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Acabou ou não, BC?

É consenso que o atual nível dos juros já está abaixo do que seria a taxa neutra

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2018 | 05h00

A esmagadora maioria das apostas para a primeira reunião do Copom de 2018, marcada para os dias 6 e 7 de fevereiro, é de um novo corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic, para 6,75%.

Há ainda, contudo, dúvida sobre se esta será a derradeira redução dos juros básicos e se o Banco Central deixará claro no comunicado que acompanha a decisão uma simples mensagem sobre o atual ciclo de corte de juros: acabou!

Os contratos futuros de juros embutem uma probabilidade minoritária, por enquanto, de o BC cortar a Selic em 0,25 ponto também na reunião seguinte, a de março, o que levaria a taxa para 6,50%. Na mais recente pesquisa Focus, do BC, a mediana das estimativas dos analistas é de uma Selic a 6,75% no fim deste ano, mas a aposta de médio prazo do chamado Top 5 (o grupo de analistas que mais acertam as projeções para esse indicador) prevê uma taxa a 6,50% no fim de 2018.

É consenso entre analistas que o atual nível dos juros básicos já está abaixo do que seria a taxa neutra, ou seja, a política monetária está injetando mais estímulos a fim de acelerar o crescimento da economia. E isso só tem sido possível porque a inflação segue baixa e numa trajetória considerada benigna.

O IPCA-15 de janeiro, por exemplo, subiu 0,39%, abaixo da mediana das projeções, que era de uma alta de 0,42%. Em 12 meses, o IPCA-15 acumula alta de 3,02%, bem abaixo da meta de inflação do BC para 2018, de 4,50%. O índice mais favorável do IPCA-15 em janeiro teve uma contribuição importante das contas de energia elétrica, reflexo da bandeira tarifária verde. Por outro lado, houve um sinal de cautela: após sete meses de deflação, os preços do grupo Alimentação e Bebidas voltaram a subir, com alta de 0,76%.

Seria isso um sinal de que, com a recuperação da atividade econômica prevista para este ano, a trajetória de alta de inflação poderá ganhar fôlego mais rapidamente do que o esperado?

Nesse caso, seria prudente o BC seguir cortando os juros após a redução esperada para a reunião do Copom da próxima semana?

Qual o custo/benefício de reduzir mais os juros básicos? A economia ainda precisa de uma mãozinha do BC? E se a inflação voltar a subir com maior velocidade, o BC pode se ser forçado a ter de trocar de marcha e elevar os juros de forma mais abrupta?

De um lado, há vários analistas dizendo que a recuperação da economia já está contratada, mesmo diante das incertezas oriundas às eleições presidenciais deste ano, e que, tecnicamente, não há tanta diferença entre uma taxa Selic a 6,75% e a 6,50%. De outro, muitos argumentam que a ociosidade na economia é tanta, após dois anos de profunda recessão, que o BC tem espaço para trazer os juros básicos bem abaixo da taxa neutra sem correr risco de deflagrar uma maior pressão na inflação.

Nessa equação, um fator importante é a cotação do dólar, que tem grande peso sobre a inflação. A moeda americana encerrou 2017 a R$ 3,3155. Com o cenário externo favorável e após a condenação unânime do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Turma (TRF-4), tornando o petista inelegível, o dólar recuou para o patamar ao redor de R$ 3,16.

Ou seja, a inflação ainda rodando abaixo do esperado e o dólar em queda ante o real abrem espaço para o BC cortar juros não somente na semana que vem, como também na reunião do Copom de março.

Por enquanto, embora a maioria dos analistas ainda acredite que uma redução adicional de juros em março é desnecessária, muitos deles também creem que o BC não vai se comprometer a encerrar o atual ciclo explicita e peremptoriamente no comunicado que acompanhará a decisão na semana que vem, deixando-lhe a opção de reduzir a Selic em março caso o ambiente externo e os indicadores domésticos de atividade e inflação endossem tal movimento.

Assim, o BC terá a difícil tarefa de encontrar um equilíbrio ao sinalizar para o mercado que o ciclo de corte de juros acaba, sim, na semana que vem, “pero no mucho”.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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