A volta dos títulos de renda fixa exige cautela

A sistemática queda dos juros vem elevando o interesse dos investidores por papéis de renda fixa privados. Grandes empresas têm lançado, com sucesso, lotes vultosos de títulos de renda fixa para investidores institucionais e individuais. O que os especialistas discutem, porém, são os riscos dessas emissões.

CLÁUDIO GRADILONE, REUTERS

05 de junho de 2009 | 19h36

O crescimento da emissão de títulos de renda fixa ganhou força em 2006 e 2007, na esteira da euforia com o mercado de capitais. Em 2006, os investidores captaram cerca de 88 bilhões de reais em debêntures, notas promissórias, fundos de recebíveis e títulos imobiliários, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI).

No ano seguinte esse valor caiu para 67 bilhões de reais, não porque o mercado tenha fechado, mas devido ao enorme interesse dos investidores por ações. As empresas brasileiras puderam, pela primeira vez, optar de maneira equânime por ações ou debêntures, balanceando seu custo de capital da forma mais adequada às suas necessidades financeiras.

Em 2008, o valor subiu para 74 bilhões de reais apesar da crise financeira ter abatido o mercado a partir do segundo semestre. A explicação para esse salto foi a explosão nas emissões de um título mais simples e de prazo mais curto, as notas promissórias, cujos lançamentos avançaram de 10 bilhões em 2007 para quase 26 bilhões de reais em 2008.

Essa expansão ocorreu quase que totalmente no primeiro semestre. A maior flexibilidade fez com que os emissores desses papéis encontrassem investidores com capital disponível que não seria dedicado às ações enquanto durasse uma turbulência que, em um primeiro momento, parecia ser passageira.

Quando, poucos meses mais tarde, o mercado mostrou que a crise era muito mais profunda do que parecia à primeira vista, as emissões pararam totalmente. A soma de um sistema financeiro inoperante com prognósticos de desaquecimento econômico severo afastou os investidores dos mercados de capitais.

No Brasil, os recursos disponíveis migraram para os títulos de renda fixa dos bancos de primeira linha, considerados um porto seguro e rentável. Esse movimento foi amplificado pela posição extremamente rígida do Banco Central, que manteve o juro bastante elevado apesar dos sinais de desaceleração econômica.

CENÁRIO EM 2009

Passado o pior da crise, no início de maio de 2009, os investidores brasileiros depararam-se com um cenário em que ganhar dinheiro era muito difícil. Os juros começaram a recuar e prometem manter a trajetória descendente até o fim de 2009. Mais de um especialista prevê taxas referenciais de cerca de 8 por cento ao ano no início de 2010.

Mais do que isso, as ações apresentaram, nos quatro primeiros meses do ano, uma rápida recuperação. A bolsa brasileira apresentou um dos melhores desempenhos do mundo no início de 2009, reduzindo as estimativas de rentabilidade dos investimentos em renda variável. A alternativa, portanto, foi buscar os papéis de renda fixa.

Nesse cenário, emissões como a de Telemar, que chegou a pagar 115 por cento dos juros de mercado na colocação primária, foram um sucesso de público. A empresa planejou emitir cerca de 1 bilhão de reais em títulos destinados ao varejo negociados no sistema Bovespa Fix, da BMF Bovespa. Os investidores absorveram 2,6 bilhões de reais.

Outras empresas, como a holding Ultrapar, a Gol e a administradora imobiliária Multiplan poderão colocar mais 2 bilhões de reais em títulos de renda fixa no mercado nas próximas semanas.

É um bom negócio? Os emissores são empresas de primeira linha. O mesmo, porém, poderia ser dito há um ano de companhias como Sadia e Aracruz. Apesar de os lançadores de debêntures serem companhias muito sólidas, a dívida privada sempre é, por princípio, mais arriscada do que os títulos públicos.

Além disso, por trás da ênfase em lançar debêntures pode haver um movimento dos bancos para reduzir sua exposição a credores privados, transferindo os riscos para investidores. Cautela ao subscrever, portanto.

*O jornalista Cláudia Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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