Rick Wilking|Reuters
Rick Wilking|Reuters

A vingança de Buffett

Serviços como o do site Airbnb estão modificando a lógica econômica do setor hoteleiro ao redor do mundo

The Economist

15 de janeiro de 2016 | 05h00

Para quem se esfalfou nas festas de fim de ano e agora precisa de alguns dias de férias, não poderia haver momento melhor: as diárias dos hotéis da Times Square, em Nova York, são quatro vezes mais caras na véspera do ano-novo do que no início de janeiro; um quarto no quatro estrelas mais barato de Cancún, no México, agora sai pela metade do preço cobrado em 31 de dezembro.

A lógica econômica por trás dessa queda acentuada no valor das diárias é simples: o custo de construção e operação de um hotel é alto; a demanda por hospedagem, sazonal. Para o negócio dar lucro, só colocando os preços nas nuvens quando chega a alta temporada. Mas os custos econômicos impostos pela sazonalidade não se limitam às contas salgadas. Quando encontram os hotéis lotados nas datas em que desejam viajar, os turistas acabam indo para outro lugar. E, apesar dos preços baixos, boa parte do estoque de acomodações permanece ociosa na baixa temporada. O descompasso entre oferta e demanda pode ser exacerbado por eventos ocasionais, como competições esportivas, concertos e conferências, que por alguns dias inundam com visitantes as cidades que os sediam.

A “economia compartilhada” apresenta uma solução para esses problemas. Assim como o “preço dinâmico” do Uber leva taxistas de meio expediente para as ruas na hora do rush, serviços de locação temporária de imóveis, como Airbnb, HomeAway e Onefinestay, devem ampliar a oferta de acomodações nos períodos em que determinada cidade atrai mais visitantes. O Airbnb divulgou recentemente dados que confirmam essa hipótese, mostrando que muitas das pessoas cadastradas no site colocam suas casas à disposição justamente nas ocasiões em que podem aproveitar a demanda em alta.

As assembleias anuais de acionistas que a Berkshire Hathaway realiza em Omaha, cidade do Meio-Oeste americano, são um bom exemplo do que está acontecendo. Em 1980, 12 pessoas compareceram à reunião inaugural, incluindo o dono do conglomerado financeiro, Warren Buffett. Atualmente, porém, elas atraem cerca de 40 mil pessoas, ou o equivalente a quase 10% da população da cidade. Os poucos hotéis de Omaha organizaram seus modelos de negócios com base nesse pico de procura, quando aumentam sem dó o valor das diárias – que em alguns casos chegam a US$ 400 – e impõem estadias mínimas de três pernoites para um evento que dura um único dia. Frugal como ele só, Buffett está indignado, e ameaça transferir a reunião para Dallas.

Felizmente, pessoas que se dispõem a compartilhar suas residências começaram a pôr alguma pressão sobre os hotéis. Nas três semanas que antecederam a assembleia de 2015, 1.750 habitantes de Omaha listaram novas acomodações no Airbnb – o equivalente a três Hilton Omaha, maior hotel da cidade. Isso elevou o número de acomodações oferecidas pelo site em Omaha para 5 mil, 76% das quais estavam ocupadas, a um valor médio de US$ 209, na véspera da reunião, realizada em 2 de maio, um sábado. Além disso, em comparação com os preços cobrados alguns dias antes ou depois do evento, a locação de acomodações por meio do Airbnb ficou apenas 60% mais cara no fim de semana em que a assembleia foi realizada. No caso dos hotéis, a alta foi de 200% ou mais.

Omaha pode até ser um caso excepcional, mas é reflexo de uma tendência. Os dados divulgados pelo Airbnb abrangem 31 eventos específicos. Nas três semanas anteriores a esses eventos, as cidades que os sediaram tiveram aumento de 19% nas acomodações ofertadas no site.

Em relação às semanas anteriores e posteriores à realização dos eventos, o número de estadias triplicou. Mesmo em cidades onde a oferta se expandiu mais lentamente, as locações temporárias proliferaram. No ano passado, as reservas feitas pelo Airbnb durante o festival de artes plásticas Volta, na cidade suíça da Basileia, foram 268% superiores às registradas nas semanas imediatamente antecedentes ou subsequentes ao evento, ainda que as acomodações oferecidas tenham tido aumento de apenas 6%.

Os números do Airbnb não pressagiam o fim das diárias extorsivas que os hotéis cobram em altas temporadas. As acomodações alugadas em sites como o Airbnb não são substitutos perfeitos para os quartos de hotel: muitas pessoas fazem questão dos serviços e conveniências que os hotéis oferecem. E, naturalmente, o impacto da oferta de imóveis para locações temporárias é maior em cidades menores do que em metrópoles, onde é mais fácil absorver uma enxurrada de visitantes. O faturamento do Airbnb em Paris durante a edição de 2015 do aberto de tênis de Roland Garros cresceu só 4%.

Mesmo assim, ao abrandar os apertos sazonais de oferta, os serviços de compartilhamento de residências podem modificar a lógica econômica do ramo hoteleiro, pelo menos nas cidades de menor porte. Se não for mais possível dobrar o valor das diárias quando a demanda atinge o pico, os hotéis que operam em condições mais periclitantes talvez se vejam obrigados a fechar as portas. Por sua vez, os sobreviventes talvez tenham de aumentar as tarifas em outras épocas do ano, levando a uma queda ainda mais pronunciada nas reservas de baixa temporada e prejudicando serviços complementares, como restaurantes e táxis.

Em contrapartida, o aumento no número de locações temporárias significa que, sempre que uma cidade pequena sedia eventos aos quais acorrem grande número de turistas, mais dinheiro entra diretamente no bolso de seus habitantes. (O Airbnb repassa cerca de 85% do valor da hospedagem aos proprietários das acomodações, ao passo que a folha salarial dos hotéis corresponde a apenas 30% ou 35% de seus custos.) No limite, isso pode aumentar o interesse das autoridades municipais em sediar eventos desse tipo. Alguém se candidata a tentar encontrar acomodações para 2024, em Omaha?

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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