Guilherme Buzzo/VegPet
Guilherme Buzzo/VegPet

ABC é mais Vale do Silício do que Detroit, avalia especialista

Região já abriga mais de 70 startups e tem várias incubadoras e laboratórios

Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

Em 2014, startup era uma palavra que não cruzava as fronteiras do ABC paulista. Pelo menos essa foi a impressão de Victor Ramos quando lançou o VegPet, um e-commerce de alimentos vegetarianos para cães e gatos com sede em São Bernardo do Campo. “No começo, a gente buscava investimento e as pessoas, sem entender a lógica de uma startup, perguntavam quanto do CDI renderia o dinheiro empenhado.” Hoje, a VegPet fatura mais de R$ 1 milhão por ano e é uma das mais de 70 startups existentes nas sete cidades da região.

Nos últimos três anos, o perfil da economia do Grande ABC, muito ligado à atividade industrial, tem mudado. O setor de serviços já responde pela maior fatia do PIB, o número de empreendedores aumenta e há demanda crescente por inovação. Um dos primeiros pontos de encontro dos “startupeiros”, como são denominados esses empreendedores, foi o Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (ITSCS). Hoje, as iniciativas para desenvolver projetos inovadores se multiplicam. Além do ITESCS, as Universidades Metodista e Federal do ABC criaram incubadoras, há laboratórios do Senai-SP e do Instituto Mauá e até escritórios de investidores instalaram núcleos regionais. 

Criada no segundo semestre do ano passado, a Mondó, incubadora da Universidade Metodista, em São Bernardo, nasceu com o objetivo de estimular o empreendedorismo entre os alunos. “Sempre se formou profissionais para o mercado formal, para as grandes empresas que estão aqui. Queremos ir além disso”, diz o professor e coordenador da incubadora universitária, Antero Matias. 

Atualmente, dos nove projetos incubados na Mondó, cinco são de alunos. Além do espaço para trabalho, a incubadora presta serviço de mentoria de projetos e oferece cursos de gestão de negócios. “Apostamos no que ainda não existe, apostamos em ideias”, afirma Matias.

Para o presidente do ITESCS, Luiz Schimitd, o ABC está mais próximo de se tornar uma versão paulista do Vale do Silício, região da Califórnia reconhecida por suas empresas de tecnologia, do que Detroit, também nos EUA, que ainda tenta se reestruturar após a crise que atingiu o setor automobilístico americano há quase dez anos. “A região é geograficamente pequena, mas com potencial logístico enorme e boas universidades. Além disso, as empresas daqui necessitam cada vez mais de serviços inovadores.”

Estreitar os laços

O ecossistema de startups local se desenvolveu de forma bastante independente e o interesse do setor público e das empresas do ABC ainda é baixo, na opinião do coordenador da Mondó. No entanto, esses laços começam a se estreitar. 

Há um ano, a prefeitura de São Bernardo lançou o Centro de Empreendedorismo e Inovação Tecnológica. O primeiro edital selecionou 19 projetos que estão, agora, em desenvolvimento. O segundo edital tem inscrições abertas até 24 de setembro. 

O setor produtivo também busca aproximação. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) prevê para o primeiro semestre de 2019 uma edição do programa Acelera Startup em São Bernardo. “O grande desafio é trazer para as pequenas e médias empresas a cultura de inovação”, avalia Claudio Barberini Jr., diretor do Ciesp na cidade, que esteve presente na quinta-feira passada no Fórum Estadão - O futuro do ABC: os novos caminhos para São Bernardo. 

Para Luiz Schimitd, do ITESCS, essas oportunidades levam a apostar que as startups podem mudar a matriz econômica local. Depois de ver sua empresa nascer e crescer na região, Ramos, da VegPet, também acredita nisso. “Sempre procuramos manter nosso negócio no ABC, aqui temos mais conexão. Essa primeira onda de startups tem potencial para estimular novas ondas de inovação.”

 

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