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‘A TPP vai mudar o sistema mundial de comércio’

Para especialista, acordo entre nações do Pacífico deve acelerar novos tratados e elevar a produtividade dos países

Entrevista com

Peter Petri, professor da Universidade Brandeis, de Massachusetts

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2015 | 05h00

WASHINGTON - O maior impacto da Parceria Transpacífica (TPP), acordo comercial entre EUA, Japão e mais dez países anunciado na semana passada, não estará no aumento do volume de comércio, mas na criação de regras que aprofundarão a integração e aumentarão o fluxo de investimento e tecnologia entre os 12 países do bloco, avalia o economista Peter Petri, especialista em tratados de integração da região Ásia-Pacífico e professor da Universidade Brandeis, de Massachusetts. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o impacto da TPP, não apenas para os seus membros, mas para a liberalização comercial em geral?

É muito relevante. Nós tivemos 20 anos em que não foram escritas novas regras para o sistema comercial mundial. Esse é o fracasso da Rodada Doha. Esses grandes acordos regionais - e a TPP é o primeiro deles, mas há outros sendo elaborados - deram uma solução. Eles estabelecem uma série de regras sobre comércio eletrônico, tecnologia, a necessidade de pequenas e médias empresas serem integradas em cadeias de produção globais. É uma ampla gama de temas ignorados pelo sistema de comércio mundial, porque o mais recente conjunto de regras foi escrito antes que essas coisas acontecessem.

A TPP fortalece ou enfraquece a OMC e o sistema multilateral de comércio?

O impacto é indireto. O primeiro impacto deve ser sobre outras negociações de mega-acordos regionais, como a Parceria Econômica Regional Compreensiva (que une a China a países da Ásia e Oceania) e o tratado entre a União Europeia e os Estados Unidos. A liberalização comercial normalmente ocorre de uma maneira competitiva. Um grupo de países faz um acordo e outro grupo de países decide se unir a ele ou fazer o próprio acordo. E essa competição se intensificará. Haverá mais países dispostos a aderir à TPP.

Qual é o potencial impacto econômico da TPP em termos de aumento do comércio?

Pelo menos no curto prazo, os números não são expressivos. Estão na casa de 1% do PIB - não 1% ao ano, o que seria enorme, mas 1% ao longo de vários anos. O principal efeito virá de como a TPP mudará o sistema comercial mundial. O efeito disso é muito grande, na ordem de vários pontos porcentuais do PIB mundial.

Como a TPP pode mudar o sistema de comércio mundial?

Acordos comerciais fazem com que cada economia seja mais produtiva. Cada uma delas produz mais daquilo na qual é boa em produzir e menos daquilo em que não é boa, o que é importado de outros países. É uma série de mudanças estruturais, pelas quais cada economia move seu capital, trabalho e outros recursos na direção de atividades mais produtivas. Isso eleva o nível de produtividade de todos. O comércio não é um jogo de soma zero. 

Que países se beneficiam mais?

Em termos absolutos, os grandes países se beneficiam mais. No caso da TPP, são os Estados Unidos e o Japão. Mas proporcionalmente, em ganho porcentual, os grandes beneficiários são os menores (em termos econômicos), como Vietnã, Malásia, Peru. Eles são os que mais têm a ganhar com a elevação de seu comércio com parceiros diferentes deles. 

As regras da TPP são incompatíveis com a China?

Essa é uma grande pergunta. Eu estou pessoalmente insatisfeito com o fato de que esse acordo é apresentado no contexto político americano com o discurso de que “nós temos de escrever as regras para que a China não as escreva”. Não acredito que essa seja a questão. Temos de escrever boas regras. A China é uma economia em desenvolvimento preocupada com os próprios problemas econômicos e não está em uma posição de desejar escrever regras fortes para o sistema de comércio. Mas eu espero que no futuro a China faça parte da TPP. É quase impossível pensar em uma economia transpacífica robusta e vibrante que não tenha a China como um de seus integrantes centrais. 

Esses mega-acordos regionais são a maneira pela qual a liberalização comercial avançará, em vez da negociação multilateral na OMC?

Creio que por um tempo teremos ambos. Teremos negociações regionais e também teremos na OMC o que eu chamo de meganegociações setoriais. Não se discutem regiões, mas setores. A OMC acaba de concluir um acordo sobre tecnologia da informação, por exemplo. Há uma negociação sobre serviços, outra sobre compras governamentais, uma sobre bens e serviços ambientais. Temos uma situação na qual países conseguem chegar a acordos sobre pequenas coisas no âmbito multilateral ou sobre grandes coisas no âmbito regional, mas não conseguem negociar grandes coisas multilateralmente. 

Qual o impacto da TPP para um país como o Brasil, que está fora do acordo?

Não muito grande (do ponto de vista comercial). Ainda não estudei o impacto sobre o setor agrícola, mas haverá algum impacto negativo se o Canadá ou os EUA ganharem acesso ao mercado japonês em produtos que hoje o Brasil fornece, por exemplo. Mas o maior efeito está no fato de que esses países estão fazendo regras melhores, que aprofundarão a integração e promoverão o fluxo de investimentos e tecnologia. E o Brasil não será parte disso. Eu espero que o efeito no Brasil seja o de estimular a decisão de ser parte disso, por meio da TPP, da Aliança do Pacífico ou de um acordo comercial bilateral com os Estados Unidos. 

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