A vulnerabilidade externa brasileira

O governo brasileiro decidiu eliminar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incidia sobre os influxos de capitais estrangeiros para renda fixa. O imposto havia sido implementado no final de 2010, quando o mundo vivia outra situação e era preciso defender nossa moeda do aumento da liquidez provocada pelo afrouxamento monetário e pela redução das taxas de juros no mercado internacional.

Antonio Corrêa de Lacerda, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h10

Embora aparentemente contraditória, a medida faz sentido. Há mudanças em curso no cenário da economia mundial que nos impõem novos desafios. A recuperação da economia norte-americana vai significar uma alteração de vulto na política monetária, afetando o câmbio. O impacto já se faz sentir com a valorização do dólar relativamente às demais moedas.

Do lado doméstico, temos observado uma forte expansão do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, que, no acumulado dos últimos doze meses até abril, atingiu US$ 70 bilhões, o equivalente a 3% do PIB. Não se trata de nenhum problema iminente de insolvência, muito pelo contrário. As reservas cambiais brasileiras passam de US$ 370 bilhões e temos recebido expressivos volumes de capitais externos, com destaque para os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE), cujos influxos, até recentemente, eram mais do que suficientes para cobrir as necessidades de financiamento externo. Este ano, no entanto, enquanto está havendo uma expressiva elevação do déficit, há uma retração dos influxos de IDE. Isso nos torna mais dependentes de outras modalidades de capitais externos, como portfólio (bolsa de valores), renda fixa, etc.

Quanto ao déficit em conta corrente, mais do que o seu volume absoluto ou relativo, chama a atenção a velocidade de sua deterioração, se levarmos em conta que há menos de seis anos havia uma posição de equilíbrio. A projeção da trajetória em curso nos levaria, no futuro, a uma situação insustentável. O prolongado período de valorização cambial, associado a um pouco favorável ambiente de competitividade sistêmica, ampliou significativamente nossa vulnerabilidade externa. A questão é que, com isso, nos tornamos mais suscetíveis a decisões que não dependem de nós, mas de investidores e operadores do mercado internacional.

Especialmente diante de um cenário de possível elevação das taxas de juros nos EUA tenderá a haver uma realocação do portfólio dos investidores mundo afora, com reflexos negativos nos fluxos de capitais destinados aos países em desenvolvimento, que se tornaram destinos preferenciais após a crise de 2008.

O real, neste cenário, tende a um grau maior de volatilidade e desvalorização, como já vem ocorrendo. Para evitar uma superdesvalorização (overshooting) da taxa de câmbio é necessário elevar os juros, assim como tomar medidas para atração de capitais externos, como a recente medida de eliminação do IOF sobre renda fixa. Nesse sentido, a equipe econômica tem mostrado uma postura pragmática, adequada à necessidade de alterar os rumos diante de novas circunstâncias.

Muito provavelmente, mesmo com o sucesso das medidas que o governo venha a adotar, a desvalorização do real será inevitável, principalmente em face de nossa situação de vulnerabilidade já descrita. O repasse da desvalorização cambial para os preços poderá ser amenizado, se for acompanhado, como é bastante provável, de um ajuste para baixo nos preços das commodities cotadas em dólares norte-americanos. Isso poderá compensar, ao menos parcialmente, a pressão da desvalorização do real sobre os preços domésticos

Infelizmente, trata-se da repetição de uma saga presente na história da economia brasileira. Sempre que aumentamos nossa exposição no balanço de pagamentos, diante de um cenário internacional adverso, a conta vem na forma de uma crise cambial e suas consequências. Já deveríamos ter aprendido a lição!

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