A tripla ameaça na Europa

Apelos para renúncia à soberania fiscal, para recapitalizar bancos e para que a Grécia deixe o euro são constantes

MICHAEL, BOSKIN, PROJECT SYNDICATE, É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNIVERSIDADE STANFORD, MICHAEL, BOSKIN, PROJECT SYNDICATE, É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNIVERSIDADE STANFORD, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h04

Artigo

A Europa sofre simultaneamente crises da dívida soberana, dos bancos e monetária. Graves problemas econômicos e pressões políticas atormentam as relações entre os cidadãos, os Estados soberanos e as instituições supranacionais, como o Banco Central Europeu. São crescentes os apelos para a renúncia à soberania fiscal; para uma recapitalização drástica de um sistema bancário vulnerável do ponto de vista financeiro; e/ou para que a Grécia e possivelmente outros membros combalidos da zona do euro se retirem do euro.

Nesse contexto inflamável, os responsáveis pelas decisões usam desesperadamente vários veículos - inclusive o BCE, o Fundo Monetário Internacional, e a Linha de Estabilidade Financeira - na tentativa de conter o pânico financeiro, o contágio, e o risco de recessão. Mas será que as autoridades estão abordando o problema de maneira correta? As crises da dívida soberana, do sistema bancário e do euro estão estreitamente relacionadas. Considerando as enormes e frágeis posições em títulos da dívida soberana dos países da periferia da zona do euro, muitos bancos europeus escassamente capitalizados ficariam insolventes se seus ativos fossem marcados a mercado. Sua desalavancagem inibe a recuperação econômica. E o enorme ajuste fiscal necessário para Grécia, Irlanda e Portugal, senão para Itália e Espanha, teria consequências perturbadoras do ponto social e econômico.

O calote provavelmente seria acompanhado por uma grave contração econômica - o Produto Interno Bruto da Argentina caiu 15% depois que o país decretou a moratória em 2002.

Apesar dos testes de estresse, dos fundos de ajuda e de contínuas reuniões, os estrategistas europeus ainda não encontraram uma solução viável permanente. O fracasso criará um enorme obstáculo ao crescimento econômico europeu nos próximos anos, e poderá ameaçar a própria sobrevivência do euro. A discordância entre os chefes de Estado e o BCE a respeito das compras pelo banco de dívida soberana podre só aumentou as incertezas.

Uma recuperação razoável da economia europeia como um todo, e uma consolidação fiscal gradativa bem-sucedida, permitiria que os títulos podres da dívida soberana se valorizassem com o tempo. Até lá, prosseguiriam as manobras a respeito de quem arcaria com os prejuízos, quando e como. Serão os cidadãos gregos? Os contribuintes alemães, franceses e holandeses? Os detentores dos títulos? Os acionistas das instituições financeiras? Enquanto o problema fundamental é que a maneira como a questão for resolvida influirá no montante dos prejuízos.

Os preços das ações dos bancos e o spread do Euribor-OIS assinalam uma profunda falta de confiança na dívida soberana dos países combalidos. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos gregos de dez anos atingiram recentemente 25%.

Há três enfoques básicos para a solução da crise bancária. O primeiro exige tempo, lucratividade e intenso esforço. Uma estimativa sugere que uma redução de 50% do valor da dívida soberana dos países periféricos (razoável para a Grécia, mas elevada para os outros) acarretaria prejuízos de aproximadamente US$ 3 trilhões, absorvendo o capital dos bancos europeus. Mas os bancos são empresas lucrativas no atual contexto de juros baixos, porque tipicamente tomam emprestado no curto prazo e emprestam a prazo mais longo a juros mais elevados, com alavancagem. Portanto, o fato de jogarem com os prazos permitiria que eles gradativamente se recapitalizassem.

Uma forte e duradoura recuperação econômica tornaria viável esse enfoque. O governo Obama adotou essa opção, no Programa de Alívio dos Ativos Podres que injetou centenas de bilhões de dólares do dinheiro público no sistema bancário (a maioria do qual foi devolvida). Mas alguns bancos americanos, incluindo o Bank of America e o Citigroup, ainda são vulneráveis, com uma quantidade considerável de ativos tóxicos em seus balanços patrimoniais.

O segundo enfoque é uma solução rápida. Mas deixar que bancos de reputação questionável se recapitalizem gradativamente e resolver mais tarde a questão das dívidas podres não funcionará se os prejuízos forem demasiado elevados ou se a recuperação for frágil demais. Uma solução mais rápida pode ser necessária para impedir que os bancos zumbis infectem o sistema financeiro.

A US Resolution Trust Corporation fechou rapidamente mil bancos insolventes e Instituições de Poupança e Crédito de 1989 a 1995 para que não prejudicassem instituições saudáveis. Em termos da economia dos dias atuais, foram vendidos ativos equivalentes a US$ 1,25 trilhão, e 80% desse valor foi recuperado.

O sistema financeiro voltou rapidamente a ser saudável. Esse enfoque exige capacidade de julgamento e determinação para separar as instituições insolventes das solventes.

Finalmente, existe o caminho do capital público. Se a recapitalização exigida pelo mercado é lenta demais, e o fechamento das instituições que estão falindo é impossível, uma alternativa mais radical é injetar capital público diretamente nos bancos. Esse enfoque impedirá as corridas aos bancos, porque os bancos com mais capital são mais seguros. Devedores e credores europeus deverão resolver direta e simultaneamente o problema dos bancos com emissões de euros, de títulos da dívida soberana e ajustes fiscais. Fazer de conta que os bancos que foram aprovados em modestos testes possam ser mantidos funcionando é uma quimera - além de um exercício perigoso. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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