A zumbificação do dólar

Trump terá posição única em quase 100 anos ao nomear 5 dos 7 membros do Fed

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 05h00

O clima de euforia nos mercados globais, com os índices das bolsas de valores de vários países batendo recordes consecutivos de alta, a exemplo do Ibovespa, tem sido cortesia de um dólar fraco frente às principais moedas internacionais.

E essa fraqueza do dólar vem da firme percepção de que o Federal Reserve (Fed) vai retirar os estímulos monetários e elevar os juros básicos nos Estados Unidos de uma forma muito gradual, o que contribuiria para manter a forte demanda por ativos de riscos, como as ações, moedas e títulos públicos de países emergentes, em particular do Brasil.

Acontece que o mercado financeiro vem embutindo nas suas apostas uma normalização da política monetária americana bem mais gradual do que está sendo projetado pelo Fed, o banco central americano. Essa divergência em relação à trajetória da política monetária é bem mais acentuada para 2018. Por enquanto, os investidores teimam em não acreditar que o Fed vai cumprir o que está dizendo hoje em relação ao que vai fazer no ano que vem.

Os estrategistas de câmbio do banco alemão Deutsche Bank chamam de “zumbificação” (ou seja, de mortos-vivos) essa recusa dos investidores em precificar hoje nas taxas dos contratos futuros de juros e também no valor do dólar a projeção mais conservadora do Fed em relação a sua política monetária em 2018.

O que aconteceria então com a farta liquidez que hoje irriga mercados como o brasileiro se esses investidores despertassem de imediato dessa letargia?

Hoje, o Fed deve anunciar ao fim da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) que começará em outubro a enxugar o seu balanço patrimonial, equivalente a US$ 4,5 trilhões, ao reduzir mensalmente o ritmo de compras de ativos que vem adotando para estimular a economia americana desde a crise financeira mundial de 2008.

Normalmente esse evento poderia causar um ruído maior nos preços dos ativos, pois a redução do balanço patrimonial poderia resultar em forte aperto monetário. Mas o Fed, além de ter preparado o mercado com bastante antecedência, já avisou que conduzirá esse processo de forma a causar menos turbulência possível nos mercados.

A questão crucial, portanto, é em relação ao ritmo de elevação da taxa básica de juros americana.

Para 2017, o Fed prevê uma alta adicional dos juros, provavelmente em dezembro, além de três outras elevações em 2018. O mercado, por enquanto, não está levando a sério essa projeção, em particular para o ano que vem, e aposta que o Fed elevará os juros apenas uma única vez em 2018.

Essa postura reticente do mercado tem uma razão: apesar de a recuperação da economia americana seguir nos trilhos, com reflexo na diminuição da taxa de desemprego e na melhora dos salários, a inflação ainda não se aproxima da meta do Fed, de 2% ao ano. Após a divulgação do índice de preços ao consumidor americano de agosto, subindo 0,4%, mais do que o previsto, os investidores até aumentaram a probabilidade de uma alta de juros em dezembro, de 37,5% há um mês para acima de 55% agora.

A inflação é um dos motivos para uma divisão entre os diretores do Fed que querem a normalização da política monetária mais rapidamente e os que defendem a manutenção dos estímulos por mais tempo. Mas reside na composição da diretoria do Fed uma grande incerteza para 2018: além de o mandato da presidente da instituição, Janet Yellen, terminar em janeiro, outros quatro diretores terão de ser substituídos até o fim deste ano.

O presidente americano, Donald Trump, estará numa posição única em quase 100 anos: nomeará cinco (contando com Yellen) dos sete membros da diretoria do Fed.

Seria, portanto, um risco exagerado que o mercado está correndo em se comportar como um zumbi em relação à trajetória hoje prevista pelo Fed de três altas de juros em 2018 sem saber qual será a composição da diretora da instituição no ano que vem? Talvez não, pois o próprio Trump já se declarou como favorável a juros baixos e a um dólar fraco. Mas quem garante que os próximos membros do Fed não vão manter o roteiro já traçado pelos atuais diretores?

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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