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A trovoada das ruas

Não espere coerência das manifestações marcadas para hoje em todo o País. Como foi dito neste espaço na edição de ontem, o sentimento geral que mobiliza tanta gente é de cansaço e de impaciência com um governo paralisado, incapaz de dar um rumo para a economia. Por isso, tendem a ser um misto de desabafo e de enfrentamento, por tanto serviço mal feito e pelo desmanche da esperança, e não uma palavra de ordem.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

Mas as condições de hoje não são as mesmas de semanas atrás. Na beirada de um rodamoinho, a velocidade das águas parece lenta. Mas, depois, vira turbilhão. E já estamos do meio para baixo desse funil.

No Brasil, quando as antigas esquerdas, hoje concentradas no PT, se põem a produzir saídas para crises econômicas, nunca levam em conta o fator confiança: confiança na política econômica, na administração das contas públicas, no ambiente de negócios, na duração do emprego. 

A abordagem é quase sempre voluntarista. Parece moldada na antiga teoria do foco, baseada na criação de vários Vietnãs, como pregava Che Guevara nos anos 60. É a abordagem de quem faz a hora, não espera acontecer. É colocar em marcha políticas que a ideologia dá como certas e, em seguida, forçar a economia a aceitá-las.

Juros altos aumentam a dívida? Então, é derrubar os juros na marra e acomodar eventuais efeitos colaterais depois. O mercado de consumo está parado e, nessas condições, compromete o projeto de criação de um grande mercado interno de massas? Então, que se obriguem os bancos a despejar crédito subsidiado, não importando se há ou não demanda para isso. As empresas estão asfixiadas? Chamem o BNDES, que se decretem reduções imediatas de impostos e de desonerações...

Ninguém gosta de pagar contas. Mas se a cobrança de contas fizer sentido e, mais do que isso, se estiver baseada em programa consistente de saída da crise, então ela é aceita ou, no mínimo, tolerada. Mas isso pressupõe certo nível de confiança nas autoridades e na política econômica, coisa que não existe hoje. Nem é percebida pelos dirigentes do PT, porque não conseguem ver sentido no fator confiança.

Os valores republicanos são confundidos com valores burgueses. Têm dificuldade para entender a diferença entre questões de Estado e questões de governo. Não conseguem aceitar nada que contrarie os interesses corporativos dos sindicatos ou dos chamados movimentos sociais.

As manifestações de rua desempenharam papéis históricos de grande importância no passado e delas continua sendo esperado grande protagonismo. Mas é dos políticos que se espera agora consciência histórica e muita firmeza.

No entanto, importância cada vez maior vai sendo assumida por outras instituições de Estado, especialmente pelo Ministério Público e pela Magistratura. Os suspeitos de sempre e outros mais recentes fazem de tudo para fugir do escrutínio de Sérgio Moro, magistrado federal de primeira instância que está mudando o jeito de enfrentar a corrupção, endêmica no Brasil.

Suas decisões e, especialmente, a firmeza com que conduz as investigações e os processos terão impacto sobre o comportamento futuro do resto da Magistratura do Brasil.

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