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A tortuosa trajetória do 'império das bananas'

Disputada por grupos brasileiros, Chiquita foi alvo de polêmicas em 110 anos de história

ALTAMIRO SILVA JUNIOR, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h04

NOVA YORK - Macondo, a cidade imaginária de 'Cem Anos de Solidão', o clássico do Prêmio Nobel Gabriel García Marquez, entrou em decadência depois de contrariar a "Companhia das Bananeiras". Em represália a uma greve, a influente multinacional convenceu o governo a dizimar os trabalhadores, no episódio que ficou conhecido como o massacre das bananas. Apesar do escritor colombiano ser conhecido pelo realismo fantástico, essa parte da história aconteceu de verdade.

A trajetória de 110 anos da companhia americana Chiquita Brands, que as empresas brasileiras Cutrale e Safra estão tentando comprar, é uma sucessão de fatos sombrios que beiram o surrealismo. A história inclui assassinatos, apoio a golpes militares na América Latina, financiamento de milícias, exploração de trabalhadores e até suicídio.

Hoje, embora seja uma das maiores distribuidoras de bananas do mundo, com faturamento de US$ 3 bilhões e dona de 22% do mercado mundial da fruta, a Chiquita não é nem sombra do que já foi um dia. A antiga United Fruit Company, como se chamava na origem, "era uma empresa maior do que muitas nações", descreve o jornalista do Financial Times, Peter Chapman, em seu livro Bananas - como a United Fruit Company moldou o mundo, lançado em 2007.

Em seu relato, o autor ressalta que a multinacional foi responsável por perpetuar a expressão "república de bananas", cunhada pelo humorista norte-americano O. Henry e usada pejorativamente para se referir a certos países da América Latina, que dependiam fortemente da fruta, tinham governos instáveis e corruptos e, por isso, eram facilmente manipulados, política e economicamente.

A companhia era dona de enormes quantidades de terra em várias regiões e, pelo seu tamanho e poder econômico, controlava não só bananas, mas ferrovias, navios e tinha interferência em governos e nos rumos dos países, além de trânsito fácil em Washington.

Seus fundadores praticamente apresentaram a banana aos EUA. A empresa nasceu depois que um norte-americano, o capitão Lorenzo Dow Baker, comprou, em 1870, um punhado de caixas de bananas na Jamaica e vendeu as frutas com lucro alto no estado de Nova Jersey 11 dias depois. Junto com um colega de Boston, ele criou a empresa em 1899.

Com o passar dos anos, a influência da United Fruit chegou a tal ponto que um de seus fundadores se casou com a filha do presidente da Costa Rica. Chapman descreve ainda que a United Fruit apoiou ditadores e golpes militares na América Latina e Caribe. Na Guatemala, nos anos 50, quando o presidente do país, então de esquerda, tentou dividir as terras da empresa, a United Fruit usou sua influência em Washington para pressionar a Casa Branca a apoiar um golpe e derrubar o presidente. Por conta de seu tamanho e presença forte em alguns países, como Honduras, foi apelidada pela população local de "o polvo", uma alusão aos tentáculos da companhia por toda a parte.

Outro episódio marcante da empresa foi a morte de seu presidente, o financista Eli Black, que pulou do famoso edifício PanAm, na Park Avenue em Nova York no início de 1975. No ano anterior, um furacão provocou estragos consideráveis na América Central, afetando as plantações de bananas e o lucro da Chiquita. No mesmo período, a SEC (a comissão de valores mobiliários dos EUA, que regula o mercado de capitais) acusou a empresa de subornar um oficial do governo de Honduras em troca de redução dos impostos para exportar bananas. Na época, as negociações com ações da empresa na bolsa chegaram a ser suspensas por uma semana.

A United Fruit abriu o capital em Wall Street em 1903. Em seguida, passou a investir em pesquisas para melhorar a qualidade das bananas que os países da América Latina produziam. A companhia foi uma das pioneiras em marketing, sobretudo com a marca "Chiquita Banana", usada pela primeira vez em 1944, com anúncios inspirados em Carmen Miranda.

Imagem. Em 1990, na tentativa de melhorar sua imagem e se distanciar do passado conturbado, a empresa passou a usar o nome pelo qual é conhecida hoje, Chiquita Brands International (oficialmente, a companhia alega outros motivos para a troca).

A nova marca, porém, não afastou os escândalos. Em 2007, a companhia foi acusada de dar dinheiro a milícias de direita na Colômbia, classificadas por Washington como grupos terroristas. A Chiquita reconheceu o pagamento, mas afirma que foi uma extorsão e que desembolsou o dinheiro para proteger seus funcionários. Na época, foi multada pelo Departamento de Justiça dos EUA em US$ 25 milhões.

No início dos anos 2000, a Chiquita quase quebrou, após suas operações serem afetadas pelas barreiras que a União Europeia impôs à compra de bananas de alguns países da América Latina nos anos 90. Em 2001, a empresa entrou no chamado Capítulo 11 da lei de falências dos Estados Unidos, que permite que uma companhia continue operando enquanto tenta resolver seus problemas financeiros. Cinco meses depois, conseguiu sair da proteção judicial. Hoje, a empresa opera em 70 países, com 20 mil funcionários.

Para os analistas da casa de pesquisa de renda variável, Zacks Equity Research, se com a Fyffes a Chiquita conquistaria novamente a Europa, com a proposta dos brasileiros a empresa ganha "a vasta experiência" do grupo Cutrale e o poder financeiro do grupo Safra, que administra US$ 200 bilhões em ativos.

Com o passar dos anos e o aparecimento de outras grandes empresas, a United foi perdendo influência. Para estudiosos da empresa, é difícil imaginar que a Chiquita de hoje tenha poder para derrubar governos e, muito menos, comandar massacres, como o de Aracataca, cidade da Colômbia onde Gabriel García Marquez nasceu.

O escritor tinha um ano e nove meses quando os grevistas da United se reuniram numa praça da cidade para ouvir o governador. Quatro metralhadoras foram posicionadas nos telhados das casas. O embaixador dos EUA na Colômbia Jefferson Caffery informou Washington sobre o ataque: "Tenho a honra de reportar, que o representante da United Fruit me contou, que o total de grevistas mortos pelo exército colombiano supera mil vítimas". Em Cem Anos de Solidão, depois da matança, Macondo caiu em ruínas.

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