A vez do comércio

Do Descobrimento à Revolução de 1930, o Brasil foi um exportador de produtos agrícolas e matérias-primas, que passou por ciclos econômicos como o do açúcar, o do ouro, o da borracha e o do café. Depois, nos 50 anos seguintes, até a década de 1980, a indústria assumiu a condição de locomotiva da produção, capitaneando o desenvolvimento.

Abram Szajman, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2011 | 00h00

A ocupação da mão de obra acompanhou essa evolução. Hoje, o papel de gerar a maior parte dos empregos cabe ao setor terciário: comércio e serviços respondem por 72% dos postos de trabalho. Na região metropolitana de São Paulo o setor emprega 77% da mão de obra. Só no ano passado, o número de carteiras assinadas no comércio cresceu 75%, respondendo ao dinamismo atual da economia.

Esse desempenho remete ao século passado, o tempo em que a manufatura recrutava grandes contingentes de operários, concentrados em gigantescas unidades fabris. As próprias mãos evocadas pela palavra manufatura escasseiam cada vez mais em linhas de produção quase totalmente automatizadas, enquanto o comércio e os serviços são essencialmente constituídos não por máquinas, mas por mão de obra, que absorvem em escala crescente.

O maior número de empregados se reflete na importância econômica do setor terciário, que em 2010 respondeu por 67,4% da riqueza nacional. Na região metropolitana de São Paulo, a mais industrializada do País - representa 2/3 do PIB -, esse número salta para 84%.

Se no lugar da oferta formos analisar a demanda, o panorama não muda. O total de consumo das famílias no Brasil atingiu R$ 2,2 trilhões em 2010, ou seja, mais de 60% do PIB de R$ 3,7 trilhões. Todo esse volume se deu a partir da aquisição de bens e serviços distribuídos pelo setor correspondente, que opera, em consequência, com elevado valor agregado.

Sem necessidade de nos aprofundarmos em fundamentos de produção, isoladamente, as estatísticas de emprego destacadas desse contexto falam alto. Mas, apesar da eloquência dos números e do dinamismo representado pela atividade comercial e de serviços, essa realidade não se reflete na imprensa ou nos diversos níveis de governo, sempre mais atentos aos movimentos da indústria, onipresente nas páginas de jornais e revistas e no horizonte das preocupações dos administradores públicos.

Financiamentos de bancos estatais como BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, por exemplo, continuam a privilegiar a indústria, como há 40 anos. Com isso se ignora não apenas a magnitude atual do setor terciário como empregador, mas também o seu potencial nesta sombria conjuntura internacional, em que o crescimento do mercado interno tem sido o motor de nossa economia. Os números mais uma vez podem ser evocados para mostrar quem trafega na contramão: a indústria, incluindo a construção civil, gera 25% do emprego, mas recebe 31% do volume de crédito; para o comércio e serviços, responsáveis por 72% dos postos de trabalho, estão disponíveis apenas 28,1% dos empréstimos.

O que talvez explique as distorções no tratamento creditício e tributário, na alocação de recursos e na elaboração das políticas públicas, é a inexistência de um programa de desenvolvimento que sirva de orientação aos diversos setores de produção, aos bancos de fomento e aos demais órgãos de governo. Enquanto isso não existe, continuam a imperar os usos e costumes e as ações dos diversos grupos de pressão.

Como salta aos olhos de quem queira ver, esse anacronismo conspira contra as necessidades estratégicas do País. Está mais do que em tempo de o governo criar o prometido ministério das micro e pequenas empresas e de direcionar para o setor de comércio e serviços seus esforços de fomento e planejamento. Basta de jogar fora tempo e dinheiro tentando paralisar ou fazer retroceder a roda da história. É chegada a hora e a vez do comércio, porque, como dizem os jovens, a fila anda.

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DO COMÉRCIO DE BENS, SERVIÇOS E TURISMO DO ESTADO DE SÃO PAULO (FECOMÉRCIO) E DOS CONSELHOS REGIONAIS DO SESC

E DO SENAC

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