, porém, o sistema político do país flerta com o default da dívida soberana, recusa-se a reformar ou a financiar o FMI, obstrui os esforços que os chineses vêm fazendo para criar suas próprias instituições internacionais, impõe multas drásticas a bancos estrangeiros e exclui um número crescente de estrangeiros do sistema do dólar.

A ideia de que o sistema político americano não se sente obrigado a cumprir com o que estrangeiros movidos por interesses nada altruístas chamam de suas responsabilidades econômicas globais não é nova. Quando informado sobre um ataque especulativo contra a moeda italiana, em 1972, Richard Nixon disse: “Estou me lixando para a lira”. Mas a atual indiferença do país talvez seja mais do que um período temporário de apatia. A classe média americana está insatisfeita com a globalização e encontra-se profundamente polarizada politicamente.

Se os Estados Unidos não atenderem às expectativas, o que isso significará para o resto do mundo? Por ora, é fácil para as autoridades e os políticos americanos adotarem uma atitude acomodada: a aura de competência dos chineses foi tisnada pelas dificuldades econômicas que o país asiático vem enfrentando, e no atual contexto de baixo crescimento mundial, a economia dos EUA é a que tem tido melhor desempenho. Mas é importante ter clareza sobre as escolhas de longo prazo. Os americanos não podem achar que dominarão sem esforço as finanças e a tecnologia globais, mesmo com sua participação no comércio e no PIB mundiais caindo e seu sistema político voltado cada vez mais para os desentendimentos internos.

A trajetória atual do país não é nada animadora. O sistema monetário mundial tende a estar cada vez mais sujeito a crises, e os Estados Unidos não terão como se proteger dos custos potencialmente envolvidos. Outros países, liderados pela China, criarão suas próprias defesas, balcanizando as normas que regem os setores de tecnologia, comércio internacional e finanças. O desafio é criar uma arquitetura que possibilite aos EUA manter sua condição de superpotência que não larga facilmente do osso da economia mundial.

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