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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

A terceira fase da crise

O mundo está entrando na terceira fase da crise econômica, sem que as primeiras duas etapas tenham sido minimamente encaminhadas. Explico-me: a primeira etapa é a da crise dos bancos, que, como se sabe, mudou de patamar e generalizou-se após a quebra do banco Lehman Brothers.Hoje, poucos são os países em que o sistema bancário não apresenta problemas: dos relevantes na economia mundial, apenas Japão, China, Canadá, Brasil e, talvez, Índia. Por outro lado, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Islândia, na Rússia e em praticamente todos os países bálticos e da Europa Oriental a crise bancária é generalizada. No remanescente das nações relevantes, os problemas, mesmo não generalizados, são muito relevantes.Na verdade, ainda hoje aparecem novas dificuldades, como o envolvimento de bancos italianos, austríacos e suecos na debacle da Europa Oriental. Como principal consequência dessa situação, o sistema mundial de crédito permanece desde setembro de 2008 essencialmente paralisado, sem maiores perspectivas de destravar, uma vez que as soluções para a crise ainda hoje são embrionárias, como se vê no caso americano.A segunda fase da crise é consequência da parada súbita no crédito, que vem afetando pesadamente a atividade econômica.A demanda de consumo, exportações e investimento caiu em alta velocidade, implicando aparecimento de estoques não planejados, queima de produtos a preços de liquidação e desemprego. Setores que já apresentavam desequilíbrios fundamentais derretem de forma drástica, como são os casos dos setores automotivo e de etanol de milho americanos.A escassez de crédito derruba inclusive empresas mais sólidas, impondo grandes consolidações em muitas indústrias mundo afora.O resultado é que o mundo desenvolvido e boa parte do emergente vivem uma recessão cuja profundidade ainda não compreendemos. A última projeção do Fundo Monetário Internacional, de 0,5% de crescimento no PIB mundial, parece a essa altura muito otimista.Numa situação dessa natureza, países que já apresentavam maus fundamentos e crescimento econômico muito lento ou desequilibrado têm seu futuro posto em dúvida. No mundo rico, Japão e Itália são bons exemplos. Na América Latina, México, Venezuela e Argentina são os casos mais importantes.A terceira fase da crise decorre da falta de soluções à vista para as finanças e o crescimento. De fato, grande parte dos bancos centrais já reduziu os juros para próximo de zero e iniciou uma forte expansão monetária ("quantitative easing"), elevando a liquidez do sistema, que, entretanto, não vira crédito. Ao mesmo tempo, grandes programas fiscais estão em andamento, projetando robusta expansão da dívida pública.A estatização de bancos, como no caso inglês, troca o risco do sistema financeiro pelo risco do Tesouro, levando a uma desconfiança em relação à sustentabilidade da moeda e à queda da libra.As mesmas dúvidas a respeito do futuro rondam o dólar americano, até agora beneficiado pela busca da segurança. A procura de ouro se elevou e movimentos como os da China, negociando investimentos em produtores de minérios e petróleo na Austrália e no Brasil, sugerem alguma troca de reservas monetárias por ativos reais.Certamente, a última coisa de que precisávamos a esta altura é insegurança quanto ao valor relativo da moeda mais importante do mundo.A crise externa vai nos impor custos ainda mais altos do que os até agora percebidos. De um lado, as exportações de manufaturados sofrerão muito com a recessão e com o protecionismo de países como a Argentina, a Venezuela, etc. Por outro lado, a paralisia financeira externa vai continuar a congestionar o mercado de crédito em reais. Finalmente, os planos de investimento continuarão a ser adiados em grande proporção.É com base nesse quadro que a MB Associados estima em 1%, no máximo, o crescimento brasileiro para este ano. *José Roberto Mendonça de Barros é economista da MB Associados. E-mail: jrmb@uol.com.br O colunista Celso Ming está em férias.

José Roberto M. de Barros*, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

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