Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

A vida com o euro

Assim que entraram para a zona do euro, países do sudoeste europeu, como a Grécia, se endividaram como se não houvesse amanhã

DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h07

Artigo

A nova determinação e o palpável desejo dos europeus de fazer sucesso com o projeto histórico - a criação de uma moeda única - foram recompensados. Bancos, fundos de pensão e grandes investidores de todo o mundo começaram a mostrar interesse por essa nova Europa.

Os bônus de governo portugueses e irlandeses, combinados com a força econômica francesa e a confiabilidade alemã, de repente pareceram investimentos de baixo risco, orientados para o futuro. Foi nessa época que o setor financeiro desenvolveu novos truques de magia.

Operadores de usinas de tratamento de esgotos no sul da Alemanha, governos municipais da Espanha, cidadezinhas de Portugal e bancos provinciais da Irlanda se envolveram com banqueiros de Wall Street e gestores de fundos de Londres que prometiam lucros com a conversão de dívida em títulos negociáveis. E enquanto governos centrais tentavam limitar os orçamentos nacionais para cumprir os requisitos de Maastricht, municípios acumulavam dívidas que não eram documentadas. Havia empréstimos a juros baixos disponíveis por toda parte, e era muito fácil remeter o pagamento para um futuro distante e refinanciar ou mesmo expandir os gastos públicos.

Criou-se uma brecha no Tratado de Maastricht. O economista de Harvard, Kenneth Rogoff, diz que a regra sobre a relação máxima de dívida para o PIB deveria ter sido corrigida, e que foi errado estabelecer o limite de 60% numa base puramente quantitativa sem perguntar de onde estavam realmente vindo os empréstimos. Segundo Rogoff, teria sido necessário limitar a proporção de obrigações estrangeiras na dívida nacional de cada país. No longo prazo e, especialmente, durante uma crise econômica, esse tipo de dívida conduz a uma indesejável dependência dos caprichos dos mercados.

De fato, os governos se endividaram excessivamente com emprestadores estrangeiros, em especial, com os grandes bancos europeus. Eles acumularam o que economistas chamam de dívida externa. O Deutsche Bank comprou bônus gregos, o Société Générale investiu em bônus espanhóis e fundos de pensão dos Estados Unidos e do Japão compraram bônus de governos europeus. Os rendimentos não eram particularmente altos, mas tampouco o eram os riscos de calote, ou assim parecia.

Entretanto, foi durante esse período que se formaram as relações monetárias que transformaram a Grécia numa bomba monetária que anos depois colocaria em risco toda a zona do euro. Os gregos conseguiram captar empréstimos com juros ligeiramente acima dos que o governo alemão pagava. "O euro era uma espécie de paraíso", diz o então ministro de Finanças grego, Yiannos Papantoniou. Uma vez aceitos na zona do euro, os países do sul da Europa desistiram de tentar pôr em ordem as finanças, diz Papantoniou. Com um fluxo constante de dinheiro fácil vindo dos países europeus setentrionais, o setor público grego começou a se endividar como se não houvesse amanhã.

Isso só foi possível porque o país, ao se tornar parte da zona do euro, estava também efetivamente tomando emprestado a credibilidade e a classificação de risco da Alemanha.

Os gregos criam agência da dívida

Antes do euro, a Grécia havia mostrado pouco interesse no mercado internacional de bônus. O país era simplesmente pequeno demais e economicamente subdesenvolvido demais para jogar um grande papel. Em 1999, porém, o governo socialista em Atenas estabeleceu uma Agência de Administração da Dívida Pública, nomeando Christoforos Sardelis para seu diretor. Sardelis, um economista, havia lecionado em Estocolmo durante a ditadura militar na Grécia. Agora, ele chefiava um staff de 20 a 30 funcionários.

Pela primeira vez, os gregos tentaram convencer investidores estrangeiros a adquirir grandes volumes de dívida com maturidades mais longas. A mensagem era: comprem um título atraente da União Europeia. Logo depois, a Grécia estava vendendo pacotes de bônus de até 5 bilhões em leilões do governo, diz Sardelis. A partir de 2001, havia uma "enorme demanda de toda a Europa", além de Japão e Cingapura. As coisas estavam indo tão bem que Sardelis conseguiu atrair especialistas do Deutsche Bank. A Grécia estava em voga. Na verdade, os gregos estavam leiloando o próprio futuro, sem notar.

Na primavera de 2003, as taxas dos bônus gregos estavam apenas 0,09 ponto porcentual acima de bônus alemães comparáveis. Em termos simples, isso significava que os mercados na época sentiam que a Grécia, com uma economia baseada em azeitonas, iogurte, construção naval e turismo, era tão digna de crédito quanto a altamente industrializada Alemanha, a maior exportadora mundial na época. Por quê? Porque ambos os países agora tinham a mesma moeda. E porque os mercados - como explicou Andreas Schmitz, o chefe da Associação de Bancos Alemães, numa entrevista recente ao jornal semanal alemão Die Zeit - não acreditaram na chamada cláusula de "não salvamento" do Tratado de Maastricht, uma cláusula que visava impedir países da zona do euro de se responsabilizarem pelas dívidas de outros membros.

A Alemanha menospreza o tratado

Em 2002, o governo alemão tinha outras coisas em mente para se preocupar com as finanças públicas da Grécia. Estava tendo problemas próprios, com a Comissão Europeia ameaçando enviar uma advertência a Berlim. Era esperado um endividamento da Alemanha acima do limite de 3% do PIB permitido para o déficit orçamentário. O resultado não foi, porém, um exemplo de disciplina fiscal alemã e adesão exemplar às regras europeias, mas uma batalha de dois anos do governo Schröder para evitar uma punição de Bruxelas.

Poucos dentro da Comissão Europeia criticavam abertamente as regras de Maastricht. E os alemães, com os franceses - ambos enfrentando a ameaça de um procedimento de endividamento excessivo -, estavam ocupados demais para minar o tratado. Os dois países, determinados a não se submeter a sanções, conseguiram assegurar uma maioria no Conselho de Ministros de Economia e Finanças da UE para cancelar o procedimento de sanção da Comissão Europeia. Isso representou uma grave quebra das regras cujas consequências só começariam a se tornar visíveis mais adiante.

A iniciativa franco-alemã efetivamente acabou com o Pacto de Estabilidade e Crescimento que os alemães haviam forçado os parceiros a assinar. As consequências foram fatais. Se as duas maiores economias da zona do euro não estavam obedecendo as regras, por que os outros deveriam fazê-lo?

A tramoia grega é descoberta

O novo governo conservador da Grécia, eleito em 2004, revelou que seus antecessores socialistas vinham reportando números manipulados à Eurostat desde 2000, incluindo os usados para ingressar na zona do euro. Mas em lugar de criticar a Grécia, o presidente português da Comissão Europeia, Manuel Barroso, elogiou o novo governo por sua transparência e o cumprimentou por tomar "medidas tão corajosas" para reparar os erros do passado. Agora era missão da Grécia pôr a casa em ordem até 2006.

Um jogo de empurra começou em Bruxelas, onde autoridades disputavam sobre quem exatamente havia dado informações incompletas ou incorretas a quem. A comissão monetária da UE apontou o dedo para o diretor-geral da Eurostat, que desviou a culpa para os comissários da UE, que por sua vez criticaram o Banco Central Europeu. Para piorar as coisas, as esperanças de um forte crescimento econômico na zona do euro se frustraram. A Alemanha, em particular, estava sofrendo, o crescimento era mínimo na Europa e os números de desemprego eram desconcertantes. A Europa se tornara um tópico de discussão constante no Fundo Monetário Internacional (FMI).

O FMI adverte a Europa

A Europa estava sob observação na sede do FMI. Os países do euro, depois de terem construído maravilhosos mundos econômicos novos para si desde fins dos anos 90, a maioria sobre dinheiro emprestado, já estavam com rombo crescente de dívida, que ainda quase não era notado e era, com certeza, amplamente subestimado. Eles pareciam o camundongo que exulta ao avistar um pedaço de queijo numa ratoeira, sem perceber que comer o queijo vai acionar a ratoeira.

Na época, a resposta do então economista-chefe do FMI, Rogoff, à questão de se a zona do euro poderia se desmanchar foi simples: "Claro". Rogoff disse que, num prazo de dez anos, alguns países poderiam nem estar mais usando o euro. Quando ele dizia essas coisas, seus colegas, particularmente os europeus, olhavam para ele "como se tivesse um parafuso frouxo", ele lembra.

A união política que havia sido prometida durante anos como um verdadeiro arcabouço para a união monetária técnica não se materializou. Mas a festa europeia continuou. Todos, exceto os alemães, melhor dizendo, que estavam ocupados introduzindo reformas dolorosas e impopulares - conhecidas como Agenda 2010 e Hartz 4 - em seu mercado de trabalho e sistemas de bem-estar social. "O que os alemães realizaram na época é muito impressionante", diz Rogoff. "Eles reconheceram o problema da dívida e das fraquezas sistêmicas, e racionalmente começaram a eliminar essas fraquezas." Mas em vez de desenvolver a produtividade econômica, reformar os sistemas sociais e controlar custos, países como Grécia, Portugal e Itália tomavam emprestado cada vez mais.

Os críticos, porém, miraram a Alemanha e não esses países. Os alemães, diziam, estavam empurrando os parceiros europeus contra a parede. As exportações alemãs a países da zona do euro estavam crescendo a uma média de 7% ao ano, enquanto 73% do superávit comercial da Alemanha provinha desses países.

Problemas estruturais da Grécia

Os gregos estavam consumindo sobre crédito, usando empréstimos baratos. Eles compravam máquinas e carros alemães, o que ajudava a aumentar o PIB da Alemanha, enquanto negligenciavam a introdução de reformas em casa. Nenhuma autoridade eleita estava disposta a reduzir a imensa burocracia do país, quase nenhuma estava interessada em pagamento da dívida, déficits comerciais ou custos trabalhistas, e pouquíssimos combatiam a corrupção, os subsídios fraudulentos e os privilégios imerecidos.

As consequências dessas falhas ainda são plenamente visíveis na Grécia do norte atualmente, na região fronteiriça com a Bulgária. Quase todas as fábricas da zona industrial de Komotini estão fechadas e, no entanto, parecem novas em folha. Komotini é um excelente exemplo de por que a economia grega não cresce, por que ela não é competitiva e por que o país não progride.

A maioria das empresas jamais abriu as portas para operar. Aliás, os prédios abandonados são as ruínas dos subsídios fraudulentos. Seus incorporadores obtiveram recursos e empréstimos a juros baixos do governo em Atenas e da UE para construir as fábricas, mas nunca pretenderam operá-las.

A Transparência Internacional considera a Grécia o país mais corrupto da UE. Permissões e certificados só conseguem ser obtidos em troca de dinheiro. Nem todos na Grécia veem isso como um problema. Alguns veem a corrupção como parte da cultura grega, e também acreditam que impostos são desnecessários. Por conseguinte, o governo tem um duplo problema de receita. Por um lado, a burocracia impede algumas empresas de crescerem e se tornarem lucrativas. Por outro, as empresas que crescem e se tornam lucrativas encontram maneiras de quase não pagar impostos. Todo ano, o Estado grego perde estimados 20 bilhões em impostos não pagos. Um terço da atividade econômica da Grécia não paga impostos.

Classificações ruins para a Grécia

Em setembro de 2008, quando a falência do Lehman Brothers produziu uma catástrofe nos mercados financeiros, o governo grego acreditou que havia sido poupado. Bancos gregos detinham bem poucos dos papéis supostamente inovadores que os magos de Wall Street haviam idealizado. No entanto, em 2008, a dívida pública subiu para 110%. O país das belas ilhas estava muito mais encrencado do que estava disposto a acreditar.

As agências de classificação de risco, que haviam declarado que quantidades maciças de títulos imprestáveis eram investimentos seguros, ficaram sob especial escrutínio depois da quebra do Lehman. Afinal, elas também estavam classificando países inteiros e bônus de governos. Durante anos, as três maiores agências haviam dado graus AAA e AA aos bônus de membros da zona do euro. Em 14 de janeiro de 2009, uma delas, a Standard & Poor's, decidiu rebaixar os bônus do governo grego para A-. Era a classificação mais baixa de todos os então 16 membros da zona do euro. Da perspectiva de hoje, isso marcou o começo do crash.

O rebaixamento pôs em movimento uma espiral descendente que mostraria a líderes europeus como é frágil o seu euro, e como podem ser contagiosas as condições de um pequeno país como a Grécia. Marko Mrsnik, analista responsável por bônus do governo grego na S&P, estava por trás do rebaixamento.

Os critérios puramente econômicos são facilmente acessíveis nas tabelas produzidas por bancos centrais, Eurostat e FMI. Mas a política de um país é algo que não pode ser obtido com uma calculadora. Ela tem a ver com questões como o bom funcionamento de um governo, corrupção, sindicatos fortes, grau de rebeldia dos jovens e a força de seu líder. São critérios imprecisos - mas importantes. Explicando a decisão de rebaixar a classificação de risco do país, Mrsnik escreveu que a crise financeira e econômica em curso ampliou a perda fundamental de competitividade da economia grega. Depois dessa avaliação ser emitida, os preços despencaram na bolsa de valores de Atenas e os juros subiram. Os compradores de bônus do governo grego, querendo compensar o risco assumido, pediram um prêmio mais alto. Dali em diante, se a Grécia queria emprestar 1 bilhão, isso é, vender bônus no valor de 1 bilhão, tinha de pagar 2,8 milhões a mais em juros do que a Alemanha. Os encargos da dívida continuaram subindo sem parar.

Alarmada com o rebaixamento, a Comissão Europeia começou outro procedimento contra a Grécia pelo excesso de déficit. Mas foi um gesto inútil. Qual o sentido de aplicar multas a um país em dificuldades financeiras? Em outubro de 2009, o novo governo do socialista George Papandreou substituiu o governo conservador em Atenas. Após a vitória eleitoral de Papandreou, escreveu Mrsnik numa carta a clientes da S&P, resta ver se o novo governo terá a vontade para implementar uma estratégia fiscal crível. Isso soou diplomático, mas era puro sarcasmo. Os investidores captaram a mensagem. A tragédia grega havia começado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.