A verdade sai de um poço

No mar de informação infinita que há na internet parece tarefa impossível separar o que é verdade do que é farsa. Não era assim no começo, quando a rede era basicamente acadêmica: sem apelo comercial e tendo no correio eletrônico sua principal forma de interação. Mas a Web, o acesso livre e abrangente a todos, gerou esse fluxo enorme de informação das mais diversas origens e qualidades.

Demi Getschko, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2014 | 02h05

Um pessimista diria que não há como retomar o rumo e estaremos cada vez mais perdidos, sem saber como separar o joio do trigo. Eu, otimista incorrigível, penso que, ao contrário, as impurezas tenderão a sedimentar, deixando o que é verdadeiro à tona. Se a internet é espelho da sociedade e do comportamento humano, recuso-me a assumir que uma grande parte de seus integrantes seja perversa ou mal-intencionada.

Tenho um exemplo edificante: a Wikipédia, uma enciclopédia colaborativa que começou em 2001 de forma muito modesta, especialmente se compararmos com seus equivalentes em papel. Na biblioteca do colégio, por exemplo, repousavam os 82 alentados volumes de uma enciclopédia em papel, a Espasa-Calpe.

Hoje, a Wikipédia é um gigantesco (e confiável) repositório de dados. Foi construída de forma aberta, colaborativa e sem remuneração. Apesar dos riscos, ninguém pode acusá-la de ter-se deteriorado pela ação dos mal-intencionados...

Assim, é possível que a verdade prevaleça. Claro que não tenho a menor competência para discutir o que seja verdade, ou adicionar um miligrama ao que pensadores edificaram durante séculos. Bento XVI tem uma frase ótima: "a verdade, realmente, encontra força em si mesma e não na quantidade de consenso que obtém". Ou seja, não chegaremos a ela por estatística ou votação.

Mas não resisto a terminar sem uma historinha. Tivemos na Escola Politécnica, entre muitos brilhantes mestres, Wagner Waneck Martins, um professor, já falecido, que era tudo, menos convencional. Ele defendia, por exemplo, que, para simular adequadamente um ser humano, um computador não deveria ter processador numérico, já que nós humanos não temos.

Waneck e a verdade: um dos privilégios dos que tiveram aula com ele é que estão entre os poucos que podem alegar conhecer a definição de "verdade". Sim! Esse conceito que assombra a todos desde sua origem, foi desvendado para nós por ele, de forma cabal. "Verdade é uma mulher que sorri para você, nua e bela no fundo de um poço. Você olha ansioso para ela, mas... ela sacode o dedo e diz nãããão."

Nós, simples politécnicos, ríamos de mais essa tirada de humor. Trinta anos mais tarde, vi que mais do que uma brincadeira, havia sempre profundidade e brilho no que o mestre Waneck dizia.

Ao perambular pela internet descobri que, atribuída a Demócrito, ou a Heráclito, ou ambos, há referência à "verdade" como "jazendo no fundo de um poço". E um provérbio francês, reproduzido em quadros que mostram uma mulher nua saindo de um poço, diz que "la vérité sort d'un puits" - a verdade sai de um poço... Sairá também do oceano que é a internet!

*Demi Getschko é conselheiro do Comitê Gestor da Internet; escreve quinzenalmente 

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