A volta do entulho cambial

A defesa de mudanças na política cambial dentro e fora do contexto político eleitoral equivale a uma aposta contra tudo o que deu certo. Pior, representa voltar ao passado, na medida em que se nega o êxito do processo liberalizante dos controles cambiais e do regime de câmbio flutuante.

Nathan Blanche, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

O êxito do regime de câmbio flutuante fica evidente na análise da evolução dos fundamentos econômicos do Brasil. Na comparação entre 1999 e 2009, o saldo comercial passou de -US$ 1,3 bilhão para +US$ 25,3 bilhões; o saldo em conta corrente, de -4,8% do PIB para -1,6% do PIB; as reservas internacionais subiram de US$ 36 bilhões para US$ 239 bilhões; sem falar na significativa redução da inflação e do prêmio de risco país.

Muitos têm defendido que a taxa de câmbio de equilíbrio deveria ser "controlada" em níveis mais depreciados, o que aumentaria a competitividade dos exportadores e, sobretudo, da indústria. Cita-se o exemplo da China, onde o crescimento acelerado, sem inflação, é acompanhado de moeda desvalorizada. Tecnicamente, a comparação com o Brasil é inválida. A poupança doméstica chinesa é de 45% do PIB, enquanto no Brasil é de 15,2% do PIB (o setor privado contribui com 18,5% e o público, com -3,3%). Consequentemente, o consumo doméstico chinês é de 36% do PIB, enquanto aqui é de 60%. A taxa de investimento na China é de 43% do PIB e, aqui, de 16,7%, dos quais a contribuição do governo é de 1,3% e do setor externo, de 1,5%.

Na verdade, o exemplo chinês que devemos seguir é o do elevado nível de poupança, que permite aumentar investimentos e, assim, o potencial de crescimento. Sem isso, precisaremos cada vez mais de poupança externa para crescer, e medidas de controle de capitais só limitariam a expansão.

Outra falácia é dizer que o Brasil sofre da doença holandesa e, consequentemente, concluir que a desindustrialização nos leva ao atraso tecnológico. É importante destacar que a pauta exportadora brasileira é mais diversificada que a de países como Austrália, Nova Zelândia, Chile e Canadá, cujo peso de commodities nas exportações também é importante e não são considerados países atrasados.

Os setores de agronegócios, mineração e siderurgia participam com cerca de 53% na pauta de exportação (2008). Mas sua contribuição no saldo da balança comercial é de 290%. Qualquer barreira nas exportações desses setores afetaria muito os saldos em conta corrente. Para gerar superávits e competir no mercado externo, superando as mazelas e o custo Brasil, tais setores fazem uso de alta tecnologia e não menos que os setores industrial e de serviços. Assim, a qualificação de que a "tecnologia boa é a que vem para a indústria" é, no mínimo, enviesada.

Voltando ao câmbio de equilíbrio, uma comparação feita pela Tendências entre uma cesta de moedas de países que têm similaridades com o Brasil (grande participação de commodities na pauta de exportação e a corrente de comércio) - Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Chile, Noruega e África do Sul - e o real mostra que este está alinhado à realidade de um país exportador de commodities. Há uma boa aderência entre o real e essa cesta em todo período, com pequenos descolamentos conjunturais, como na eleição presidencial em 2002. Com base em que fundamentos, então, se declara que a atual taxa de câmbio está apreciada e que a taxa de equilíbrio seria mais depreciada? Parece que essa avaliação se deve mais ao saudosismo de uma política cambial ultrapassada.

O mundo mudou e principalmente a economia brasileira. Tentar encobrir e buscar, por meio de mecanismos de desvalorização cambial, soluções para superar ineficiências e problemas mais estruturais da economia será um novo mergulho no passado, com consequências negativas para o País e para o crescimento econômico. "Nunca antes na história" as condições da economia doméstica e internacional foram tão favoráveis para nos impulsionar para o estágio de país desenvolvido. Para aproveitar a oportunidade, no entanto, temos de dar continuidade às reformas estruturais iniciadas nos últimos anos da década de 80 e que estagnaram ao final do primeiro mandato de Lula, em vez de sinalizar que voltaremos ao passado, especialmente em questões-chave de política econômica, como o câmbio flutuante e a abertura econômica, que é menor comparada aos demais emergentes.

São fartas as propostas para desvalorizar o real, desde a adoção de controles de capitais até taxação das exportações de commodities. O resultado imediato disso seria a alta do câmbio, gerando pressão inflacionária, que demandaria aperto monetário, impactando o crescimento.

SÓCIO-DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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