Bobby Yip/Reuters
Bobby Yip/Reuters

Abandonando o vício em Apple

Taiwanesa Hon Hai tenta se livrar da dependência excessiva em relação a sua principal cliente, a gigante criada por Steve Jobs

The Economist

05 Setembro 2015 | 02h03

No interior de um galpão escuro em Shenzhen, cidade do sul da China, a revolução dos robôs está em andamento - mas sem glamour nenhum. O laboratório de testes é quente, úmido e um pouco empoeirado. Dezenas de unidades robóticas verde-azuladas, de grande porte, zunem e rodopiam, realizando movimentos concebidos para testar sua resistência ao executar tarefas que envolvem polir peças, operar máquinas e montar aparelhos. Inteligência artificial que é bom, nada: esses trabalhadores incansáveis não se movimentam com autonomia nem se aperfeiçoam com o que fazem.

"Somos uma empresa", explica Day Chia-Peng, da unidade de robótica da Foxconn, braço de manufatura terceirizada da taiwanesa Hon Hai. Seus chefes, sempre preocupados em controlar os custos, não querem pagar por robôs que encham os olhos, mas não adicionem valor. A Foxconn diz já ter mais de 30 mil unidades robóticas em operação, milhares delas na fábrica de Chengdu, no sudoeste da China, onde os operários humanos não chegam a cem. Além de produzir robôs sob medida internamente, a empresa também investiu US$ 118 milhões numa divisão da Softbank, a companhia japonesa que fabrica o Pepper, um autômato avançado.

A incursão na robótica também como fabricante, e não mais apenas como usuária, é só uma parte das tentativas de diversificação da Hon Hai. Sua divisão Foxconn se sai tão bem na produção em larga escala de manufaturados de alta qualidade que há tempos é a terceirizada favorita da Apple, de cujos bolsos saem em torno de metade das receitas do grupo taiwanês. Mas a gigante de tecnologia vem tentando reduzir sua dependência em relação à Foxconn, que já chegou a produzir 90% dos dispositivos móveis da companhia americana, mas agora talvez seja responsável pela fabricação de dois terços deles.

Daí que a Hon Hai venha experimentando muitas coisas novas. Sua iniciativa mais recente é o "chip-packaging", um procedimento bastante lucrativo, em que semicondutores são embutidos em produtos como pulseiras e relógios inteligentes. Em 28 de agosto, a companhia anunciou que pretende adquirir uma participação de 21,2% na Siliconware Precision Industries (SPIL), uma "chip-packager" taiwanesa, que, por sua vez, ficará com uma participação de 2,2% na Hon Hai. O acordo entre as duas empresas frustrou os planos de outra firma compatriota, a Advanced Semiconductor Engineering (ASE), que pretendia comprar uma grande fatia da SPIL. A ASE diz que ainda não desistiu do negócio.

No mês passado, a Foxconn decidiu investir US$ 5 bilhões na construção de uma fábrica de eletrônicos - sem especificar exatamente que tipo de eletrônicos pretende produzir - na Índia, dando a entender que talvez venha a instalar mais uma dezena de plantas por lá. A Hon Hai também anunciou que negocia a aquisição de uma participação numa divisão da Sharp ou a criação de uma joint venture com essa fabricante japonesa de telas de LCD que vem passando por maus bocados. Negociações de mesmo teor entre as duas companhias, realizadas em 2012, acabaram não dando em nada.

Nicolas Baratte, da corretora de ações CLSA, diz que a diversificação faz sentido para o grupo. As margens da Foxconn, que representa 95% do negócio principal da Hon Hai, são inferiores a 4%. A dependência excessiva em relação à Apple não é o único problema. Aproximadamente 40% das receitas da Foxconn vêm da fabricação de servidores e equipamentos de rede para meia dúzia de empresas, como Cisco, Juniper, HP, Huawei e Dell. "Eles exploraram ao máximo a participação de mercado que têm nessa área também", diz Baratte.

Acontece não é fácil realizar diversificações bem-sucedidas. Entrar na área de "chip-packaging" parece ser uma decisão sensata, mas, caso não consiga atrapalhar o negócio da Hon Hai com a SPIL, a ASE deve mover uma concorrência implacável, e as margens do segmento perigam cair. Entrar em outros setores que fazem uso intensivo de semicondutores, como o de LCDs, pode, em tese, proporcionar margens mais elevadas, mas o fato é que, na prática, a Sharp é uma empresa no vermelho. A investida em automação fabril também parece se uma boa maneira de adicionar valor, mas Baratte acha que, com uma estrutura até agora voltada para a produção em larga escala, a Hon Hai enfrentará dificuldades para vender kits robóticos sob medida para milhares de pequenos consumidores. "Atualmente a empresa tem só quinze grandes clientes", diz ele.

Pelo menos esses esforços apresentam alguma relação com as competências centrais da Hon Hai. Algumas das outras iniciativas do grupo nem isso têm. É o caso de seus investimentos pesados em varejo de massa na China e em Taiwan, que não deslancharam, e também da aquisição, a peso de ouro, de uma licença de telefonia móvel 4G em Taiwan - negócio que a companhia justificou com o argumento duvidoso de que isso a ajudaria a vender equipamentos para operadoras de telecomunicações. A Hon Hai também vem despejando dinheiro, sem uma estratégia clara, em empreendimentos de comércio eletrônico. E faz até planos de começar a fabricar painéis solares.

Alberto Moel, da empresa de pesquisas Sanford C. Bernstein, chama esses esforços de "dipiorficação", e aconselha a companhia a se concentrar em empreendimentos que tenham lógica industrial. Moel observa que, na tentativa de reduzir a dependência em relação à Apple, a ação mais bem-sucedida da Hon Hai até o momento foi começar a produzir celulares para a Xiaomi, uma forte concorrente chinesa da empresa americana.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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