Tiago Queiroz/Estadão
O empresário Meyer Nigri, dono da incorporadora Tecnisa. Tiago Queiroz/Estadão

Empresários que declararam apoio a Bolsonaro ganham protagonismo

Grupo que apoiou abertamente presidente eleito durante a campanha ganha influência no futuro governo

Renata Agostini, Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

23 Dezembro 2018 | 05h00

Há o empresário animado com o novo governo e há o bolsonarista raiz, aquele que já compunha a turma de Bolsonaro antes de virar modinha. Os que apoiaram o candidato do PSL desde os tempos de campanha constituem um grupo em ascensão que, pelos laços de proximidade com o futuro mandatário, ganham agora protagonismo imprevisto no meio empresarial. “Mudou o rei, mudaram os amigos do rei”, diz Meyer Nigri, dono da incorporadora Tecnisa, um dos expoentes do grupo.

Nigri foi um dos primeiros a se aproximar, há três anos, do então deputado que queria ser presidente. Seu filho já era amigo de Eduardo Bolsonaro. O dono da Tecnisa passou a ser espécie de fiador de Bolsonaro em círculos paulistanos, em especial entre a comunidade judaica. O empresário já tinha bom relacionamento com João Doria, que ensaiou candidatura presidencial, e manteve relação próxima com Geraldo Alckmin. Mas foi a campanha de Bolsonaro que o entusiasmou. 

Ele e o amigo Fabio Wajngarten, dono de uma empresa de pesquisas, promoveram almoços e jantares para aproximar o candidato do empresariado paulista. “Nesses anos, em cada roda de amigos, tinha que defendê-lo mesmo, porque, no primeiro momento, tinha muita reação. Eu tinha de ficar explicando: tenho certeza, é um cara bacana, é honestíssimo”, conta Nigri.

Nessa toada, Nigri e Wajngarten acabaram convertendo para o lado de Bolsonaro amigos como Sebastião Bomfim, dono da rede de artigos esportivos Centauro. O mineiro, que vive em São Paulo, tornou-se um dos primeiros grandes empresários a declarar publicamente voto no candidato do PSL durante a campanha. “Falar hoje que apoia não tem mais problema nenhum. Na ocasião, ainda batia quadrado para muita gente. Impressionante como as pessoas foram mudando de percepção de agosto para cá”, diz Bomfim.

Foi também num desses encontros em São Paulo que Flávio Rocha, dono da varejista Riachuelo, aderiu ao grupo de apoiadores de Bolsonaro. Rocha chegou a se lançar candidato pelo PRB, mas recuou da empreitada. Amigo de Doria, tinha ressalvas em relação a Bolsonaro. Hoje, isso está superado: “Ele foi o candidato que melhor representou a voz anti-PT”, afirma.

O grupo segue orbitando a tropa bolsonarista. Nigri, que se refere a Bolsonaro como amigo, fala ao telefone com frequência com o futuro presidente e se reúne com ele sempre que possível. Wajngarten e Bomfim também – estavam a postos, por exemplo, no aeroporto de Congonhas para receber o presidente eleito e acompanhá-lo na partida na qual se comemorou o título brasileiro do Palmeiras. 

Esse movimento do “novo empresariado” reflete uma frustração com os anos de gestão do PT, diz Leandro Cosentino, professor do Insper. “O empresariado sempre defendeu lobbies. Temos de esperar para ver.” 

Nigri, Bomfim e Rocha garantem que querem contribuir com o governo, mas informalmente. Não têm intenção de assumir cargos, nem buscam lobby para suas empresas, afirmam. “Minha colaboração com o governo será por meio do Instituto Brasileiro do Varejo”, diz Rocha. 

Nigri diz que sua ponte com Bolsonaro é para colaborar com o setor e com o País. “Precisamos gerar emprego”, afirma. “Não temos concessões nem compramos ou vendemos para a União. Somos a turma que paga a conta”, sustenta Bomfim.

A conta da campanha até tentaram pagar, mas juram que não conseguiram. Nigri chegou a colocar dinheiro na conta bancária de Bolsonaro, mas diz que o depósito foi devolvido. 

'Empresariado sempre teve lobby poderoso'

A relação de empresários com o governo sempre foi umbilical, independentemente dos partidos que estão no poder. “Os lobbies empresariais são muito poderosos”, lembra Sérgio Lazzarini, professor do Insper. “Ainda é muito cedo para saber como vai ser daqui para frente.” A única certeza, diz Lazzarini, é que a vida do lobista vai ser mais difícil. “Não pela mudança de governo, mas porque não há mais dinheiro para distribuir. A torneira secou.” 

Na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tradicionais empresários, como Jorge Gerdau, Abilio Diniz e Josué Gomes, foram convidados para fazer parte do “Conselhão” e ganharam mais voz. O governo petista tinha uma política desenvolvimentista.

Discurso contra o PT. O presidente eleito Jair Bolsonaro soube se apropriar do discurso liberal do mercado e ganhou força dos eleitores antipetistas. O teste de fogo vai ser como o futuro presidente vai lidar com o Congresso e, sobretudo, com as bancadas temáticas. 

Para o cientista político Leandro Cosentino, também do Insper, o Brasil nunca adotou uma política liberal de fato. “O Estado sempre teve um papel intervencionista em toda sua história . Vale lembrar que Bolsonaro nunca foi um liberal de fato. Ele adotou a política liberal do economista Paulo Guedes.”

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Discurso liberal do governo atraiu setor produtivo

Salim Mattar, Winston Ling e o grupo liderado por Meyer Nigri são novas referências para o Palácio do Planalto

Renata Agostini e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2018 | 05h00

RIO e SÃO PAULO — Uma vertente de apoio empresarial a Jair Bolsonaro ergueu-se fora das rodas paulistanas, incentivada pela decisão do deputado de abraçar o ideário liberal. De família do ramo petroquímico no Rio Grande do Sul, Winston Ling, que mora na China, uniu-se ao movimento logo no início e acabou tendo papel importante na campanha. 

Ele ajudou a aproximar Bolsonaro do economista Paulo Guedes, futuro superministro da Economia e fiador do plano econômico do próximo governo. Guedes e Ling se conheciam da militância liberal, dos encontros do Instituto Millenium e do Fórum da Liberdade de Porto Alegre. “Saí do Brasil em 1991 para investir nos Estados Unidos e desde então moro fora por conta desse pessimismo todo com a situação do País. Agora, com vitória de Bolsonaro e a ida de Paulo Guedes para o governo, estou avaliando investimentos no País e até morar no Brasil”, afirma Ling.

Dono de fintechs, Ling defende um governo menos protecionista e a redução de regulamentação e impostos para que as empresas brasileira fiquem mais competitivas. É entusiasta da plataforma econômica de Bolsonaro, mas não entrará no governo PSL.

Pela afinidade de ideias, logo foi arregimentado ao grupo bolsonarista o mineiro Salim Mattar, fundador e sócio da Localiza. O empresário apoiou no primeiro turno João Amôedo, do Novo, mas migrou para o barco de Bolsonaro. Após a eleição, Guedes o convenceu a ir além: em janeiro, assumirá a secretaria de privatizações, área estratégica do novo governo.

Mais pirotécnico dos apoiadores de Bolsonaro no meio empresarial, Luciano Hang, dono da varejista catarinense Havan, tornou-se a cara do bolsonarismo nas redes sociais com vídeos entusiasmados, tuítes diários em prol de Bolsonaro e campanha dentro de sua empresa. “Entrei na discussão política para ser um ativista. O Brasil está virado de cabeça para baixo.”

A militância deu visibilidade ao empresário e à sua rede, mas também rendeu uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina, que o acusa de ter intimidado seus funcionários a votar no candidato Jair Bolsonaro. O MPT cobra multa que pode chegar a R$ 100 milhões. Hang nega que tenha coagido os funcionários. Apoiador do presidente, ele diz que é a favor “de menos Brasília e mais Brasil”. 

Esse movimento de empresários como Mattar, Ling e o grupo capitaneado por Meyer Nigri em São Paulo, emerge como referências que serão ouvidas no Palácio do Planalto em 2019. Substituem um grupo de industriais parrudos que, por anos, teve entrada e influência sobre decisões do governo.

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