Abertura de capital 'secreta' faz sucesso nos EUA

Nova modalidade permite que os dados das companhias só sejam divulgados poucos dias antes da estreia na bolsa

ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, CORRESPONDENTE/ NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h06

Uma nova modalidade de abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) tem atraído cada vez mais interesse nos Estados Unidos. Duas em cada três empresas que querem lançar ações estão optando pelo que vem sendo chamado em Wall Street de IPO "secreto" ou "confidencial", no qual a companhia não precisa divulgar informações ao mercado durante o processo. Os dados só têm que vir a público poucos dias antes da estreia na bolsa de valores.

Em 2013, cerca de 70% das empresas que lançaram ações usaram a regra de confidencialidade, segundo dados da Renaissance Capital, especializada no mercado de IPOs. Uma das empresas mais conhecidas foi o microblog Twitter, em novembro. A MGM Holdings, dona dos estúdios de cinema Metro-Goldwyn-Mayer, também usou a regra e novos exemplos não param de surgir.

No último dia 7, a fabricante de câmaras para esportes radicais GoPro anunciou seu IPO por esta modalidade. A imprensa dos EUA cita ainda outras companhias que podem lançar ações pela regra ou que já podem até estar com o processo em andamento, como o site de aluguel de quartos e apartamentos Airbnb e o Spotify, criado para ouvir música online.

Acesso. A regra que permite o IPO secreto faz parte do "Jumpstart Our Business Startups Act" (Jobs, na sigla em inglês), lei sancionada pelo presidente Barack Obama em 2012. Como o mercado de ações andou de lado nos Estados Unidos naquele ano, as empresas só começaram a utilizar a nova medida mais intensamente em meados de 2013.

O objetivo é facilitar o acesso ao mercado de capitais das chamadas "empresas de crescimento emergente". Companhias com faturamento de até US$ 1 bilhão por ano podem fazer o pedido de um IPO e passar as informações para a SEC (a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos) de forma confidencial.

As trocas de correspondência entre o órgão regulador e a empresa são mantidas em sigilo. Os números da companhia, incluindo o balanço, só precisam ir a público até 21 dias antes do início das apresentações para investidores (roadshows). Empresas estrangeiras interessadas em lançar ações nos EUA também podem usar a regra.

Proteção. A intenção dos reguladores norte-americanos é evitar uma situação comum no mercado de capitais. A empresa faz um pedido de IPO e divulga informações financeiras e operacionais ao mercado que podem ser importantes para seus concorrentes.

Mas, nos meses de preparação, o mercado pode ficar mais volátil ou os planos da empresa podem mudar e ela precisa desistir ou adiar sua oferta de ações. Nesse caso, a empresa segue de capital fechado, mas seus dados estarão disponíveis. Com a nova regra, esse risco se reduz. O Twitter, por exemplo, entrou com a documentação na SEC para sua abertura de capital em julho, mas o prospecto com os números da empresa só foi divulgado em outubro, pouco antes da precificação e da estreia na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse), dia 7 de novembro.

Segundo estudo do escritório Latham & Watkins, um dos que aconselharam o governo na formulação da regra, a nova lei mudou "aspectos significativos" dos IPOs de uma empresa de menor porte. Ela pode, por exemplo, testar o mercado sem divulgar informações sensíveis aos concorrentes. Em média, as empresas começam os roadshows 126 dias depois de terem entrado com o pedido confidencial de IPO. Os setores mais interessados, segundo o estudo, são o de tecnologia, serviços financeiros, saúde e imobiliário.

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