Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'A viagem para a Europa fica para a próxima'

Dólar em alta adia planos de férias das famílias brasileiras e faz consumidor rever as compras de produtos importados

Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2015 | 03h00

A disparada do dólar provocou mudanças nos planos de consumo de muitos brasileiros. A tão sonhada viagem aos Estados Unidos ou Europa foi temporariamente adiada e a mesa farta com produtos importados em datas comemorativas, como a Páscoa, já não será tão farta neste ano.

"Cheguei a comprar 30 quilos de bacalhau para dar de presente a familiares, mas hoje estou levando a metade", disse o engenheiro Robson Brandão, de 48 anos, que mora em Salvador (BA). Na semana passada, ele aproveitou uma viagem de trabalho a São Paulo para comprar o peixe importado no Mercado Municipal, o famoso Mercadão. Por 15 quilos de bacalhau do Porto, desembolsou R$ 1,2 mil.

Pelo quilo do filé do peixe que é importado e sofre o impacto do câmbio, meses atrás ele pagava R$ 60 pelo filé e R$ 90 pelo lombo. Na semana passada, desembolsou R$ 68 pelo quilo do filé e R$ 120 pela mesma quantidade de lombo. “Em vez de levar um produto de qualidade inferior, optei por reduzir a quantidade.”


Já a dona de casa Rosaria Lovisi, de 78 anos, que também visitava o Mercadão na semana passada, decidiu comprar o filé do peixe para atenuar o impacto do câmbio. “O lombo seria melhor do que o filé, mas está muito caro”, disse. A dona de casa pretende reforçar a bacalhoada da Páscoa com outros ingredientes, como batata, pimentão e tomate. Mas até mesmo essa estratégia, segundo ela, está comprometida. “O quilo da batata boa está custando R$ 5; outro dia mesmo saía por R$ 2.”

“Estou sentido o impacto do câmbio em tudo que é importado”, observou o engenheiro. Além do bacalhau, o sal rosa, importado de Israel e que ele costuma comprar porque tem menor teor de iodo, teve o preço majorado. Até pouco tempo atrás o quilo custava R$ 25, agora sai por R$ 40.

Férias. Também a viagem de férias para a Europa do engenheiro com a mulher e os filhos, programada para a metade do ano, deve virar uma ida a Buenos Aires e Bariloche. “A viagem para Europa fica para a próxima.”

O casal Edney e Pricilla Mezzotero também viu seus planos serem desfeitos desde que o dólar disparou. “Tínhamos planos de ir este ano para a Europa ou os Estados Unidos e cancelamos a viagem”, disse Edney, de 34 anos, que é empresário.

Ele conta que, junto com a sua mulher, que é professora e tem 25 anos, viajou muito ao exterior nos últimos tempos, quando aproveitavam para fazer as compras de produtos importados. “Agora não vamos fazer nada, talvez uma viagem curta, de fim de semana, para Ilhabela.”

Luiz Eduardo Falco, presidente da CVC, a maior operadora de turismo do País, admitiu que o mercado este ano está mais difícil e que está tendo mais trabalho para vender. “Mas ninguém vai deixar de viajar, e o consumidor incorporou esse hábito.”

Para encaixar as viagens no orçamento mais apertado dos brasileiros, ele contou que a CVC está adaptando os roteiros: trocou destinos dos Estados Unidos para países da Europa – para onde as viagens acabaram ficando mais em conta – e América do Sul.

Apesar dos ajustes diante da alta volatilidade do câmbio, a operadora também mudou a estratégia de vendas. Antes, adotava um câmbio fixo, inferior à cotação do mercado, por um período longo. Agora, o câmbio da operadora é alterado todos os dias.

Outro lado. Mas a alta do dólar não é integralmente ruim para Robson Brandão. Ele, que trabalha em uma grande companhia do setor metalúrgico, disse que a sua empresa será beneficiada pela subida do dólar por causa da menor concorrência de produtos importados. “Por incrível que pareça, minha empresa deve crescer 5% este ano, enquanto o País está em recessão ou deve ter crescimento zero.”

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