Suzanne Plunkett/Reuters
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'A Vale tem de dar suporte à Samarco', diz Agnelli

Ex-presidente da mineradora afirma que 'situação atual não era para acontecer de forma nenhuma'

Entrevista com

Roger Agnelli, empresário e ex-presidente da Vale

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 02h01

Conhecido por seu temperamento forte, o empresário Roger Agnelli foi durante 10 anos a própria cara da mineradora Vale. Entre 2001, quando assumiu o cargo, e 2011, quando deixou a companhia, o grupo elevou seu lucro de R$ 3 bilhões para R$ 37 bilhões. A saída de Agnelli da companhia foi conturbada, em meio a especulações de que sua cabeça foi uma exigência do governo da presidente Dilma Rousseff.

Após sua saída da Vale, Agnelli foi para os EUA e, ao voltar, começou a colocar em prática seus projetos de mineração - em parceria com o BTG - e os de bioenergia, mas seu nome ainda é associado à maior mineradora do mundo. No início deste mês, a mineradora Samarco, que tem como acionistas a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, com 50% de participação cada, teve o seu nome envolvido em uma das maiores tragédias ambientais do País, após o rompimento de barragens, o que provocou um desastre no município de Mariana (MG). Pelo menos 11 pessoas morreram e ainda há 12 desaparecidos.

Na segunda-feira, o Ministério Público (MP) de Minas Gerais informou ter fechado um acordo com a Samarco para pagamento de caução socioambiental de R$ 1 bilhão por conta da tragédia. Mas, segundo especialistas, os prejuízos podem chegar a R$ 15 bilhões.

Ao Estado, Agnelli disse que não se sente muito confortável em falar da empresa, da qual ainda é acionista (ele não revelou sua participação na companhia).

Como o sr. tem acompanhado esse problemas atuais enfrentados pela Vale?

Eu não acho correto falar da Vale. Mas eu torço por ela. Sou acionista (da empresa) e continuo torcendo. Eu tinha uma paixão muito grande pela Vale, respeito demais a empresa, os profissionais que estiveram comigo e que estão lá. É um momento difícil que (ela) está passando, ainda culminando com esse acidente, que é difícil de explicar e que não era para acontecer de forma nenhuma, mas aconteceu. Alguma coisa aconteceu: negligência não é, incompetência não é. Nada disso. A Vale e a Samarco são empresas absolutamente preocupadas com essas questões ambientais e, principalmente, com barragens. Alguma coisa muito fora do imaginável aconteceu.

Em um dos seus primeiros pronunciamentos sobre o caso, a Vale informou que era 'mera acionista' e que não era culpada pelo infeliz acidente.

Mas acho que estão dando todo suporte. Eles têm de dar todo o suporte. Acho que a Vale tem de dar todo o suporte para a Samarco neste momento.

Qual sua participação acionária na Vale?

Boa parte do meu patrimônio estava na Vale.

Estava ou está?

Reduziu bastante o valor (referindo-se à queda das ações da companhia na Bolsa, mas sem citar exatamente qual sua fatia na mineradora).

Mas foi o sr. mesmo que disse que, para investir no setor de mineração, tem de se pensar em projetos de longo prazo...

Haja longo prazo... Mas a gente tem de viver do curto prazo... Do meu patrimônio, foi bastante relevante (referindo-se à desvalorização das ações da empresa).O empresário Roger Agnelli disse que não está buscando investidor para seus projetos que estão sendo tocados junto com o BTG Pactual, na mineradora B&A, mas não descarta no futuro parceiros para promover a expansão da fábrica de fertilizantes ou mesmo no projeto de cobre no Chile, quando a companhia revisar os investimentos. No caso da cana, que ainda está em fase de desenvolvimento, pretende negociar a venda a matéria-prima para usinas.

Fontes afirmaram ao 'Estado' que o BTG já não estaria mais interessado em investir em mineração, pela má fase do setor.

Acho que tanto eles quanto eu! Temos de passar por esse ciclo (de baixa). Não está na hora de alocar mais capital por conta do modelo. Sou otimista. Acho que em quatro a seis meses a gente tem uma ideia melhor (dos rumos do setor). Tem gente que acha que só em dois anos clareia. Estamos felizes? Não. Tem de respeitar o mercado. Eles (o BTG) acompanham bastante o desenvolvimento de vários projetos.

Qual o horizonte para se repensar o projeto do Chile?

No Chile, estamos esperando. Tem reserva, está confirmada, auditada e certificada. Toda a estrutura está pronta. A hora que a gente quiser começar, está pronto.

Sobre fertilizantes, o sr. pretende procurar investidores para expandir o projeto?

O projeto é pequeno e temos um produto (insumo à base de fosfato) muito bom. Não incomoda ninguém.

Esse projeto vai começar a te dar retorno quando?

Só ano que vem. É pequeno, mas um bom projeto.

Quando vai pagar os investimentos já feitos?

É um projeto que se paga rápido. Uns quatro anos. Podemos até, talvez, dobrar o projeto em dois ou três anos.

Sozinho ou com outros sócios?

Depende. Pode ter outros investidores.

O BTG é basicamente o investidor financeiro?

Nós somos o parceiro operacional. Está demorando mais do que eu achava esse ajuste de ciclo (de minério). É normal. Temos pouco mais de 10% do capital e, o BTG, o restante.

O setor de mineração vai demorar para se recuperar?

O mundo cresceu, a demanda continua forte por commodities, de modo geral. O Brasil é essencialmente produtor de commodity e vai continuar exportando muita carne, papel e celulose, grãos, exportando minérios de ferro. O País é muito competitivo e a desvalorização do dólar ajuda esses setores. O Brasil deveria focar mais nesses setores, que são competitivos e têm demanda firme. Não teve queda muito grande na demanda (global) para justificar essa queda de preço. O que houve é volatilidade no mercado financeiro, das moedas, volatilidade também, eu diria, de percepção de crescimento. Muitos grupos (de mineração) que não são muito competitivos não se viabilizam com preços atuais (do minério de ferro). Vão ter de se ajustar, reduzir custo, apostar em inovação, produtividade, revisar processos.

Como o sr. vê a economia brasileira?

O Brasil, infelizmente, vai ter de passar por alguns ajustes. Mas, se os preços das commodities se recuperarem, vai ser muito mais fácil para o País.

Olhando para 2016, seus projetos deverão decolar?

Acho que o de bioenergia pode ser mais rápido. As usinas não estão investindo, não renovaram os canaviais. Os preços internacionais do açúcar subiram, a demanda por etanol está mais firme. O setor está se revigorando. A cogeração de energia tem potencial para avançar e o governo quer impulsionar energia renovável.

O governo deu alguns incentivos, como a retomada da Cide (imposto sobre combustível).

Não podemos desprezar esse importante setor da economia brasileira, que tem as melhores intenções de redução de emissão de gás carbônico.

Mas a crise política e econômica pela qual o País passa pode atrasar esse processo...

Não só o Brasil, mas o mundo inteiro está passando por um processo de se repensar de alguma forma. A geopolítica está mudando, os líderes estão mudando. O Brasil tem de passar por esse processo, fazer reformas. Os ajustes, talvez, pudessem ser menos custosos. O fato é que o Brasil precisa se modernizar, fazer as reformas, os ajustes, pagar a conta do que ficou para trás. Assim como os países da Europa estão pagando a conta, assim como a China, que está nesse processo de evolução para uma economia mais aberta. O mundo está passando por um processo mais interessante. É claro que passamos por erros e acertos, mas tem de ter ajuste de contas. Nem sempre os investimentos que apostamos dão certos. Mas empreendedorismo é risco. Temos de correr esse risco.

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