Açaí vira alternativa a desmatamento na Amazônia

Açaí vira alternativa a desmatamento na Amazônia

Energético e antioxidante, cultivo do fruto tem dissuadido pequenos proprietários de optar pela derrubada de árvores

Hélène Seingier, AFP

18 de outubro de 2014 | 15h53

Com um facãoentre os dentes, um jovem abraça o tronco, apoia os pés descalços na casca eescala aos saltos até o alto de uma palmeira, 20 metros acima. O rapaz corta otalo de um cacho de frutos e depois desliza até o chão com seu botim na mão. Perdidano final de um caminho de terra no coração do Estado do Acre, a aldeia deSenibu aposta na colheita do açaí para evitar o desflorestamento da Amazônia.

A palmeiraque produz este fruto roxo, energético e antioxidante, cresce de forma naturalnesta selva milenar. Grupos ambientalistas, entre eles a organizaçãoWWF-Brasil, destacam seu valor para dissuadir os pequenos agricultores de optarpelo desflorestamento. “Antes nos queimávamos as árvores para criar lotes esemear milho ou feijão”, explica o trabalhador do campo. “Como o açaí é vendidoa bom preço, já não derrubamos mais. A floresta se converteu numa fonte dereceita”, ele prossegue. 

Com 4,2milhões de quilômetros quadrados de floresta amazônica, o Brasil possui 67%desta imensa reserva de água doce e de biodiversidade, segundo o Ministério doMeio Ambiente. Só no ano de 2003, 5.800 quilômetros quadrados despareceramdeste território brasileiro, segundo o Instituto Nacional de PesquisasAvançadas (INPE). 

Só no Estadodo Acre, 12 mil quilômetros quadrados de árvores foram destruídos entre 1988 e2011, o equivalente a uma superfície maior que a do Catar. No coração do que éoficialmente a Amazônia se sucedem colinas tão baixas como campos de golfe,salpicadas pelas manchas brancas do gado. O tráfico de madeira e a agriculturasão os culpados. 

“Parapreservar a floresta é preciso sensibilizar os habitantes, mas também é precisopropor-lhes alternativas à pecuária ou à mandioca. É a sobrevivência de suasfamílias que está em jogo”, explica Andréa Alexandre à AFP, pesquisadora emengenharia florestal em Rio Branco (capital do Estado). 

O Índice deDesenvolvimento Humano (IDH) do Acre é um dos mais baixos do Brasil. Desde queo suco gelado de açaí, ultra-energético, entrou na moda nas cidades daAmazônia, e também nas praias do Rio de Janeiro, os agricultores começaram aobter bons preços. “Nós o vendemos a R$ 5 o litro e não a R$ 2 como se vendiaalguns anos atrás”, ressalta Doraci Pereira de Lima. 

A produção,contudo, continua a ser muito artesanal: este agricultor debulha os cachos àmão, transporta os frutos numa trouxa e os passa para um primo, proprietário deuma trituradora rudimentar. 

A máquina engole todas as bagas e as faz rodar comose fossem bolinhas de gude até que expulsam um suco espesso e roxo, cujo gostoé parecido com o de chocolate amargo.A WWF-Brasilse propôs como meta “salvar um milhão de árvores” entre 2009 e 2016. Paraisso, reforçar a produção do açaí é uma das estratégias. “Mas o desafio égigantesco: os povoados muitas vezes só são acessíveis por canoa e os frutosapodrecem em 48 horas“, assinala Kaline Rossi, responsável pela operação daWWF-Brasil.

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