Rodrigo Pirim
Rodrigo Pirim

A tatuagem que marcou Cannes Lions

Publicitário brasileiro registrou na pele a participação no júri do maior festival de criatividade do mundo

Wesley Gonsalves, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2022 | 07h12

A síndrome do impostor, impulso que induz à autossabotagem, quase impediu Angerson Vieira, 33 anos, de submeter seu nome como um possível jurado do Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade. Após ter enviado as informações necessárias “aos 45 minutos do segundo tempo”, o executivo foi um dos 24 brasileiros selecionados para compor o júri do festival de 2022.

A participação de Angerson acabou sendo muito mais do que escolher os melhores no mundo na categoria Direct Lions, que premia ações de marketing em que as marcas entram em contato direto com o consumidor. Único profissional negro entre os brasileiros selecionados para o júri, o executivo de criação da agência Africa não se limitou a julgar as melhores peças em sua categoria. Marcou na pele a experiência.

Angerson tatuou no braço esquerdo a frase que indagava “Is It Direct?”, ou seja, se a peça inscrita realmente se encaixava na descrição. O comprometimento com o mantra que guiou as escolhas do júri chamou a atenção de Fred Levron, vice-presidente global da Dentsu, e presidente da categoria Direct.

No dia da premiação, Levron quebrou o protocolo e convidou Angerson para subir no palco. O brasileiro foi aplaudido de pé. Angerson disse ao Estadão: “Queria distribuir os aplausos para todos os profissionais pretos da nossa indústria que vieram antes de mim.”

Ainda formada majoritariamente por pessoas brancas, a indústria criativa global tenta alavancar a pauta de diversidade. Para a presidente do Clube de Criação, Joana Mendes, o mercado é carente de ações mais expressivas de inclusão. Segundo Joana, a participação de Angerson em Cannes Lions é prova de como a diversidade enriquece o setor.

Segundo o próprio Angerson, a experiência como um homem negro nascido no interior de Minas Gerais traz novos pontos de vista. “A diversidade tem um poder incrível de influência”, avalia.

A tão comentada tatuagem, porém, nasceu como uma brincadeira entre os colegas de júri. Após a frase ser repetida por dias a fio, os integrantes pensaram em fazer uma camiseta com o dizer “Is It Direct?”. O brasileiro respondeu que faria, na verdade, uma tatuagem. “No começo, as pessoas não acreditavam que eu faria”, diz. Mas, ainda durante o festival, ele levou a ideia a cabo.

Angerson atraiu a atenção de colegas do mundo todo, que pediam para tirar fotos com o dono da tatuagem mais comentada do festival. “Foram meus cinco minutos de fama”, brinca o publicitário.

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