A timidez do caminho do meio

Ao repetir suas últimas decisões, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de ontem, o Banco Central confirmou a manutenção da atual política monetária a conta-gotas. Mesmo tendo retirado do comunicado a expressão "por um período suficientemente prolongado", para os ajustes das condições monetárias, a percepção é a de que a estratégia, na essência, não mudou.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

Pode ser o caminho menos arriscado diante dos dilemas atuais da economia, aos quais é preciso adicionar as enormes instabilidades do cenário externo. Mas a escolha leva o BC a uma inédita situação, na qual é acusado de timidez tanto por ortodoxos quanto por heterodoxos.

Para uns, o BC erra ao não aplicar doses agressivas de altas nos juros. Para outros, ao estancar, no começo, a aplicação de medidas macroprudenciais, o BC perdeu a chance de conter pressões inflacionárias sem aprofundar problemas em outros departamentos.

O fato é que, ao escolher o caminho do meio, o BC mantém a economia em banho-maria. A inflação não sai do controle, mas fica roçando o teto e passando a impressão de que tão cedo não volta ao centro da meta. Na mesma toada, a atividade econômica desaquece, mas, assim como a concessão de crédito, num ritmo tão lento que só permite enxergar a reversão das curvas com binóculo.

Nem puxadas violentas nos juros básicos, já muito altos, nem o uso exclusivo de medidas administrativas de contenção do crédito são recomendáveis. A primeira alternativa embute riscos de desorganização na produção doméstica e de ampliação da vulnerabilidade externa. A outra, cuja função primordial é evitar a formação de bolhas de crédito, por sua natureza, pode apenas operar como auxiliar no desaquecimento da economia.

Crescentes restrições ao uso exagerado desta ou daquela medida indicam uma perda de potência da política monetária. Esta só poderá ser recuperada com reformas que reintroduzam funcionalidade ao tripé segurança-rentabilidade-segurança nas aplicações financeiras e aprimoramentos no sistema de metas de inflação. Mas, se o governo também não descer do muro na política fiscal - e insistir na ilusão dos superávits apenas pelo lado da arrecadação -, nenhum esforço de ajuste acabará dando certo.

É COLUNISTA DO ESTADO

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