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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

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José Roberto Mendonça de Barros
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Abaixo da superfície

A inflação parece ter dado uma folga. O IPCA de julho foi de 0,03% e o de agosto, 0,24%. Com isto, as taxas de 12 meses caíram para 6,27% e 6,09%, respectivamente. Mais uma vez o governo decretou vitória. Nada mais enganoso.

José Roberto Mendonça de Barros,

15 de setembro de 2013 | 02h14

Como mostra o primeiro dos gráficos acima, nunca foi tão forte a importância dos itens controlados pelo governo para "segurar" a alta dos preços, em que se destacam combustíveis, transporte urbano e energia elétrica. No ano encerrado em agosto eles subiram apenas 1,3%, enquanto os preços livres subiram 7,6%. Estes últimos representam a verdadeira face da inflação e o que as famílias visualizam no dia a dia.

O segundo gráfico revela que entre os preços livres destacam-se os serviços, que subiram 8,6% e os alimentos, com alta de 10,5%.

Entretanto, não apenas a verdadeira inflação está alta, como ela vai piorar daqui mais a frente, tanto no que depende dos preços livres quanto dos controlados. Vejamos primeiro o caso dos preços de mercado:

1. A deflação de alimentos das últimas semanas ficou para trás, tanto por razões sazonais quanto de mercado. Os preços de atacado entre 1 e 12 de setembro, comparados com a média do mesmo período em agosto, mostraram uma elevação de 8,8% no milho, 15,8% na soja, 8,1% no trigo, 24% no frango, 3,8% no boi e 8,8% nos suínos. Queda mesmo só ocorreu no café (-2%) e no feijão (-13.4%). Mesmo este último certamente terá seus preços elevados em torno do mês de novembro, antes da colheita da safra de verão. A recente desvalorização cambial já está nos preços de atacado e chegará brevemente ao varejo;

2. Na época natalina aparecerá o repasse do câmbio para outros bens de consumo. Se os dados de comércio seguirem melhorando, como os ocorridos em julho, a pressão será maior;

3. A volta do IPI para as alíquotas normais em móveis, utilidades domésticas e automóveis (estes no início do próximo ano) também resultarão em repasses;

4. Os serviços não mostram nenhuma tendência de queda. Por exemplo, espera-se que as anuidades escolares para o próximo ano sejam reajustadas, mais uma vez, bem acima da inflação.

Controlados. No caso dos preços controlados a situação, claramente, não é sustentável.

O caso mais evidente é o dos derivados de petróleo. Segundo os cálculos de Adriano Pires, no primeiro semestre deste ano a Petrobrás importou gasolina a R$ 1,59 o litro e vendeu no mercado interno a R$ 1,33. Com o diesel os dados são os seguintes: compra a R$ 1,74 o litro e venda a R$ 1,41.

Na escola de economia em que estudei, aprendi que esta operação comercial não faz bem para as empresas. Talvez por isto, mesmo um gigante como a Petrobrás esteja com seu fluxo de caixa exaurido e precise, de fato, de algum reajuste para seus produtos.

O caso das contas de luz é algo diferente. No inicio do ano, o governo decretou que elas deveriam cair 20% a partir de janeiro, após o que os reajustes das diversas distribuidoras ocorreriam de acordo com os cronogramas de revisão anuais.

Com isso, na inflação acumulada até agosto, as contas de energia mostram uma queda menor, de 14,4%. Reajustes futuros "lavarão" o beneficio, provavelmente reduzindo-o ou mesmo zerando-o até as eleições, quando mais um episódio de populismo tarifário deverá estar encerrado. No que depende da energia elétrica os preços monitorados devem subir.

Na realidade, o problema é ainda maior para os consumidores e contribuintes. Em decorrência de inúmeros problemas na implementação da nova regulamentação, que afetou produtores, transportadores e distribuidores de energia e do maior uso de térmicas, o tesouro estará gastando algo como R$ 20 bilhões, apenas neste ano para bancar a redução das tarifas.

O populismo tarifário ajuda na reeleição, mas custa muito caro. Pior ainda, a regulação do setor está em frangalhos e o mesmo continua a exibir sinais de fragilidade, como o recente apagão na região Nordeste acabou de mostrar. A este assunto voltaremos em breve.

É curioso que o governo mais ideologicamente estatista das últimas décadas conseguiu quebrar a geração de caixa e a capacidade de investimento das principais estatais de energia, Eletrobrás e Petrobrás, numa destruição de valor sem precedentes na história empresarial brasileira recente.

Com relação ao transporte público, certamente não teremos mais reajustes de tarifas até as eleições. Entretanto, o custo fiscal será crescente e, a partir de 2015, algo mais profundo terá que ser feito. É oportuno lembrar que a piora na situação fiscal poderá ser determinante num eventual rebaixamento na classificação de risco no País, que ora está em revisão negativa pela S&P.

A inflação não sairá das cercanias do topo da meta, o que vai exigir maiores incrementos na taxa de juros, mesmo com a mediocridade do crescimento econômico no corrente ano e no próximo.

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