Abrir uma empresa motiva cada vez mais jovens

O Boticário Para especialistas, frustrações do emprego convencional e desafio de criar algo novo alimentam o sonho do empreendedorismo

GISELE TAMAMAR, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h36

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O jovem preza pela liberdade, quer mostrar suas competências e fugir de funções burocráticas nas empresas. E o caminho enxergado por ele para atingir esses objetivos está no empreendedorismo. Pesquisa feita pela Cia de Talentos e Nextview People mostra o negócio próprio como a quarta opção no ranking "empresa dos sonhos" elaborado pelas duas instituições. No ano passado, a opção aparecia apenas em 102° lugar.

Dos 46.107 pesquisados com idades entre 17 e 26 anos, 56% têm interesse em empreender e 4% já têm uma empresa. Para a presidente do Grupo DMRH/Cia de Talentos, Sofia Esteves, a conclusão do estudo demonstra que os brasileiros não empreendem mais por necessidade, mas porque enxergam uma oportunidade de negócios.

"O jovem tem uma expectativa maior do que é possível ter dentro de uma empresa. Ele quer trabalhar da sua maneira, deixar um legado e construir uma marca", afirma Sofia.

A pesquisa também confirma a percepção do coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper, Marcelo Nakagawa, que lida todos os dias com o tema e com universitários. "O jovem está mais incomodado com o tipo de oferta de emprego que encontra. Alguns se decepcionam, acham que o trabalho não tem relevância para a empresa ou não encontram espaço para demonstrar sua capacidade", observa o especialista.

O desejo de empreender sempre esteve no horizonte de Ana Carolina Urquiza, hoje com 23 anos. Mas ela não esperava que fosse realizá-lo tão cedo. No fim do ano passado, Carolina e as amigas Fernanda Rosset, 25, e Albane Le Mari, 22, inauguraram a pâtisserie Le Jardin Secret, que funciona na Vila Madalena, bairro de São Paulo.

O negócio surgiu quando Ana e Fernanda foram visitar Albane na França. Lá, o trio conheceu as flores cristalizadas. Brilhantes e crocantes, elas são consumidas como se fossem balas. "Achei o máximo e estudamos a oportunidade de trazer para o Brasil", conta Ana. Fernanda, com alguma experiência em confeitaria, ainda teve a ideia de misturar as flores com doces para agradar o paladar brasileiro.

Antes de abrir a pâtisserie, Ana fez dois estágios durante a faculdade de administração. No primeiro, ela executou um projeto pessoal. "Foi mais gratificante. Mas o outro era operacional e eu não tinha liberdade para mudar alguma coisa", conta Ana. Hoje, ela tem essa mobilidade e o negócio cresce 50% a cada dois meses e tem faturamento médio mensal de R$ 30 mil.

A empreendedora Camila Kuramoto Romero, de 28 anos, também passou por várias experiências até sentir-se realizada profissionalmente. Cursou dois anos de engenharia, mas optou por administração e até abrir sua própria empresa fez estágios e chegou a trabalhar na indústria farmacêutica. "Aprendi muito, mas também tive momentos de frustação, de não conseguir aplicar e desenvolver tudo o que aprendi", lembra.

Durante a organização do seu casamento, Camila deparou-se com as dificuldades de encontrar uma empresa de decoração que unisse custo acessível e personalização. Assim surgiu a Camila K. Flores e Festas. "Na própria empresa é possível ter a visão do todo e consigo me desenvolver de uma forma que não conseguiria se fosse funcionária."

EDITORIAL

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O excesso de exigências legais e administrativas asfixia as empresas brasileiras, qualquer que seja seu porte, mas é particularmente nocivo para as pequenas e médias.

A complexidade do sistema legal, das regras tributárias e da legislação trabalhista - que exige equipes próprias para assegurar o rigoroso cumprimento das normas, que mudam muito e impõem custos adicionais, afetando seu desempenho - foi apontada por grande número de pequenas e médias empresas como o maior obstáculo para seu crescimento.

É um importante componente do "custo Brasil" - que compromete a competitividade das empresas em geral - cujo efeito não é facilmente mensurável, mas de impacto notável sobre a atividade das empresas de pequeno e médio porte, como constatou a pesquisa da empresa de consultoria e auditoria Deloitte sobre as empresas desse porte que mais crescem no Brasil.

Para 69% das empresas ouvidas pela pesquisa, o sistema legal e tributário é o que mais lhes impõe custos, pois, além do excessivo peso dos impostos sobre a atividade econômica, lhes exige a designação de um grupo de funcionários para cuidar da documentação e do cumprimento das normas. Mesmo assim, 46% foram multadas ou notificadas nos últimos três anos por descumprimento das obrigações legais ou tributárias.

A legislação trabalhista, em vigor há quase 70 anos e considerada em boa parte inadequada para a realidade da economia brasileira, é outro obstáculo ao crescimento apontado pelas pequenas e médias empresas.

Outra dificuldade relevante para essas empresas é a cadeia de suprimento, um item aparentemente exclusivo do ambiente empresarial. Na verdade, porém, o que torna o suprimento um problema para elas é a má qualidade do sistema de transporte e de logística do País. Isso tem tudo a ver com o poder público, responsável pela qualidade da malha rodoviária, pelo sistema ferroviário, pelos portos e aeroportos. Há esperança de melhora nesse campo, com o programa anunciado em agosto pelo governo federal, mas os resultados surgirão lentamente.

Com tantos problemas, sobra pouco tempo para as empresas se dedicarem à inovação - isto é, ao desenvolvimento de novos produtos e novos métodos e sistema produtivos -, essencial para enfrentar a concorrência e conquistar mercados. Daí o item inovação ser apontado como o quarto principal desafio das pequenas e médias empresas.

Chega a ser surpreendente que, em ambiente tão hostil, boa parte delas cresça, algumas a um ritmo intenso. É uma grande demonstração de vitalidade na adversidade.

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