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Bruna Justa/Estadão
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Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
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A vida dos mais pobres é cercada de elevados níveis de estresse

Ainda existe o mito de que há na pobreza uma certa leveza, mas cada vez mais a ciência tem evidenciado a relação entre os mais pobres e a infelicidade

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 04h00

Radiante, o diretor de A Vida é Bela encerrava o discurso no Oscar lembrando a família: “Gostaria de agradecer aos meus pais, que me deram o melhor presente: a pobreza”, disse Roberto Benigni, para gargalhadas. O momento simpático alude a um dos mitos mais comuns sobre a pobreza: o de que há nela certa leveza. Para alguns, uma despreocupação, a ausência dos estresses cotidianos que acompanhariam rendas maiores. More money, more problems. É um mito cada vez mais iluminado pela ciência, que tem descrito a relação entre a pobreza e a infelicidade.

Para uma exploração inicial, consideremos o The World Happiness Report, publicação que classifica os países de acordo com a felicidade dos seus cidadãos – ou de acordo com o seu “bem-estar subjetivo”. Embora se exija alguma cautela na comparação (culturas diferentes podem ver felicidade de forma diferente), o fato é que o indicador de felicidade acompanha bastante o nível de renda. São líderes países como Finlândia e Suíça, e estão entre os mais infelizes Haiti e Zimbábue

A abordagem da economia da felicidade é uma lente para a questão (há um livro novo e em português sobre ela, do professor Carlos Alberto Ramos). Mas uma lente também relevante para o atual momento brasileiro são os estudos especificamente sobre o cérebro da população na pobreza.

Achados popularizados pelos Nobel Abhijit Banerjee e Esther Duflo indicam que a vida dos mais pobres é, na verdade, cercada de elevados níveis de estresse. E o mais relevante é que há aí uma espécie de armadilha da pobreza. Sem espaço mental para programar o futuro, tendo de lidar com as ameaças do dia a dia, esses indivíduos não têm como tomar as decisões que os ajudariam a progredir. A relação entre pobreza e tomada de decisão, tendo como canal o estresse, tem sido objeto de muitas pesquisas relevantes nos últimos anos.

Não apenas transferências de renda, mas intervenções do Estado voltadas para lidar com essa limitação aparecem como possíveis políticas públicas – como indica pesquisa publicada pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo. Luis Henrique Paiva, um dos seus autores, sintetiza o problema: “Viver na pobreza exaure a sua capacidade mental e isso acaba conduzindo o indivíduo a tomar decisões ruins e com maior probabilidade de cometer erros. Isso retroalimenta a pobreza. O contexto da pobreza perpetua a escassez”.

Exemplos estressantes citados por Paiva incluem questões que não passam pela cabeça da população mais abastada, como “acordar pensando na qualidade da água que estamos bebendo ou como os recursos gastos no almoço vão fazer falta no fim do mês”. 

Perceba que o argumento corriqueiro de que programas sociais prejudicam os mais pobres, porque desestimulariam sua emancipação, partem de um diagnóstico incompatível com esses resultados. Nesse argumento, haveria oportunidades a serem exploradas pelos mais pobres, que deixam de ir atrás delas por comodismo ou por uma avaliação conservadora sobre os riscos de deixar um benefício social. Pressupõe, assim, que podem avaliar e planejar suas vidas como os mais ricos. 

Estudo na Science (Shah et al., 2012) mostra que dificuldades financeiras têm um impacto no cognitivo equivalente ao de uma noite sem dormir, ou a um QI 13 pontos menor. Há ainda a própria questão de saúde. Estudo do governo brasileiro, ainda na gestão Temer, já reportava em famílias do Bolsa Família índices elevados de crianças pequenas vivendo com mães com sintomas depressivos – um obstáculo ao próprio desenvolvimento delas.

Já no Brasil da pandemia chama atenção o novo trabalho da FGV Social coordenado por Marcelo Neri. O índice de bem-estar subjetivo monitorado pela FGV não caiu entre os brasileiros mais ricos. Somente os mais pobres estariam mais infelizes, segundo os números. São eles que puxam a média brasileira para baixo, para o menor nível da série que se inicia em 2006. 

O tamanho do buraco que temos de sair é aproximado pelo “índice da miséria”, outro indicador que contempla simplesmente duas variáveis econômicas: o desemprego e a inflação. A metodologia é diferente, mas há uma semelhança. Ele também mostra que estamos em nosso pior momento.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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