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Abre as asas sobre nós

Bolsonaro parece não perceber que, se eleito, será o presidente dos #EleNão também

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2018 | 04h00

Nesta campanha, abusou-se do uso da palavra liberal. Ficou na moda como resposta ao desastre intervencionista dos anos recentes. Mas foi empregada de forma muito limitada, sempre se referindo a uma política econômica que privilegiasse a redução do Estado. No caso de Bolsonaro, sobram motivos para desconfiança na conversão do candidato na área econômica.

Há um permanente choque de ideias entre seus assessores. De um lado, os economistas que defendem abertura comercial e uma retirada radical do Estado na economia. De outro, os militares que participam ativamente do programa de governo e que possuem um viés nacionalista e intervencionista. A nostalgia dos anos 70 é bem reveladora.

Bolsonaro diz que está com a mão na faixa. E vem se portando de acordo, a começar pela ausência em debates. E, a menos que as pesquisas errem ainda mais neste segundo turno, deverá ser o próximo presidente.

Será eleito sem que se saiba qual seu programa de governo. O que pensa e o que fará Jair Messias na área econômica é um mistério. Ainda assim, o mercado celebra a vitória de um candidato dito liberal.

Bolsonaro e liberal na mesma frase sempre me surpreende. Não orna. Ao longo de sua longa carreira como deputado votou sempre alinhado com o PT e contra todas as reformas liberais. Mas não é só pelo seu passado como parlamentar que eu estranho. É todo o entorno do candidato, a começar pelos próprios filhos. Seus eleitores e apoiadores defendem uma agenda extremamente conservadora.

O tsunami Bolsonaro trouxe com ele para o Congresso e assembleias estaduais nomes que defendem uma pauta velha e retrógrada, como a do Juiz Witzel, favorito na disputa ao governo do Rio de Janeiro. Ninguém sabia quem era, mas bastou uma declaração no estilo “bandido bom, bandido morto” para que ele assumisse a liderança nas pesquisas.

Acontece que o liberalismo transcende a agenda econômica. A começar pela defesa da liberdade e a anarquia dos espíritos. Ser livre para ser quem quiser, pensar como quiser, se expressar, fazer escolhas sem a tutela e intervenção do Estado. Tolerância, pluralismo, inclusão social, amor à liberdade dos outros e respeito à diversidade são a marca definidora de um espírito liberal.

O capitão está ciente disso? Tudo sugere que não; dos comentários preconceituosos à ameaça de controlar a imprensa através de verbas oficiais. Na sua fala do último domingo, ressuscitou o velho “Ame-o ou Deixe-o”, marca dos anos de ditadura e de triste lembrança. Ainda não parece ter ficado claro para ele que, se eleito, será o presidente dos #EleNão também. E de todos os brasileiros.

De toda forma, nas democracias a limitação do poder do chefe do governo não depende de seu altruísmo. As instituições servem para isso, com pesos e contrapesos. A reação da sociedade e do próprio STF ao ataque antidemocrático de Eduardo Bolsonaro ao tribunal foi rápida e forte, mostrando que não serão tolerados arroubos autoritários. As ofensas à ministra Rosa Weber e ao TSE receberam a mesma resposta do Supremo. Cabos, soldados, coronéis, STF, presidente da República e todos nós devemos respeito e obediência à Constituição

O Congresso Nacional tem enorme responsabilidade na defesa das regras constitucionais. Muita gente celebrou o encerramento da carreira política de senadores como Sarney, Lobão e Lindbergh, entre outros. Na euforia, esqueceram que o Senado perdeu nomes como Ricardo Ferraço (ES) e a Câmara perdeu deputados como Betinho Gomes (PE) – dois parlamentares que nos últimos anos foram grandes defensores das reformas liberais. Farão falta numa casa atropelada por uma onda conservadora.

Os novos que entraram não chegam a simbolizar uma renovação. A substituição da velha bancada foi liderada pelo conservador PSL, que, com o PT, formarão os dois maiores grupos da Câmara. Tudo indica que a polarização continuará intensa no Parlamento. Mas nem tudo é má notícia.

Movimentos de verdadeira renovação na forma de atuação política, nascidos dentro da sociedade civil, vêm se fortalecendo em contraste com a falta de oxigenação dos partidos tradicionais. O Livres, meu preferido e do qual faço parte, elegeu parlamentares (deputados federais e estaduais e um senador ) por diferentes partidos, que vieram se juntar a vereadores e um prefeito. Juntos, defenderão permanentemente o liberalismo na economia e nos costumes. Com eles, vai nascendo a bancada da Liberdade.

*ECONOMISTA E ADVOGADA

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