A surpresa e os riscos para o avanço do PIB
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A surpresa e os riscos para o avanço do PIB

A economia mostra mais resiliência do que a esperada, mas ainda há riscos no caminho

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 19h34

Já sabemos que o avanço do  Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre sobre o anterior, de 1,2%, surpreendeu os analistas e pessoas comuns.

Quase ninguém fora dos segmentos do agronegócio e do setor exportador tinha a percepção de que a economia vinha bombando para fechar o ano, provavelmente, ao redor dos 5% ao ano.

 


Ao contrário, toda a mídia apontava para os limitadores de um forte crescimento. Observações de entidades de classe e de economistas de que o consumidor está sumido, de que há milhares de empresas falindo ou, simplesmente, fechando suas portas e de que a taxa de desocupação de 14,7% no primeiro trimestre deste ano, ou 14,8 milhões de desempregados no País, mais os 6 milhões de desalentados explicavam demanda e produção mais fracas.

No entanto, “la nave va”, como diz o título do belo filme de Fellini. Com base nesse resultado, os analistas apressaram-se a rever para cima suas projeções de crescimento do PIB do Brasil em 2021. O Goldman Sachs e o BNP Paribas, por exemplo, passaram a trabalhar com avanço do PIB de 5,5%; o Bank of America (BofA), com 5,2%; o Citi, com 5,1%; o Itaú, com 5,0%; o Credit Suisse e o J.P. Morgan, com 4,9%; o Bradesco, com 4,8%.

Os fatores que contribuem para a obtenção desse resultado positivo são conhecidos: é o excelente desempenho da economia global; a grande procura no exterior por commodities metálicas e alimentares; e o auxílio emergencial distribuído pelo governo que, mesmo a conta-gotas, ajuda o consumo. Também não se pode desprezar o efeito vacina: são quase 50 milhões os imunizados pelo menos com a primeira dose. Outros 15 milhões se recuperaram da doença e, portanto, já carregam anticorpos. Cerca de 65 milhões estão praticamente fora do alcance do coronavírus e isso começa a fazer diferença no mercado de trabalho e no consumo.

A economia mostra mais resiliência do que a esperada. Mas convém examinar o que pode atrapalhar.

Como o consumo (tanto das famílias como do governo) caiu 1% no primeiro trimestre, em relação ao último trimestre de 2020, boa parte da recuperação se deve à formação de estoques. Uma das explicações é relativamente simples.

Nos últimos 40 anos, as empresas (e não só as indústrias) aprenderam a trabalhar no regime just in time, pelo qual o suprimento de matérias-primas, peças, componentes e produtos acabados é feito à medida que requerido na produção ou na montagem. Com isso, reduzem-se substancialmente os custos com formação de estoques. Ora, a pandemia interrompeu grande parte desses fluxos. Fontes de suprimento, navios, aviões, funcionamento dos portos e aeroportos tiveram de paralisar ao menos temporariamente suas atividades. Faltou e continua faltando muita coisa. Essa foi, por exemplo, a principal razão pela qual a Volkswagen foi obrigada a paralisar suas atividades em duas de suas unidades por 10 dias a partir de 7 de junho.

Uma vez retomadas as atividades, grande número de empresas passou a operar não só com força total como, também, voltou a empilhar estoques. Uma vez regularizadas as cadeias de produção e distribuição, a atividade econômica deverá reduzir a atual velocidade de recuperação.

O outro enorme limitador é o desemprego recorde, já mencionado. Quem imagina que a retomada reabrirá postos de trabalho fechados durante a pandemia deve desconfiar dessa hipótese. As empresas aprenderam a trabalhar com menos gente, seja porque reorganizaram ou transferiram parte de suas linhas de produção, seja porque aumentaram o uso de tecnologia poupadora de mão de obra. Se o emprego continuará apertado, segue-se, também, que a demanda continuará por enfrentar novas limitações.

E tem a inflação que, neste ano, irá para algo como 5,5% ou 6,0%. Até há algumas semanas, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, focava suas advertências no caráter temporário da alta. Agora, mudou de tom. Prefere admitir que a inflação aumentará. Devem puxá-la as tarifas de energia, os preços dos combustíveis e os dos alimentos que têm tratamento de commodities. Inflação é redução do poder aquisitivo e menos avanço do PIB.

E há os riscos: o de uma nova onda de covid-19; aumento da resistência à aprovação das reformas; e de uma deterioração da situação política.

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