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Abinee, há desindustrialização

Pode não estar havendo um processo de desindustrialização no Brasil, mas na indústria eletroeletrônica, há sim. Rápido e crescente. É o que afirma à coluna Humberto Barbato, presidente da Abinee que congrega as empresas do setor.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

A coluna abre espaço.

A indústria como um todo pode estar num processo de recuperação gradativa. Nós, decididamente, não, diz Barbato. "Estamos perdendo cada vez mais espaço para a produção importada porque eles têm vantagens, favores, subsídios de toda ordem com os quais não contamos aqui", afirma o presidente da Abinee.

O yuan chinês está cerca de 40% desvalorizado em relação ao dólar. O real está, pelo menos, 15% valorizado. "Ou seja, na hora de fazer um negócio, uma empresa instalada no Brasil já sai com desvantagem competitiva de 60% em relação a uma chinesa", adverte.

Não é produto leve. Aqui, Barbato faz um destaque especial. "Não estamos falando apenas de bens de consumo leves, mas de bens de capital e de infraestrutura, que às vezes chegam completos. E nosso setor emprega mais de 170 mil trabalhadores diretos e responde por cerca de 15% da produção industrial do país."

"Já alertamos o governo para o que está acontecendo. Há um processo de desindustrialização no setor eletroeletrônico, principalmente naquelas duas áreas." É sério e pode se agravar. "Como você disse na coluna, por conta de circunstâncias atuais, não há como competir com a China, os asiáticos, que têm condições favorecidas no mercado mundial", afirma o presidente da Abinee.

Ele recorda que na década de 1990, com a abertura indiscriminada, sem levar em conta nossa capacidade de produzir e competir, havia no Brasil 250 empresas de componentes. Hoje, pouco mais de 50 resistem à invasão de insumos importados. "Isso explica o déficit da balança comercial do nosso setor, onde os componentes representam mais de 50%."

Isso começa a repetir-se agora, porém de forma mais abrangente, que vai além dos componentes. Ela atinge também os bens finais das áreas de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica - GTD - e de Equipamentos Industriais, setores de tecnologia madura e mão de obra intensiva. Na base dessa perda de competitividade, está o real supervalorizado, que facilita as importações de produtos acabados.

Déficit este ano. Barbato aponta que outra prova que evidencia os efeitos negativos da política cambial e da falta de competitividade de segmentos do setor eletroeletrônico é o aumento da participação de produtos importados no faturamento, que passou de 15,9%, em 2005, para 20,4%, em 2009. Para 2010, a previsão é de que se aproxime dos 21%. "Essa é uma das mais contundentes evidências de que já vivemos um processo de desindustrialização."

Dados da Abinee destacam que, no final do ano, o real quadro do setor eletroeletrônico será definido pelo saldo da balança comercial de produtos, para a qual se espera um déficit recorde de mais de US$ 25 bilhões, visto que as importações estão num ritmo explosivo e não são compensadas pelas exportações.

Sugestões. Diante deste cenário adverso, Humberto Barbato entregou, recentemente, um documento ao ministro Guido Mantega reivindicando medidas compensatórias ao câmbio desajustado. Entre elas, destaca-se a desoneração da contribuição patronal ao INSS e ao Sistema S da parcela exportada da produção dos bens de GTD e Equipamentos Industriais, nos moldes da indústria de software, que, em 2008, teve a folha salarial das empresas exportadoras desonerada.

Outro proposta é restringir a isenção do Imposto de Importação somente aos produtos do setor elétrico que não tenham similar nacional. Há mais de cinquenta anos existe a preocupação com o produto de origem nacional, consagrada no conceito da similaridade no país.

Mais imposto. Além disso, o documento propõe elevar para 35% o Imposto de Importação para bens elétricos que tenham similar nacional. E isso por um período determinado, preservando as regras impostas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Por fim, a Abinee reivindica que seja elevado de 60% para 75% o índice de nacionalização nos financiamentos do Finame/BNDES. A medida, afirma Barbato, contribuiria para a elevação da participação do produto nacional, bem como garantiria a prioridade para os fornecedores locais de grandes projetos e obras do setor elétrico que estão sendo executadas no país.

Mantega anuncia defesa. Na última quinta-feira, o ministro Guido Mantega afirmou que "parece que está havendo uma operação orquestrada para manter as moedas asiáticas desvalorizadas" e que o mesmo estaria ocorrendo nos EUA e na União Europeia. O governo vai reagir. O governo não deixará nenhum excesso de dólar no mercado, nem mesmo os resultantes de investimentos estrangeiros na capitalização da Petrobrás.

Nos EUA, o governo também anunciou mais medidas para conter a invasão asiática alimentada pela desvalorização do yuan. Só que a China e os parceiros asiáticos têm quase US$ 3 trilhões de reservas para se defender e a União Europeia anuncia que fará mais acordos bilaterais com eles. Parece que para a UE é melhor negociar do que brigar... com a gente.

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