Paulo Whitaker/Reuters
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coluna

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‘A Volkswagen precisa ser diferente’, diz presidente da empresa no Brasil

Presidente diz que grupo terá de desenvolver carros com design voltado mais ao gosto do consumidor brasileiro

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2017 | 05h00

Após ver sua participação no mercado despencar nos últimos anos, a Volkswagen desenvolve nova estratégia para o mercado brasileiro. A marca alemã já foi líder em vendas por longo período, mas hoje tem “uma imagem fria” perante os consumidores. “Teremos estratégia orientada para as pessoas, mais quente, com produtos novos”, diz o presidente da empresa no Brasil, David Powels. O grupo quer se descolar de carros com design alemão, e voltar a ter produtos mais ao gosto dos brasileiros. Também deve trazer ao País uma área de negócios concorrente do Uber. “A nova geração não quer carro, quer mobilidade”.

A Volkswagen registra queda de 38% nas vendas, num mercado que caiu 20%. A participação no mercado, de 11,5%, é a menor em décadas. O que ocorreu?

Além da crise, perdemos quase dois meses de produção em razão de problemas com um fornecedor de peças, mas estamos em processo de recuperação. A partir de janeiro devemos retomar a produção normal.

Como o grupo reage à crise?

Tivemos de fazer uma reestruturação dura, mas necessária para adaptar o negócio à realidade. Hoje temos 18 mil trabalhadores (nas quatro fábricas). Há dois anos eram 22 mil. São 4 mil pessoas a menos, mas todas saíram por meio de programas de demissão incentivada.

O tamanho da empresa está adequado para o mercado atual?

Hoje usamos mais ou menos 40% da nossa capacidade, mas não temos planos de fechar nenhuma fábrica. Se necessário, vamos usar medidas como lay-off e redução de jornada. Temos confiança de que o mercado vai se recuperar, embora lentamente. A expectativa para 2017 é de vendas totais de 2,2 milhões de veículos. Em cinco anos deve chegar a 2,6 milhões. Para voltar aos 3,5 milhões vai demorar até 10 anos.

Qual a estratégia da marca para os próximos anos?

Vamos começar uma estratégia para reorientar o negócio, renovar produtos, posicionar a marca, melhorar a produtividade, o relacionamento com fornecedores, treinar e motivar nosso pessoal. Estamos investindo numa plataforma moderna que terá três ou quatro produtos a serem fabricados em São Bernardo e no Paraná. Estamos tentando mudar nossa imagem no Brasil e América do Sul. Nos últimos anos, tivemos uma imagem um pouco fria, sem proximidade com clientes e concessionários. Agora, a estratégia será orientada para pessoas, mais quente, com produtos novos e novas atitudes.

Como se faz isso na prática?

Precisamos ter outro tipo de propaganda, ter um relacionamento mais aberto, trabalhar mais em equipe. Não é fácil mudar a cultura em uma empresa grande. Vai demorar um pouco, mas a Volkswagen precisa ser diferente, pois não é só uma marca que vende carros, é uma marca de pessoas. Nossa história começou assim, com o carro do povo (o Fusca) e precisamos voltar a ter essa atitude, estar mais perto dos clientes e colaboradores, com produtos relevantes. Às vezes, o design dos carros da Alemanha não é relevante para o Brasil. 

Significa ter produtos específicos para o mercado brasileiro?

Vamos sempre usar plataformas globais, mas o design precisará ser adaptado. No passado, fizemos produtos só para o Brasil, mas nos últimos 10 anos nos concentramos em produtos com design alemão. No futuro, teremos mais influência para desenvolver carros com design voltados ao consumidor brasileiro.

A crise política afeta a economia?

Ela afeta a confiança. As pessoas têm dinheiro, mas não têm confiança para gastar. Empresas têm dinheiro, mas não têm confiança para investir.

O que o sr. espera do governo?

Precisamos discutir o futuro do setor, que não tem competitividade mundial. O mercado brasileiro é relativamente fechado, com imposto de importação de 35%. Temos de definir o caminho para os próximos 10, 20 anos, avaliar de que forma trabalhar juntos – indústria, governo e sindicatos. Há um plano de ter livre-comércio com a União Europeia em 15 anos. Se não melhorarmos nossa competitividade, com imposto zero não vamos ter indústria aqui. Ninguém vai investir, todos vão importar.

A Volkswagen lançou na Europa uma divisão de negócios digitais para oferecer serviços de transporte semelhantes ao Uber. Esse negócio chegará ao Brasil?

Estamos analisando no Brasil e em todos os outros países novos conceitos, negócios, novos parceiros para o tema da mobilidade. Certamente virá para o Brasil, só não sei se no curto prazo, pois precisamos definir conceitos relevantes para o País. O Brasil não é como a Europa. A distância, a distribuição da população, as demandas são diferentes. Precisamos pensar qual modelo de negócio as pessoas querem aqui. A nova geração quer mobilidade, não quer carro. Tenho um filho de 20 anos na África do Sul que está na universidade. Comprei um Golf para ele há três anos, mas ele prefere o Uber. Pode beber, mandar e-mails, não se preocupa com estacionamento, é muito mais fácil. 

Como fica a indústria se as pessoas não comprarem carros?

Se o custo para a mobilidade cair, mais gente vai usar e, em razão disso, mais pessoas terão acesso a ela e a demanda vai aumentar. As empresas que fornecem serviços de mobilidade vão comprar mais carros. A economia dos países da região vai melhorar em algum momento e mais gente vai ter dinheiro e demandará mais mobilidade. Alguns mercados estáveis na Europa talvez terão problemas, mas a região não.

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