A voz que vem de dentro

Caro CEO, quantas vezes você ouviu seu time de diretores no último mês? Muitas, imagino. Leu relatórios sobre as vendas, acompanhou índices de produtividade, de turnover, de reclamações no SAC, revisou suas últimas aparições na imprensa, agendou encontros com representantes de órgãos governamentais, conferiu indicadores de performance, preparou apresentação aos acionistas, e tantas outras coisas que requerem a envergadura do primeiro homem na condução dos seus negócios, bem como os conselhos dos mais altos especialistas, que compõem seu comitê executivo.

Bruno Carramenha*, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2016 | 07h15

Entretanto, quantas vezes, nos últimos anos, você parou para ouvir seus empregados? Não estou me referindo aqui às sessões de perguntas e respostas depois de uma apresentação sua ao time interno, nem aos encontros de “café com o presidente”. São iniciativas relevantes, mas, no geral, refletem perspectivas pessoais, não grupais, e, na maioria das vezes, expõe quem fala, portanto, o que se diz ali pode ser mais uma tentativa de autopromoção do que uma manifestação sincera sobre a realidade vivida na empresa.

Tampouco me refiro às pesquisas de clima, que – sim, são muito importantes, mas – só retratam um momento pontual da organização. Funcionam como fotografias, revelando como estamos naquele momento exato. Mas não mostram como, de fato estamos nos sentindo e, especialmente, o que tem nos levado a nos sentirmos assim. Pesquisas de clima são construídas sobre modelos preestabelecidos, que visam enquadrar o momento da organização em indicadores, e cumprem bem este papel, mas não o de ouvir efetivamente o empregado.

Dá trabalho. Mais do que ouvidos para escutar, é preciso ter coração para compreender e, muitas vezes, estômago para aguentar. Por trás dos números que compõem os índices de turnover, absenteísmo, engajamento (e tantos outros que os estatísticos insistem em criar) existem seres humanos se relacionando. Criando e recriando sua realidade diariamente, no lugar onde escolhem passar a maior parte do seu dia: a sua empresa.

Estou falando de cultura organizacional. Ouvir a voz que vem de dentro é mergulhar nos aspectos culturais que levaram a empresa a chegar onde chegou e que moldam os comportamentos dos empregados, positiva ou negativamente. Negligenciar políticas internas pode ser um aspecto cultural, assim como o hábito de celebrar resultados, entre tantos outros. Não existe cultura boa ou má, existe a cultura vigente e pode existir uma desejada. O caminho de uma até a outra tem que passar, necessariamente, pelo processo de ouvir essa voz interna.

Existem técnicas para fazer essa escuta atenta e identificar os aspectos particulares da cultura das organizações que moldam o dia a dia de trabalho e a forma como as relações se estabelecem na empresa. Mais do que técnica, entretanto, é preciso querer se conhecer para se transformar.

*CONSULTOR DE COMUNICAÇÃO E PROFESSOR DA GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES PÚBLICAS E DA PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO INTERNA NA FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO (FAAP)

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