'A trajetória de alta do dólar é inevitável'

Para economista, não há nada que o governo possa fazer para conter a valorização da moeda em relação ao real

Entrevista com

FRANCISCO CARLOS DE ASSIS , O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h07

Ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, o economista Luís Eduardo Assis avalia que não há nada que o governo possa fazer para conter a trajetória de alta do dólar em relação ao real. "O que estamos assistindo é uma fuga para a qualidade", explica o economista.

Ontem, depois que o dólar experimentou a cotação máxima de R$ 1,953 - no fim do dia fechou a R$ 1,910 -, surgiram no mercado especulações de que a equipe econômica poderia rever as medidas adotadas para conter a valorização do real em relação ao dólar, em especial o Imposto sobre Operações Financeira (IOF) de 1% sobre as chamadas posições vendidas de bancos e empresas que não casarem com as posições compradas.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Com a alta do dólar, começam a surgir especulações de que o governo poderá retirar as medidas adotadas anteriormente para conter a valorização. Qual sua avaliação sobre isso?

O governo até pode desfazer algumas medidas. Mas não será isso que vai resolver o problema. A trajetória de alta do dólar é inevitável e quanto a isso não há muito o que fazer.

Por quê?

Porque o que estamos assistindo é uma fuga para a qualidade. E a qualidade diante deste momento de crise é o dólar. Por um tempo a moeda americana ficou muito barata. O dólar foi vendido a R$ 1,80, a R$ 1,70 e ganhou-se muito dinheiro. Muita gente que fez arbitragem com juro está vendo agora o dólar subir e o juro cair. Estão ganhando menos e antes que comecem a ter prejuízo, correm para o dólar para congelar as perdas.

Mas estamos falando de medidas entre as quais está aumento de IOF de até 6% sobre as posições vendidas no mercado futuro. Se essa medida for removida não produzirá impacto?

Até pode minimizar a violenta subida do dólar, mas não vai reverter a situação do mercado de câmbio como um todo. O investidor está buscando proteção na moeda americana diante da perda com investimentos em outros ativos. E o BC não vai querer peitar o mercado.

Mas isso não configura um movimento especulativo?

Acho que existe um pouco de especulação neste movimento, sim, mas é normal as pessoas buscarem proteção em algum ativo de maior qualidade nos momentos de crise. E o dólar tem se apresentado como o ativo que oferece esta qualidade.

Bom, quanto mais o dólar vai subindo mais gente aparece para comprar...

Pois é, o dólar ficou lá embaixo por muito tempo e agora se solta como se fosse uma mola. E, quanto mais a moeda americana sobe, mais compradores vão aparecendo. Por isso é inevitável a trajetória de alta.

Enquanto o dólar estava baixo, o BC aproveitou para comprar reservas internacionais. E agora?

Esse movimento mostra também que a ideia de que reservas são poupança é equivocada. Grande parte do ativo do BC (reservas) tem como passivo alguma empresa brasileira. Ou seja, as reservas têm como contrapartida dívidas. Não se sabe o quanto, mas é dívida.

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