A visita do credor

Algumas indicações parecem demonstrar que o governo dos Estados Unidos ainda não sabe como lidar com a China, o grande desafiador da hegemonia americana.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recebeu o presidente da China, Hu Jintao, pela primeira vez com as honras de chefe de Estado de altíssimo interesse para o país. Na visita anterior, em 2006, o então presidente George Bush o tratou com descaso e Hu se sentiu mal recebido. Pelo tratamento dispensado, pode-se ver que, em cinco anos, alguma coisa mudou. Mas terá sido suficiente?

O governo da China não é apenas um desrespeitador dos direitos humanos, como pode ter sugerido Obama no seu pronunciamento de ontem. Os chineses já deram a entender que, nesse campo, os responsáveis por tudo o que tem acontecido no Iraque, no Afeganistão e em Guantánamo, não estão em condições de dar lições.

Pressionado pelas lideranças sindicais americanas, que acusam o governo chinês de destruir empregos nos Estados Unidos com seu jogo comercial, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, vem exigindo que Pequim promova a valorização do yuan (a moeda chinesa) em relação ao dólar. Entende que uma alta do yuan de 20% seria suficiente para derrubar em cerca de 80% o atual rombo comercial dos Estados Unidos, de aproximadamente US$ 500 bilhões por ano.

No entanto, a China não tem nenhum especial interesse nesse passo, até porque esse tom de exigência não tem proporção com o que os Estados Unidos podem de fato impor. A China está em condições de continuar seu jogo comercial, independentemente das ameaças.

A China não é apenas o predador do mercado americano. Ela é hoje o principal credor dos Estados Unidos, e é essa enorme dependência dos capitais chineses que o governo americano não só reluta em admitir, como também não leva em conta na relação recíproca.

Se os dirigentes dos Estados Unidos usassem os mesmos critérios que usaram nos últimos 40 anos para tratar as crises externas dos países em desenvolvimento, como Brasil, México e Argentina, teriam entendido que seu principal problema não é o rombo comercial, mas o orçamentário (ou fiscal), que hoje é de US$ 1,3 trilhão por ano. A dívida pública dos Estados Unidos vai para US$ 13,9 trilhões e deve avançar a US$ 20 trilhões em 2015.

Se essa é a maior vulnerabilidade das finanças dos Estados Unidos, a China teria de ser tratada como principal salvador do país e não como um vassalo qualquer.

As reservas administradas pelo seu banco central são hoje de US$ 2,9 trilhões, dos quais US$ 900 bilhões estão aplicados em títulos do Tesouro americano. Ou seja, a China é o principal financiador do rombo fiscal dos Estados Unidos. Está em condições de provocar até mesmo uma brusca derrubada no valor do dólar no mercado internacional, bastando para isso que anuncie que deixará de aplicar suas reservas em títulos dos Estados Unidos.

Não é à toa que a China está se apresentando para socorrer países quebrados da área do euro com compras maciças de seus títulos públicos. Está mostrando que, apesar de tudo o que acontece na economia europeia, poderá ajudar a alavancar o euro como nova moeda internacional de reserva, em detrimento do dólar.

Enfim, o maior país capitalista do mundo parece não ter entendido como deve lidar com seu principal banqueiro.

CONFIRA

Reservas internacionais da China

Pelo gráfico acima, dá para ter uma ideia de como evoluíram as reservas internacionais da China.

E vem mais

A decisão do Copom foi o que o mercado já previra. E o comunicado divulgado logo em seguida confirmou que este foi apenas o início de um novo ciclo de alta. A tendência é a de que, nas próximas reuniões, o Copom continuará a puxar pelos juros. E tanto mais puxará se o governo não fizer a parte dele, que é a de segurar as despesas, fator que nos dois últimos anos foi o maior responsável pelo ataque da inflação.

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