A trajetória de um sócio encrenqueiro

Para manter o controle do Pão de Açúcar, o empresário brigou com vários sócios e até com[br]a própria família

David Friedlander, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

PERFIL

Abilio Diniz, presidente do Conselho do Pão de Açúcar

Abilio Diniz, um dos empresários mais bem-sucedidos do País, sempre foi um encrenqueiro com os sócios. Obcecado pelo Pão de Açúcar, nos últimos 20 anos Abilio brigou com a família, com sócios que ele mesmo arrumou e com quem mais foi preciso para manter o controle sobre a rede de supermercados criada por seus pais a partir de uma doceria em São Paulo, no final dos anos 40.

O próprio empresário abordou seu temperamento explosivo em sua tuitada mais recente, no dia 21: "Durante muito tempo fui dono de um temperamento explosivo. Após anos de análise me dei conta de como é importante ter autocontrole". Pode ser. Mas a disputa em curso com o Casino é mais uma numa trajetória marcada por desentendimentos.

Nos últimos seis anos, o Pão de Açúcar tornou-se sócio, entre outros, da família Sendas, de quem comprou os supermercados do mesmo nome, do grupo francês Casino e da família Klein, dona das Casas Bahia. Brigou com todos eles. Com os Sendas, o desentendimento em torno do acerto financeiro fechado em 2004 arrastou-se pelos tribunais e só foi resolvido, por acordo, no começo deste ano.

No ano passado, a família Klein ameaçou desfazer a fusão da Casas Bahia com o Pão de Açúcar apenas quatro meses depois do anúncio da operação. Depois de fechar o negócio, os donos das Casas Bahia reclamaram que sua empresa tinha sido subavaliada, que Abilio não teria dividido o comando da nova empresa como fora combinado e estariam sendo menosprezados pela turma do Pão de Açúcar. O próprio Samuel, patriarca dos Klein, entrou em campo para renegociar o acordo. Ao final o Pão de Açúcar colocou mais R$ 700 milhões na operação e os Klein asseguraram poder para influenciar nas decisões.

A disputa mais dramática protagonizada por Abilio, no entanto, envolveu sua própria família. Entre o final dos anos 80 e o começo dos 90, o grupo da família Diniz quase quebrou em meio a uma disputa de poder entre Abilio e seus irmãos. Após troca de acusações de trapaças e traições que na época se tornou pública, Abilio comprou a participação dos irmãos e ficou no comando do Pão de Açúcar. Sob sua liderança, o grupo deu a volta por cima, destronou o rival Carrefour do topo do ranking dos maiores supermercados brasileiros. Mais tarde, com ajuda com Casino - com quem hoje briga - transformou seu negócio no maior grupo varejista do País.

Dilma. Abilio é descrito pelos amigos como um sujeito ambicioso, determinado, competitivo, que se cobra o tempo todo e também àqueles que o cercam. Esportista obcecado, corre, nada, faz musculação e também dá seus pitacos na política.

Foi próximo do ex-presidente José Sarney, a ponto de influenciar na escolha Luiz Carlos Bresser Pereira, então executivo do Pão de Açúcar, para o cargo de ministro da Fazenda, em 1987. O próprio Abilio foi cotado mais de uma vez para assumir o posto, nos tempos da hiperinflação.

Durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, o empresário derramou-se em elogios ao ex-presidente. Na última eleição, foi um dos primeiros empresários de peso a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff. Sua mulher, Geyze, abriu a casa do casal para uma reunião de suas amigas com a então candidata do PT.

A ironia é que, durante a campanha eleitoral de 1989, o nome de Abilio foi usado contra o PT. O empresário foi sequestrado e, às vésperas da eleição em que o Lula disputava a Presidência com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, a polícia de São Paulo prendeu os sequestradores.

Ligados a movimentos de esquerda da América Latina, os criminosos foram apresentados com camisetas do PT e usados pela polícia para vincular o caso ao partido de Lula, que foi derrotado por Collor. Abilio, no entanto, nunca compartilhou dessa versão.

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